Spring Over Ashes * Primavera Sobre Cinzas – Hardcover Version – Versão Capa Dura or/ou ebook

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Spring Over Ashes * Primavera Sobre Cinzas – Paperback Version – Versão Brochura or/ou ebook

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Words of the Wind – The Video of the event

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Poetry Beyond Borders: Words of the Wind – first poetry reading event of Writers Beyond Borders

Poetry Beyond Borders: Words of the Wind - first poetry reading event of WBB

Poetry Beyond Borders: Words of the Wind

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Crônicas & Opiniões (entre 1995 e 2000) – muitas publicadas no jornal O Estado de Minas

Dracul

 Mário Flecha – jornalista

Cantado em prosa, verso e imagens desde tempos imemoriais, em diferentes culturas o mito do vampiro viaja nos séculos assombrando a imaginação de crianças e adultos. Príncipe das trevas, o embaixador do Demo no planeta reina com seu charme e sedução entre as personagens do terror. Do novelo de símbolos deste final de milênio ergue-se renovado de sua cripta e projeta sua imagem espectral nas telinhas, telões e demais meios de comunicação que se desenrolam à sua passagem. Num cardápio variado, do terror ao humor, o vampirismo atrai até hoje multidões.
Autoridades linguísticas divergem quanto à origem da palavra vampiro. Alguns a atribuem ao termo turco uber, que significa bruxo, outros ao termo polonês upire que designa sanguessuga. Sem sombra de dúvida, a palavra húngara vampir está ligada a estes seres espectrais.
Donos de muitos nomes e origens, os vampiros existem desde as civilizações da Assíria e Babilônia (cerca de 2000 a 1000 a.C.), ocorrem também entre os gregos, chineses, hindus e africanos, mas boa parte das histórias que os consagraram provém dos povos eslavos: Hungria, Sérvia, Morávia, Boêmia e da famosa Transilvânia (região ao sul da Romênia, vincada por elevações de difícil acesso).
O vampirismo ganhou asas e se alastrou pelo mundo após o batismo literário do Conde Drácula (tataravô dos vampiros depois que fizeram a fama e deitaram na cama), personagem do romance de Bram Stoker (nascido em Dublin, Irlanda, em 1847), que após exaustivas pesquisas sobre o folclore vampírico tomou de empréstimo a figura do lendário Conde Vlad Tepes, também conhecido como Drakul (Dragão), para escrever sua obra mais conhecida: Drácula.
Vlad, governante da província da Valáquia nas vizinhanças da Transilvânia, tinha paixão por torturas e mortes terríveis, sendo o responsável pelo fim de mais de vinte mil pessoas. Ambígua figura de herói e sádico, era famoso por seus feitos em batalhas, inúmeras mortes por empalamento (método que aprendeu em Constantinopla, onde realizou seus estudos) e desaparecimentos em condições misteriosas dos muitos que adentraram as muralhas sombrias de seu castelo.
Sua fama não estaria completa se nela não fossem incluídas mocinhas virgens e indefesas cobradas às vilas como forma de não lhes causar maiores males e desgraças e como garantia de proteção aos amedrontados súditos. Juntam-se ao seu séquito, fiéis serviçais apreciadores de um cardápio pouco recomendável.
Stoker pesquisou também a vida da Condessa Elizabeth Bathory, que supõe-se ter vivido na Transilvânia entre fins do século XVI e começo do XVII, e que adorava banhar-se no sangue de suas jovens servas, crente de que isto a rejuvenescia. Até mesmo estranhos casos de “bebedores de sangue”, investigados pela calejada polícia inglesa, sempre às voltas com episódios policiais indecifráveis, foram usados como tempero para o romance.
Enorme sucesso editorial e cinematográfico fico, nosso Conde reúne hoje um vasto arsenal de poderes renováveis que ultrapassam, de longe, os mais sofisticados recursos de que dispõe a tecnologia. Muito antes pelo contrário, os toma como aliados e põe abaixo os esforços filantrópicos dos tataranetos do Doutor Van Helsink, seu perseguidor incansável , que tinha a seu lado antes de mais nada a Ciência, e de forma mais discreta, as forças religiosas do bem. Drácula j morreu muitas vezes e renasce sempre diante de seus mortais exterminadores.
Muito superior a qualquer Transformer ou Manimal, uma das qualidades de um vampiro‚ sua capacidade de transformar-se em outras criaturas, todas detentoras de alguma fama e de hábitos noturnos: morcegos, lobos, cães ou uma prosaica névoa que penetra os locais mais fechados.
Nosferatus e Mefistófeles povoam os mitos de muitas culturas em diferentes regiões do globo assim como a “grande água”, numa alusão atávica ao possível degelo ocorrido em tempos remotos. Mas se a existência de seres vampirescos não pode ser comprovada, o mesmo não se pode dizer de suas constantes e recorrentes aparições na literatura, poesia, música, revistas em quadrinhos, cinema etc.
Na Era da Imagem são inúmeros os exemplos. Aos vampiros estão ligados nomes famosos que compõem uma extensa lista, entre eles Boris Karlof, Bela Lugosi, Vincent Price, Klaus Kinsk, Werner Herzog, Fritz Lang, Roman Polanski, Sharon Tate, George Hamilton, Sir Richard Francis Burton, David Bowie, Catherine Deneuve são apenas alguns entre os internacionais.
No Brasil, Jorge Mautner, Rita Lee, Caetano Veloso, entre outros, tropicalizaram o “Mestre”. Mesmo Carlos Drummond de Andrade não se esquivou ao tema do vampirismo em sua poesia: O vampiro resume as assombrações que me visitavam/no tempo de imagens! Enfrento-o cara a cara,/aperto-lhe a mão, propondo-lhe em desafio minha carótida./Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam/sem que me dissessem e eu soubesse qual./Crime, loucura, danação,/todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
“Rastro de sedução na noite escura da alma”, o vampiro mitifica a velha história da exploração do homem pelo homem. O poder total, a anulação completa do outro, a submissão e entrega do ser ao desejo insaciável e egoísta, a promessa da imortalidade e símbolo do medo e terror, componentes essenciais dos jogos de poder, sedução e erotismo sadomasoquista. E, é claro, a velha divisão racionalista da luta entre o bem e o mal, de acordo com a tradição maniqueísta.
Este é o encanto do vampiro, o que o torna atraente e terrível. O vampiro montou sua cripta exatamente no abismo desta divisão. Entre inocência e pecado, permitido e interdito, luz e treva, realidade e desejo. Logo ali, na neblina do limbo.
Por motivos não tão óbvios, mas com certeza nem um pouco mágicos, às mulheres o senso comum atribui o adjetivo “vamp” com relativa facilidade. Termo pouco utilizado em relação aos moçoilos nosferatus encontráveis em grande número. O espírito do machismo (especialmente o refinado), aliás, condiz com as melhores técnicas vampíricas de abordagem de vítimas.
Importante ressaltar que nem sempre a figura do vampiro é uma pessoa. Muitas vezes é uma instituição ou organização que incorpora o espírito vampiresco. Sob este prisma o vampirismo é até mais comum que o ar que se respira.
O filme Powaqqatsi, dirigido por Thomas Reggio e produzido por Copolla, cujo título foi tomado de empréstimo à língua Hopi (tribo do México), apresenta em imagens uma possível versão do sentido da palavra: uma entidade que se alimenta da energia vital dos outros seres, levando-os à exaustão completa e à morte. Uma visão mais singular da internacionalidade cotidiana do vampirismo, menos preocupada com a face do vampiro, que nem sempre a tem.
O vampiro mora onde reina a ilusão e a confusão. Bicho esperto, sabe torcer os fatos. Nada melhor que uma saudável fachada franciscana para abocanhar pescoços incautos. Segundo informes recentes, os vampiros descobriram a cura contra o sol, alho, cruz etc. Tomam leite, não fumam, são corados e têm um apetite invejável. Do antigo vampirismo teria ficado apenas a voracidade, seu bem inalienável.

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Informática: a que será que se destina?

 Mário Flecha – jornalista

 

Uma questão que se coloca: a tecnologia de informação, por si, não é isenta de conteúdo político e ideológico. Enquanto instrumento apenas reflete as intenções e objetivos daquela parcela da sociedade que ocupa os níveis de decisão.

Estamos vivendo um momento propício a mudanças, em todo o país. Há um desejo de modernizar, simplificar, tornar eficiente, barato, estável, qualitativamente melhor. As elites políticas e econômicas têm sabido agregar ao seu vocabulário este discurso, na tentativa de tocarem os anseios e esperanças desta grande “biodiversidade” que é o povo brasileiro. A nós, pobres mortais, cabe discernir o joio do trigo, descobrir no jogo de esconde-esconde aqueles que estão propondo e/ou fazendo o que o país e a grande maioria de sua população necessitam e demandam.

A Informática é uma faca de dois gumes, afiada e por demais poderosa para que seja usada e manipulada segundo os desígnios de poucos. Também não podemos nos dar ao luxo de termos, entre nossos políticos mais confiáveis, um comportamento de indígenas do tempo da colonização, eufóricos diante do malicioso colonizador a distribuir espelhinhos, chips e bits. Há uma carência de parlamentares habilitados à discussão desta matéria. Trata-se de uma vasta “Terra de Ninguém”, onde uma minoria tem decidido questões de interesse nacional.

Não existem projetos de governo, nos tempos atuais, que se sustentem sem o uso competente e correto da informação através da tecnologia. A questão é se a tecnologia está realmente a serviço daquilo de que mais necessitamos em nosso cotidiano: saúde pública de qualidade, educação idem, eficiência e boa vontade do funcionalismo, controle e uso correto dos cofres públicos e da arrecadação, informação no momento certo e lugar exato, instrumentos de gestão capazes de fornecer uma visão de todo e ao mesmo tempo viabilizarem a descentralização administrativa.

Em Minas estamos vivendo situação particularmente interessante, pois temos um fator favorável: um Governador com experiência profissional neste setor e um Estado onde há muito o que fazer. Historicamente as áreas de segurança e arrecadação têm visto maiores investimentos em informática, enquanto outras ou não recebem o devido tratamento, ou não utilizam da melhor maneira os recursos a elas repassados.

Há ainda empecilhos de ordem burocrática que tornam morosa ou inadequada a liberação de verbas para projetos que vão se apresentando ao longo do tempo, diante das circunstâncias e oportunidades do momento. Além daqueles, frutos de planejamento, que necessitam ser resguardados das mudanças de governo, uma vez reconhecido seu valor estratégico.

Não é exagero afirmar a estrutura feudal e fragmentada da máquina estatal, onde as instituições se fecham sobre si mesmas, buscando um modelo de eficiência individual incapaz de responder às questões onde apenas a ação conjunta e a integração das informações garantem os resultados. A ênfase, portanto, não se encontra no “T” da Tecnologia, que pode ser a mesma tanto para um lado quanto para outro. Ela reside no “I” da Informação: a quem se destina e o destino que lhe é dado.

Numa sociedade de excluídos, a informática estabelece um nível a mais de separação: o dos que têm acesso à tecnologia e o dos que estão de fora. O cidadão comum tem pouca chance de se informatizar, tornando-se muito mais vítima do que agente neste processo. São medíocres, por exemplo, os investimentos em informatização de bibliotecas (o elo perdido da tecnologia de informação), um bom local para se iniciar a prática da informática social e sua socialização.

No futuro que se avizinha, não haverá muitos espaços para mão de obra barata e despreparada para lidar com o que já se caracteriza como fundamento da atividade produtiva das sociedades modernas: a Informação. Como bons mineiros, temos que nos aviar para não perdermos o Trem da História.

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A Insustentável Leveza do Software



Mário Flecha – jornalista

 

A imaterialidade do “software” é talvez a dimensão tecnológica da metafísica. A meta matéria, o abstrato produto da sociedade da informação. Bem de capital, bem de consumo, extensão congelada do pensamento a se reproduzir num moto perpétuo. Afinal, que formas tem uma ideia, um pensamento, um programa de computador? Suas representações também possuem a mesma característica intrínseca: a de serem filhas da abstração.

No mundo neoliberado do agora o que é o software? Finalmente o espírito, a razão sensível separados de um corpo com nome e história de vida, banalizados e reproduzidos em larga escala? A resultante sofisticada do trabalho criativo colocada em linha de produção? A própria racionalidade tornada mercadoria, animando máquinas, definindo as formas de uma sociedade fundamentada nas leis cibernéticas, profundamente complexa, mesmo que tal complexidade esteja nos levando a uma maior mediocridade?

O que os olhos não veem o coração não compra. A indústria do software expõe a primadíssima necessidade de tocar, cheirar, ver o objeto, ser seduzido por sua concretude, poder exibi-lo como símbolo de “status”, enfim tê-lo como uma coisa. O caráter incorpóreo exige a invenção da forma para encarnar o conteúdo, ganhar lugar nas prateleiras das lojas, adentrar o templo do consumo dos shoppings, formar consumidores.

Sim, somos objeto orientados, pelo menos em nossa versão cotidiana, quando desvestimos nossas roupagens de profissionais, cientistas, professores etc e nos tornamos meros consumidores. A transformação do software num artigo de consumo tão banalizado como o chicletes que se compra na padaria da esquina é uma aventura mercadológica que, talvez também por seu caráter imaterial, nunca venha a se registrar como a oitava maravilha da humanidade. Afinal, não é como a muralha da China, que pode ser vista em fotos de satélite.

Não deixa no entanto de ser um feito de uma minoria, que dá nó em pingo d’água, fazer com que uma maioria ávida por consumir, desde que devidamente seduzida pela aparência, leve para casa um produto tão carente de corpo.

Foi necessária a reconstrução de um mito (o computador e tudo o que ele atualmente significa), o desenvolvimento de uma imprensa especializada e fortemente ligada à indústria de software do primeiro mundo e a demolição fantasiosa de um saber especializado, que caprichosamente mantinha as maquininhas afastadas das mãos ávidas dos simples mortais. Tal saber carece de identidade social e uma ética profissional, mas não é descartável em nome do amadorismo. Seria o mesmo que advogar a prática da medicina por leigos.

Os softwares de lazer em multimídia são a quintessência do computador como novo meio de comunicação de massa da atualidade, a droga eletrônica de velhos “hippies”. É nestes produtos, que têm inundado prateleiras de lojas de informática, onde encontramos em grau mais alto este refinado uso da forma oca, onde um pequeno CD é envolvido numa roupagem toda especial, para se encarnar em algo palpável e comprável. O tamanho das caixas costuma ser muito maior que o conteúdo, além de farta e coloridamente ilustradas.

Existem softwares de joguinhos que vêm acompanhados de ursinhos de pelúcia como atrativos, ou que oferecem artigos vários juntamente com o produto adquirido, na busca de ocupar um lugar mais concreto e visualmente identificável.

Bill Gates que o diga. Ele sabe que no mais das vezes, a aparência vale mais que o conteúdo. Afinal é dele a afirmação de que, “se você não pode fazer bem feito, faça parecer bonito”. Eis aí uma receita de sucesso em vendas, talvez um tanto quanto inescrupulosa mas eficiente para o consumidor do tipo “me engana que eu gosto”.

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Os elefantes brancos da Informática

 

 

Mário Flecha – jornalista

 

Nunca foi feita – que eu saiba – uma estatística do que é realmente utilizado e o que é lixo informático ocupando espaço nos micros caseiros. Se houvesse, os resultados possivelmente seriam alarmantes: de todos os softwares, incluindo games, o usuário médio domina uma parte bem pequena deles. O resto fica armazenado nos discos/disquetes exatamente como aquela bagunça crônica de algumas gavetas, na eterna espera de um dia vir a ter utilidade. Nas empresas esta realidade não é muito diferente (salvo raras exceções). Jogar tempo e dinheiro fora com coisas de informática é uma coisa consentida em nossa sociedade, já viciada no desperdício e no consumo cego e idólatra de tecnologia.

Também na informática profissional não seria muito difícil constatar o sem número de sistemas desenvolvidos que naufragam no nascedouro das implantações, ou ficam existindo como zumbis, sem nenhuma utilidade real, justificando o desperdício em projetos mal feitos. É difícil gerenciar o invisível e saber o que é grande e com que recursos contar. Nestes casos, ainda é muito comum tratarem-se projetos estratégicos na base do improviso dos caixotes de bacalhau do boteco do seu Joaquim.

Na construção de prédios, barragens, navios e coisas assim, que envolvem muitos recursos em jogo ao longo do tempo, parece que temos uma maior competência adquirida e uma folha mais limpa de fracassos. Mais: o que dá errado nessa área vira manchete de jornal, pois é impossível ignorar um viaduto que pára na metade ou uma usina nuclear desativada. No micro mundo da informática, estamos cheios de elefantes brancos, só que não podem ser vistos. São muito mais elefantes do que imagina nossa vã filosofia, povoando um zoológico que vai de empresas públicas aos mais “avançadinhos” da qualidade total no mercado privado.

No Brasil, boa parte da incompetência administrativa do país se apresenta em sistemas obsoletos e falhos, que permitem todos os tipos de falcatruas e desmandos e se perpetuam ao longo dos anos, reproduzindo na tecnologia a realidade moldada pela burocracia e outros males.

Existem dois ingredientes fundamentais para o bom resultado de um projeto de software: o primeiro deles está ligado à lucidez daqueles que desenvolvem um sistema e sua capacidade de apreender a realidade na qual o sistema atuará. O segundo implica na qualidade do produto, a qual depende essencialmente daquele que o faz. Neste caso, a qualidade de um software reflete a competência de quem o fez. É um produto intelectual, não depende exclusivamente de maquinários sofisticados, nem da última tecnologia seja ela qual for. Sem o espírito humano criativo e preparado tecnicamente, além de maciços investimentos em recursos de hardware, software e infraestrutura de apoio, adeus qualidade.

Os líderes mundiais na produção de software sabem disso e pagam à altura para manterem-se no mercado. Seus investimentos no fator humano correspondem aos lucros auferidos. Neste mercado não há espaço para improvisos. O retorno garantido vem na medida em que se investe na formação e contratação de profissionais qualificados, com um conhecimento que ultrapassa de muito o do “mecânico de software”, figura facilmente encontrada no mercado profissional brasileiro.

Por muito tempo marcamos passo na obsessão (a qual se explica pelos lobbys e interesses envolvidos na reserva de mercado) de produzir componentes e hardware. O país virou as costas à sua maior riqueza e capacidade, o conhecimento e competência profissional para a produção de software. Hoje, quando já estamos correndo atrás do prejuízo, vemos países como a Índia e o bloco dos Tigres Asiáticos emergindo neste setor, enquanto nos transformamos praticamente em consumidores passivos da tecnologia de informação como um todo.

Potencialmente temos elementos para reverter este quadro, deixando de ser apenas consumidores para sermos também produtores, tornando-nos referência no mercado mundial da informação, para onde, tudo indica, a modernidade está nos levando. Existem muitos nichos a serem ocupados, mas certamente não o faremos se a mentalidade de nossos empresários, trabalhadores e sindicatos não mudar quanto ao profissional da informação e à natureza desta atividade.

Estamos caminhando rapidamente para nos transformarmos, também nesta área emergente e rica em possibilidades, em grandes e meros consumidores. Há incentivos oficiais, iniciativas isoladas mas não há efetivamente um esforço nacional centrado na industrialização do software e da indústria da informação. O que se apresenta, isto sim, é um empanturrado consumismo tecnológico encantado pelas aparências e esquecido do fundamental.

Com os ventos da globalização, o profissional de informática não tem país, seu mercado de trabalho é o mundo. Contratar valores despontando, talentos escondidos, estejam onde estiverem, atrair indústrias de software para desenvolverem e pesquisarem aqui, compartilhando know how e desenvolvendo produtos brasileiros típicos da sociedade da informação fazem parte de uma política de fomento neste setor, que potencialmente pode determinar muito de nosso futuro.

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A Quem Pertence a Informação?

 

Mário Flecha – jornalista

 

A quem pertence a informação pública? Em nossa informática das bananas, pertence aos iluminados (ou obscuros) que têm acesso a ela, para fazerem o que bem entenderem. Não é novidade: informações e dados são comumente apropriados para usos que vão da “limpeza” de multas de trânsito à falsificação de documentos, como os do INSS e de habilitação, roubos eletrônicos a contas bancárias (dos quais nunca temos muita informação), dossiês individuais mantidos por órgãos de repressão, grampos eletrônicos, etc etc etc. São incontáveis dispositivos orientados para se apropriar desta coisa incorpórea, que não gasta, não desaparece se for roubada – pelo contrário, se replica e multiplica com a maior facilidade.

Para não ir muito longe, temos um exemplo dos mais notáveis em nossa história recente: o confisco do Plano Collor, que efetivamente demonstrou o grau de controle obtido sobre informações que eram de nossa exclusiva posse. As decisões sobre essas informações nos afetaram diretamente, de forma geral (exceto para os ungidos com informação privilegiada), através de um controle exercido por sistemas bancários altamente computadorizados.

Nossos dados individuais e muitos outros que nos dizem respeito estão em poder de instituições das quais nada sabemos e contra as quais pouco podemos. São negociados sem maiores cerimônias, na Terra de Murici onde poucos cuidam de si e azar dos outros. Sim, as maravilhas da tecnologia são muitas. Mas serão apenas maravilhas? Se há alguma coisa chamada pós-modernidade, esta coisa será cheia de eletrônica, microchips, redes globais e muita concentração de poder. Especialmente em mãos de empresas transnacionais, com satélites imperiais circundando o planeta e fazendo girar a roda da fortuna (literalmente) em vastidões oceânicas de dados (pra lá do terabyte!).

A Internet, rede que nasceu financiada por instituição militar, hoje se espraia mundo afora, derrubando fronteiras e lançando as miragens de um verdadeiro império paraíso sem dono. Mas o time majoritário ainda é (com perspectivas de continuar sendo) o dos barrados no baile da informação, com passaporte negado – de nascença – para o maravilhoso mundo cibernético. A informação convertida em mercadoria vai se restringindo aos que podem pagar por ela. Este nível de dependência poderá se estender desde o indivíduo até o Estado, em especial o Estado do terceiro mundo, cada vez mais dependente da tecnologia e sofisticação que não pode produzir localmente (exceto pagando royalties). É possível que nos tornemos clientes de balcão de empresas de tecnologia de telemática ainda mais do que já somos.

Claro que não se trata de ficar de fora. Mas não é o caso de entrarmos de qualquer maneira, como se estivéssemos mergulhando de cabeça numa piscina vazia. Do ponto de vista do conhecimento científico, já vivemos situação semelhante à que ocorreu no setor agropecuário, em que muitos de nossos técnicos e pesquisadores foram cooptados pela indústria de fertilizantes e produtos afins através de um farto programa de mestrados e doutorados em países exportadores destes produtos, que se legitimaram através do saber.

O saber é universal, o que é muito bom. Isso, porém, não pode se converter em justificativa legitimadora de um mercado arquimilionário, do qual poucos serão donos e muitos dependerão. A discussão destas questões em nossa sociedade sequer começou. Estamos mais para a euforia diante de Caramuru. Somos ainda mal aparelhados jurídica e politicamente para defendermos nossos interesses nessa área, como sociedade e como cidadãos. Navegar (pela Internet) é preciso. Mas discutir também é preciso – para que não paire sobre a informática essa aura de panaceia intocável. Para que políticos, sindicatos, grupos ecológicos, enfim, a sociedade civil comece a incorporar efetivamente a questão da Informação – com todo seu imenso potencial de intervenção na vida das pessoas e do planeta – em sua pauta de debates e propostas.

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Tecnologia ma no Troppo

 

Mário Flecha – jornalista

 

Surpreendentemente, segundo pesquisa realizada em fevereiro de 1995 e publicada pela revista “Newsweek”, constatou-se que 55% da população adulta americana quer ficar longe dos computadores (representam aproximadamente 130 milhões de pessoas) e que apenas um quarto dos lares do país do Tio Sam possui computador. Os “Americans Unpluged” (literalmente americanos desligados da tomada) têm deixado o silêncio e se manifestado das mais diversas formas contra a febre de consumo de informática que invadiu parte da sociedade, o governo e os meios de comunicação (e, infelizmente, se falamos deles falamos de nós).

Segundo o manifesto do terrorista Unabomber, que desde 78 explodiu 16 bombas, matando 3 pessoas e ferindo 23 nos EUA, esta febre tecnológica seria a própria consolidação da tirania tecno industrial que estaria em curso de forma silenciosa, sob a fachada ufanista de que quanto mais tecnologia melhor, com vivas à infovia, à privatização da informação e ao alegre empreendimentismo individualista. Infelizes dos que não nasceram para ser empresários. Que se contentem com o salário enquanto for possível ou virem-se como puderem quando forem desempregados e sumariamente substituídos por robôs. Observe que este tem sido um dos argumentos utilizados para justificar o desemprego estrutural no Brasil: a nova tecnologia.

A despeito dos seus atos completamente condenáveis, as ideias de Unabomber geraram grande curiosidade, esgotando a tiragem do “The Washington Post” em menos de 6 horas. Radicalmente, em 7 páginas do jornal, Una propôs o retorno à vida em pequenas comunidades e a destruição de todos os computadores. Desta forma, o homem estaria livre do processo de escravização imposto pelas grandes corporações fabricantes de “high-tech” e os governos.

Estes seriam, aliás, os principais mentores, executores e beneficiários, juntamente com o aparato de comunicação de massa, que estariam conduzindo grandes rebanhos de consumidores à sua própria danação. Tudo envolto em muito dólar, política e alienação consumista. Colhidos na rede lançada inicialmente pelo Departamento de Defesa dos EUA, através de sua Agência de Projetos Avançados de Defesa (DARPA) nos anos 60, a qual congregava e continua congregando cientistas de computação de universidades americanas (atualmente do mundo todo, numa alegre cooptação e concentração de conhecimento gratuito financiado pelos países), a antiga Arpanet transformou-se em Internet, à qual milhões de usuários se lançam como mariposas na luz em alegre entusiasmo.

Apesar da quantidade de “plugados” estar aumentando mundialmente, parece que a discussão das políticas tecnológicas ainda não atingiu o céu da consciência das pessoas, que andam “desligadas” deste processo decisório, ocupadas demais com o novo brinquedinho.

Uma discussão que deveria começar pelo significado do trabalho na vida do ser humano, parece ser questão secundária diante das razões e justificativas do capital privado. Enfim fica claro que a sociedade como um todo existe para realizar os objetivos das corporações, às quais serve caninamente o Estado. A modernidade tecnológica não considera que seja de sua esfera de problemas a distribuição da riqueza, o acesso igualitário à Educação, Saúde e coisas assim. A miséria, violência, corrupção e outros tantos males são questões metafísicas, “karma” que alguns tantos pagam por vidas passadas.

Talvez tempos mais obscuros que a Idade Média nos estejam reservados, mas nunca estivemos tão próximos do contrário. O esforço feito na ganância pelo lucro pode ser o mesmo para o bem-estar geral. A diferença fundamental está em termos a tecnologia como um meio para a realização das individualidades no tecido social e não como o instrumento de realização do lucro em benefício do individualismo de alguns e às custas de um resto cada vez mais resto.

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Informação Redundante: o preço do desperdício

 

Mário Flecha – jornalista

 

Pode não parecer à primeira vista, mas este problema – o da informação redundante – diz respeito a todos nós, em vários momentos da vida cotidiana, e nem mesmo o mais renitente neoludita (avesso à tecnologia) dele escapa totalmente. Sua solução não se compra em lojas e supermercados, ou se aprende em dicas sintéticas das muitas revistas “bit, byte” que se publicam em profusão. As analogias devem ser usadas com algum cuidado, mas são um bom recurso para ajudar na produção de “insights” daquilo que é o essencial. Assim sendo, vamos a elas.

Imagine-se numa casa muito grande, cheia de relógios. Agora imagine que chegou o fim do horário de verão, e que você terá de acertar sozinho todos eles, um a um, se quiser garantir que a informação seja a mesma em todos os cômodos. Dependendo do número de relógios, este pode ser um trabalho custoso, consumidor de tempo e energia. Pense então na possibilidade de, usando uma tecnologia mais atual, acertar apenas um relógio e fazer com que o mesmo seja acessível de todos os cômodos através de uma tela.

Este exemplo, muito simples, nos mostra o problema da redundância, uma coisa que nem sempre é ruim, mesmo quando se trata de informação, mas que em geral significa problema. Mais ainda quando transpomos este quadro para as empresas públicas e privadas, as grandes cidades, enfim, as organizações em geral.

O que significa a redundância de informação? Em que medida isto nos atinge como cidadãos, clientes, consumidores, trabalhadores e outros papéis que desempenhamos? De diversos modos. Por exemplo, num banco em que, para cada conta que você tem, é necessário todo um processo de cadastramento de seus dados pessoais. Um dia você muda de endereço, ou o nome da cidade onde você e muitos outros clientes moram passa a ser outro. Cada uma das fichas cadastrais terá de ser alterada e, na melhor das hipóteses, estará havendo desperdício.

Digamos que você mudou de endereço mais de uma vez e que estas mudanças foram registradas em diferentes fichas cadastrais por pessoas de diferentes seções do banco. Qual o endereço atual? Ou ainda uma dívida sua já saldada em determinada instituição: o pagamento é atualizado na tesouraria, mas até que a informação chegue à cobrança você já recebeu outra cartinha desaforada. E aquelas malas diretas que chegam pelo correio repetidas só porque você existe no cadastro mais de uma vez?

O que dizer então das informações na Administração Pública, desde a esfera federal até a municipal? Kafka não conhecia a informática quando escreveu “O Processo”, mas toda a essência da burocracia kafkeana está presente em nossos meandros burocráticos informatizados. Nossos dados pessoais (e um bocado de nossas vidas) encontram-se fartamente esparramados em duplicata nas diversas instituições públicas, em versões diferenciadas, consumindo meio magnético, equipes técnicas, programas, procedimentos, material de impressão, gerando um “Custo Brasil” a ser considerado.

Além disto, dando margem à corrupção, falseamento de informações, injustiças e ineficiência em cima de ineficiência, mas com o que há de mais atual em termos de tecnologia. Lembremo-nos que, antes da informática, os fichários de papel eram a alternativa, e a redundância era uma necessidade para que as seções pudessem trabalhar com alguma eficiência, apesar dos efeitos colaterais.

No começo por limitações da tecnologia, mas atualmente por uma visão distorcida de um bom número de profissionais e dirigentes, o problema dos fichários foi propagado para sistemas em banco de dados e ainda persiste na concepção de muitos projetos implementados em high-tech.

Estes são desafios tecnológicos atuais que nos afetam e por isto mesmo merecem nossa atenção. Há necessidade de organização para influenciar nestas questões de forma positiva e firme. Ainda mais quando nosso país é considerado um dos mais promissores mercado consumidor de produtos de informática. O único problema é que ainda estamos na era da inocência em termos de consciência crítica, especialmente quando se trata de tecnologia.

 

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Neo falácias Tecnológicas

 

Mário Flecha – jornalista

 

O estado-da-arte no varejão tecnológico surpreende mais pela capacidade de vender até avião caindo do que pela tecnologia em si. São incontáveis os compulsivos tecnóides que não perdem a chance de comprar o que lhes cair à frente (a cada segundo nasce mais um). E dá-lhe neologismos, anglicismos, indústria de vocábulos, meias-verdades, hermetismo técnico, computes. Seria prudente desconfiar, mas quantos são os que podem dominar sua compulsão contando até dez?

Estes tempos são curiosos, pois são um laboratório a céu aberto, um filme em câmara rápida da plena ascensão de uma tecnologia e de todo um mercado, à semelhança do que aconteceu com o automóvel, só que em ritmo muito mais acelerado. Neste vale-tudo, determinadas leis e cuidados do consumidor, assim como a ética do vendedor, parecem ser colocadas em suspenso. O bom senso vai pras cucuias e o senso comum se exacerba no frenesi e calor das vendas.

Parece daquelas promoções de supermercado que assanham os consumidores ao ponto destes se atirarem sobre os produtos rifados pelo alto-falante. É uma nova corrida do ouro, o retorno ao Velho Oeste. O tempo da oportunidade, onde quem ficar de fora está perdido. Nesta Serra Pelada tecnológica, aventureiros e vigaristas de plantão é o que não falta. O produto é novo, cheio de mística, promove quem está em cima, é meio de ascensão para quem está embaixo, gera lucro, simboliza dinamismo, modernidade, qualidade, eficiência e poder.

Na prática a teoria é outra. Antes de mais nada é preciso que se diga o seguinte: quem compra um computador nos dias de hoje deve assumir que está adquirindo junto com ele um bocado de sofrimento, angústia e desgaste. São estressantes horas e horas até conseguir um ambiente instalado, estável e que corresponda a pelo menos 50% das expectativas iniciais.

Por si só este já é um mistério, pois raros são os produtos em que o consumidor tope gastar dinheiro para sofrer e ter tanta amolação. São poucas as máquinas e “softwares” do tipo “plug and play”, em geral estão mais para “plug and pray” (ligue e reze).

É sabido que uma das características definidoras da era da modernidade é um certo tipo de confiança (que eu chamaria mais de credulidade) nos sistemas peritos. Sem a mesma, dificilmente andaríamos em aviões, carros e trens; não usaríamos o correio, o fogão a gás, a eletricidade, os meios de comunicação; os bancos “24 horas” e um sem número de tecnologias que fazem parte da vida cotidiana.

Muitas destas tecnologias, em seus primórdios tiveram que conquistar seu espaço sob grande ceticismo e condições desfavoráveis: o telefone foi uma delas. Algumas fracassaram totalmente: é o caso dos dirigíveis (assim mesmo, teve que morrer muita gente incinerada nas chamas do hidrogênio antes da condenação final). A ciência tornou-se um novo tipo de deus, e é por ela que se renovam as certezas, que duram cada vez menos, pois logo uma nova verdade desbanca a anterior.

O poder de sedução das tecnologias da informação parece superar qualquer outro, incluindo aí o deus automóvel. Quando se quer alguma coisa de forma tão passional, se está disposto a não considerar nada muito racionalmente. Custe o que custar. Talvez sem esta crença muito do que hoje atingiu sua maturidade não existiria de forma tão disseminada. Neste sentido, apostamos intuitivamente na importância desta coisa tão incompleta e instável, onde ainda se promete muito mais do que efetivamente se faz: o mundo do computador e sua indústria.

São muitos os exemplos de serviços e produtos oferecidos que em geral ficam aquém das expectativas geradas. No entanto, à medida em que mesmo frustrados mantemos nossa crença oferecemos um crédito ilimitado a esta tecnologia que vive uma segunda infância, ao ir se tornando praticamente um eletrodoméstico cujo uso foge ao domínio exclusivo de especialistas.

É por isto que suportamos tão pacientemente sistemas de Imposto de Renda com problemas de instalação, softwares de “home bank” que não funcionam adequadamente, o vazio e o excesso de bobagens da Internet (onde muito poucos sabem o que vale a pena e onde encontrar), os erros e falcatruas cometidos através da informática pública e seus sistemas incompletos e obsoletos, impressoras e a eterna caçada ao “driver”de acentuação correto, a falta de segurança das redes, erros de programas etc. Tudo está apenas começando. Que tenhamos todos um bom ano novo e o melhor dos futuros.

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Clube do Bolinha

 

Mário Flecha – jornalista

 

As forminhas de bolo de nossa cultura machista continuam em uso. Pais e mães machistas engendrando filhos e filhas machistas, perpetuando o atraso na evolução de seres mais plenamente realizados durante esta passagem rápida pela vida. E não é que no mundo da high-tech a coisa se confirma! Também ali o Clube do Bolinha. Computador fica no quarto do varão, a pretensa racionalidade superior masculina foi feita sob medida para as máquinas, a maioria esmagadora dos joguinhos versam monotonamente sobre o mesmo tema: guerra, luta e jogos de competição, revelando, e com muita clareza, a concepção limitada daqueles que os fazem, apesar da competência do fazer.

Claro, a exclusão de todos os marginalizados é notável no processo de informatização, mas aqui vamos isolar apenas a do feminino, que perpassa todos os estratos sociais, nos quais a mulher é igualmente discriminada. O mecanismo social (acima de qualquer tecnologia) que reproduz e mantém esta discriminação encontra-se em todas e em cada uma das pessoas e das instituições. Por que teríamos então algo diferente ocorrendo nos domínios da informática?

Quantos jogos ou softwares dedicados ao universo feminino encontramos hoje no mercado? Tão inexpressivo que chega a ser nada. Pode-se dizer que é uma demonstração de incompetência empresarial em nível mundial. Por que não ocupar este filão de mercado? Faltam mulheres entres estes empresários e técnicos talentosos? É provável que sim, mas de qualquer forma, o que abunda é o machismo. Uma forma silenciosa, dissimulada e educada desta autocracia do masculino, que vive além das racionalizações e do discurso, que impregna nossos atos mais banais e nossas atitudes mais automáticas e impensadas. Que mora onde nunca deixamos penetrar a dúvida, oculta sob o obviamente natural jeito de ser.

A lógica do cotidiano e da vida natural rege nossos atos mais banais. É o mesmo mecanismo que atua quando vemos algum adulto bem criado jogando ao chão papel, toco de cigarro ou coisas do gênero sem a menor cerimônia ou incômodo. Na verdade nem se apercebe, ou quando isto acontece, tece mil desculpas interiores para justificar-se. Talvez o preço que pelo menos duas gerações têm de pagar seja o de conviver com uma certa artificialização do comportamento pessoal, buscando transmitir aos descendentes um modelo mais humano e menos exclusivamente masculino (ou feminino se a hegemonia fosse o oposto).

Rompida a cadeia da mesmice, será possível tanto mercadológica quanto profissionalmente obtermos uma situação de igualdade de condições e respeito mútuo pelas diferenças, que se somariam sinergicamente (o efeito em que 1 + 1 é mais que 2), ao invés da exclusão e supervalorização de um dos lados da mesma moeda.

Assim é que, segundo números publicados pelo fascículo especial da revista Veja intitulado “Computador, o micro chega às casas”, 80% dos usuários da Internet são homens (não é à toa que as páginas pornográficas da WWW são das mais acessadas, apesar da baixa velocidade de transmissão que ainda predomina no Brasil) e que 97% dos professores em ciência da computação também pertencem à ala masculina.

E olhem que mesmo nos EUA, modelo de perfeição deste nosso quintal ianquizado, onde 40% de todos os diplomas de pós-graduação pertencem às mulheres, não chega a 15% o número de Ph.D’s. em ciência da computação. Em verdade, o buraco é mais em cima, no vazio da igualdade de condições entre os dois sexos, na dominação subjacente em quase todos os setores de nossa sociedade já tão injusta em tantos outros aspectos.

As profissões da informática podem colocar homens e mulheres em condições de igualdade, pois é o cérebro que é demandado, além é claro de uma boa dose de bom senso, sensibilidade, imaginação e criatividade, que ao que me conste não são atribuições exclusivas dos homens nem neles sobram. Nada no espaço social é entregue gratuitamente, de bom grado ou mansamente. Deve ser buscado com organização e luta dentro de um espaço democrático porém combativo.

Algumas coisas um tanto quanto anacrônicas precisam mudar, e depressa. Não temos a eternidade para desfrutar e o espaço do tempo de nossas vidas não é exatamente para ser jogado fora esperando Godot ou na promessa de uma vida eterna. Talvez seja mesmo dentro de uma perspectiva individualista é que devemos entender o embate no espaço do social.

Isoladamente o máximo que se consegue são vantagens pessoais, as quais nem de longe nos garantem a plena realização da individualidade. Neste sentido a luta das mulheres é antes de tudo a luta do ser humano para ascender a planos mais elevados onde desfrute de uma vida mais digna e realisticamente feliz.

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O Aleph

 

Mário Flecha – jornalista

 

Sempre me intrigou esta ideia: a de que existiria um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos, onde o presente cósmico se mostraria de uma só vez a cada instante, em tempo real, condensado num microcosmo. Os fantásticos escritos do argentino Jorge Luís Borges, em especial um deles, intitulado “O Aleph”, demonstram a impossibilidade de abarcar a natureza múltipla e simultânea que a sequencialidade da escrita e a forma como fomos treinados a operar mentalmente nos impõe.

O que tenta-se fazer é buscar a simbologia das imagens, através das palavras, dos ícones, dos ideogramas, da linguagem estética, produzindo muito mais um sentimento que tangencia o objeto aludido do que a luz chapada de um “flash”, que evidencia com nitidez os contornos e detalhes, neste caso impossíveis de serem capturados. Seria muito mais uma intuição do que uma visão clara de alguma coisa: o infinito, por exemplo, ou a onipresença dos deuses.

A nós humanos, submetidos aos desígnios do tempo e dotados de uma consciência capaz de intuir estas coisas tão acima de nós, só através da técnica (o antigo fogo que Prometeu roubou aos deuses e que simboliza o domínio da tecnologia) tem sido possível superar nossa condição de meras criaturas, totalmente sujeitadas, e obter algum status de criadores.

Ao abandonarmos a mornidão dos braços de mamãe natureza entramos para o universo da cultura e do artificial. As leis biológicas valem menos para nós sob muitos aspectos. Temos mais liberdade do que sabemos utilizar, mas sempre estamos envolvidos no dilema da escolha, mesmo que de quando em quando tentemos nos acorrentar aos grilhões de algum dogma ou ideologia religiosa ou política, para não alucinarmos de vez diante do descomunal sentimento do mundo (lembrando de nosso Carlos Drummond). É difícil encararmos a possibilidade de que estamos sós com nossos próprios atos.

Esta auto-emancipação nos tem custado caro muitas vezes. É como se fôssemos filhotes de deuses, com aproximadamente 4 anos de idade com um poder absurdo nas mãos e totalmente imaturos para tanto. Uma espécie de mini bêbados. Fico em dúvida se o fato de não termos ainda nos autodeletado é apenas uma questão de sorte, de intervenção divina ou de uma lucidez e maturidade já alcançadas que na última hora, na bacia das almas, nos tem salvo de nós mesmos como uma espécie de anjo da guarda.

De qualquer forma, nesta louca aventura humana, temos feito coisas e aberto caminhos que são esplêndidos (especialmente em potencialidades). A banalização do computador, a interligação em rede mundial, a transmissão de voz, imagem e dados numa mesma linha de transmissão e sob um mesmo padrão, a criação de um lugar virtual, que supera os limites do espaço-tempo locais, tudo isto é auspicioso, engendra a esperança, reafirma a nossa obra que nunca termina mas que pode nos ajudar a chegar num patamar superior. É possível que a palavra humanidade ganhe um caráter muito mais uno e concreto do que a grande abstração que tem sido.

A tecnologia da informação se aproxima do Aleph, com a simultaneidade no tempo e a virtualidade no espaço. O sonho parece não ter fim. Um mundo solidário, unido e plural, menos crente, supersticioso, intolerante e individualista é tão possível quanto um planeta sufocado em lixo, papel de jornal, dinheiro e ignorância. Estamos fadados a nós mesmos e a um tempo determinado que desconhecemos de quanto é, para solucionar nossos enigmas e os do universo.

A possibilidade de rompermos o isolamento do eu, através da amplificação das possibilidades de comunicação supera os limites do espaço ao qual estamos fisicamente submetidos, nos dá mais motivos e razões de que dispor, amplifica nossa existência globalmente de forma bidirecional e dialogal. Nos disponibiliza para o mundo e o mundo para nós de forma trivial, sob vários aspectos.

Este caráter dialógico é essencialmente diferente da televisão com sua linguagem unidirecional e totalitária. Alguma coisa está mudando na essência. Que outras formas de alienação serão criadas para o domínio das consciências? O campo do diálogo é fértil e muito mais indomável, muito menos dos especialistas, muito mais compartilhado.

Se superarmos a perplexidade e um certo travo de pessimismo que têm pairado nos ares é possível enxergarmos melhor as alternativas que surgem e estão latentes nestes novos tempos. Existem concepções dominantes e estabelecidas que têm se fortalecido sobre a perplexidade e o pessimismo, por uma questão de oportunidade e sobrevivência, ou sobrevida. É possível que estejamos apenas no limiar de uma nova era, na passagem da modernidade para a pós-modernidade. Para um planeta que seja mais de todos e não de tão poucos.

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Por um projeto de futuro

 

Mário Flecha – jornalista

 

Por que alguns países dão ou deram mais certo do que outros que aparentemente desfrutam de mesmas condições ou até melhores? E deram certo para quem e para quantos? Para quem se fez a riqueza e como foi distribuída? O que seria o Brasil sem o câncer da corrupção, da política dos grupos e interesses econômicos localizados, da incompetência administrativa, da educação falida, da família desintegrada, da saúde renegada? E esta violência estrutural que se manifesta nos quatro pontos cardeais?

Ficamos com o legado da rapinagem do colonizador português cujo grande e maior interesse por estas plagas era apenas o de tirar o máximo proveito e levar vantagem em tudo, como reza a posterior “Lei de Gerson”. Como nação somos frágeis, o espaço do social parece ser uma vaga noção onde se exerce ao máximo o individualismo expropriador e selvagem do colonizador que ficou morando em nossas almas e no espírito de tudo o que se faz, especialmente na política.

Cidadãos cobaias de experiências do laboratório de economia e administração chamado Brasil. De mandato a mandato um novo projeto descartável de país, geralmente levado até ao final supervalorizando as efemeridades do dia-a-dia, que fazem o tempo passar e nos distraem dos graves problemas que aprendemos a tolerar por demais.

No que tange à administração pública, pelos poucos e bons exemplos que encontramos, é possível inferir o quão melhor poderíamos ser com mais boa vontade política e um mínimo de interesse em fazer bem feito. Desperdiçamos muito e o tempo todo, a começar do núcleo familiar. O desperdício se estende então por nossas escolas, ambulatórios, repartições públicas, universidades. Sistemas de gestão, quando existem, são obsoletos, os cargos de decisão são muito mais sinecuras do que posições estratégicas de onde se espera um mínimo de eficiência de quem as ocupa.

Derramam-se equipamentos sofisticados, softwares e cursos da cornucópia que são os cofres públicos, como se bastasse isto para promover as soluções. Falta reflexão, projeto, acompanhamento, alocação adequada de recursos e obstinação para vencer obstáculos e chegar a algum ponto. Geração após geração, a certeza frustrante de que serão sempre as mesmas dinastias de políticos que se alternarão no poder em nosso nome, com a chancela de uma esperança vã que teima e tateia na escuridão.

Agora, em nome do avanço tecnológico, destrói-se o emprego, avilta-se o salário e moderniza-se alguma coisa que, ao que parece, não tem muito o que ver conosco. Aonde vamos com o microestado liberal? Podemos perguntar à Internet, mas acho que a resposta será o silêncio. Precisamos de renovação nos níveis de decisão da burocracia estatal para termos resposta mais efetiva das instituições.

Mas que sejam agentes de mudança com respeito pelo ser humano, com alguma coisa a mais que ameaças de enxugamento para inglês ver. Da cegueira da indiferença não precisamos mais, já se pratica em demasia todo dia. Ao discurso bonito e vazio vamos contrapor a atitude que conduz a algo, que gere resultados mais positivos.

Sem atingir pré-requisitos que passam muito mais pelo humano do que pela máquina, podemos inundar este país com tecnologia de ponta que ainda assim não chegaremos nem mesmo perto de qualquer modelo de primeiro mundo que tentemos imitar. Não adianta correr da própria sombra. As intervenções tecnológicas devem ser precisas e realistas para surtirem algum efeito. Sem linhas de ação muito claras e tenazmente acompanhadas e cobradas nada muda.

A esfera da tecnologia está contida pela esfera política. Não há nada que possa ser feito se não considerarmos esta ordem de precedência. Não há neutralidade no uso de um aparato tecnológico. Ele está sempre a serviço de algum interesse. Cabe a nós, cidadãos, garantir que seja o mais possível de todos. Neste sentido, um certo espírito rebelde da Internet não deve morrer. Ela é ainda esta coisa sem dono, relativamente disponível a todos com alguma condição para acessá-la. Onde respiramos mais livremente, sem o peso autoritário do estado e sem o domínio exclusivo das multinacionais. Uma ágora do século XXI, onde a livre troca de ideias, o diálogo e o ato ainda podem nos pertencer.

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Admirável (?) Mundo Novo

 

Mário Flecha – jornalista

 

Já se disse que no futuro todos serão famosos por cinco minutos. É possível, no entanto, que o futuro tenha se tornado passado e assim este momento de glória terá se desvanecido, antes mesmo de acontecer. Os mitos da ciência, da arte e da política estão se tornando exemplares fósseis do culto à personalidade, tal como as velhas estrelas hollywoodianas. O que permanece mesmo é a rotatividade. O que virá depois que assassinarem os Mamonas no ano que vem?

Nos tempos atuais, o que vale é o logotipo e a marca da pessoa jurídica, seja ela pública ou privada. Quando assim não é, fica a assinatura de um empregado anônimo no chassis de um caminhão, que no mais das vezes não passa do faz-de-conta da qualidade e excelência, uma estranha mistura de fachada bonita, discurso excelente e muito pouca preocupação de fato com quem trabalha e compra. Ressalva feita às honrosas e raras exceções.

Os talentos custam caro, por isto mesmo é bom que estejam nos subterrâneos, pois mesmo bem pagos custarão mais barato que se ficarem em evidência demais. Nos terrenos da informática geralmente os nomes dos gênios coincidem com os dos proprietários e empresários bem-sucedidos (que em geral vieram de uma fábrica de fundo de quintal – só não se diz o tamanho do quintal). A coisa não é bem para quem quer, mas muito mais para quem pode.

No entanto, se necessita muito mais que um único e talentoso empresário (que certamente tem seus méritos) para se produzir algo de qualidade, seja hardware ou software. Além de todo o domínio de uma técnica, é necessário um bocado de criatividade, trabalho duro e condições ambientais e materiais. A qualidade na informática (especialmente no desenvolvimento de projetos) passa dentro do ser humano de forma fundamental.

As grandes empresas deste setor (especialmente as americanas) sabem disto como ninguém e por isto é prática comum buscarem a dedo seus talentos anônimos. Com ótimas condições de trabalho, salários que satisfazem e um reforço na empolgação dos automotivados a fórmula do sucesso está bem encaminhada. São trabalhadores de uma nova geração, identificados com o patrão e cuidadosamente protegidos como a galinha dos ovos de ouro.

Os paradigmas estão mudando. De metalúrgicos, representantes da era da sociedade industrial, começa-se a migrar para os informatas, trabalhadores da sociedade da informação. Nos EUA, termômetro máximo das coisas nesta área, o percentual de trabalhadores da informação já é maior que o dos representantes da sociedade industrial.

Tudo isto acena para mudanças radicais que têm levado sindicatos, patrões e governos a repensarem-se. Existirá ainda uma classe trabalhadora que se reconheça enquanto tal? Que consequências poderão trazer greves e paralisações (se é que existirão) numa sociedade totalmente dependente dos computadores? Ou vai imperar o individualismo puro e simples, com a total desarticulação das instituições de defesa do trabalho?

Pode ser que o trabalhador do futuro se assemelhe muito mais a um mercenário que luta por seus objetivos pessoais e nada além disso. É possível que nem faça muito sentido, se o isolamento e a falta de contato pessoal, a baixa concentração num mesmo ambiente físico, a ausência do olhar do outro se transformarem na forma mais comum de organização da produção. Neste sentido o diálogo eletrônico deixa muito a desejar, se for a forma predominante de contato das pessoas na relação de trabalho.

Especialmente se considerarmos que o espaço virtual terá proeminência sobre o físico e que uma empresa pode ser formada por pessoas que trabalham em diferentes pontos do planeta. As relações mais próximas serão as dos encontros nos clubes, na ginástica ou coisa assim. Provavelmente superficiais se houver pouco a compartilhar daquilo que mais profundamente nos afeta, angustia e motiva. Não há bola de cristal. Não se pode dizer que será um mundo necessariamente ruim. Mas vai depender muito de todos (e não temos ido muito bem na área da solidariedade e do bem comum).

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Tecnologia e Democracia Participativa


Mário Flecha – jornalista

 

Observando a linha do tempo desde os primórdios, verificamos que os avanços tecnológicos (a partir da descoberta do fogo, a pedra lascada, a pintura rupestre, as ferramentas rudimentares, a escrita) introduzem mudanças na forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo ao nosso redor de forma determinante. Com o fogo inauguramos também uma política, uma economia, uma sociedade. Ali começamos a desmatar, a cozer, a forjar armas, ferramentas, profissões e instituições e subimos na espiral tecnológica até os tempos atuais.

Boa parte de nosso mundo material e conceitual é plasmada tecnologicamente. Exemplo mais que notável é o automóvel, que deu forma e modificou de maneira completa o semblante de nossas cidades, alterando também nossa relação com o espaço e o tempo. O impacto de tecnologias deste tipo instituiu também novas relações de poder, especialmente aquela que diz respeito a um capitalismo corporativo e um Estado liberal democrático muito mais voltado para a “pessoa jurídica” do que a “física”.

O importante e tão revolucionário princípio liberal da liberdade e igualdade para todos e de um Estado minimamente interferente nas vidas e autodeterminação de cada um transformou-se. Sobre tais ideais ergueu-se um Leviatã, truculento e indiferente ao cidadão de segunda categoria, a “pessoa física” em carne e osso.

As razões corporativistas, a própria manutenção do Estado e sua fonte de extração de tributos, a produção sem vínculos com a necessidade, mas com o objetivo do lucro e portanto, sem priorizar o que produzir; tudo isto determina o caráter contraditório do liberalismo pois o desequilíbrio de forças impede e nega os princípios. O desemprego estrutural produzido pela irracionalidade da superprodução e da redução de custos (possibilitada por avanços tecnológicos!) demonstra cabalmente a prioridade que se dá à liberdade e igualdade de condições.

É urgente mudar, buscar formas mais efetivas de democracia que ampliem os canais de participação direta da “pessoa física” em, pelo menos, decisões que afetem mais diretamente sua existência. A tão rarefeita e insuficiente participação na eleição de representantes e a frustração diante dos resultados que se colhem no legislativo parecem indicar que democracia é uma miragem com a qual nos iludimos coletivamente há muito tempo.

A tecnologia atual é suporte material para o exercício de uma democracia participativa. São enormes e complexos os problemas que devem ser resolvidos. Vão desde princípios até minúcias e detalhes de implementação, mas também para isto hoje em dia temos mais condições de lidar com tal complexidade do que em qualquer outra época. Provavelmente a forma representativa não deve ser eliminada, mas sim circunscrita a uma esfera própria de decisões. É factível supor que há situações em que o cidadão comum não reúna condições ou mesmo tenha o interesse de se envolver.

Mas, sem dúvida, são inúmeros os casos em que hoje passamos um papel em branco, assinado por nós, para que nossos avalistas no legislativo e executivo decidam sobre matéria da qual podemos decidir pessoalmente. Assim, investe-se em usinas nucleares que não funcionam, em políticas públicas que só dão retorno em votos, em trolebus e postes que não chegam sequer a funcionar, em construções, sistemas de computação e um sem número de projetos que se interrompem ou que são totalmente equivocados, em ações coercivas e repressoras, teoricamente regidas pelos princípios do liberalismo, que por final mais acaba defendendo a liberdade da raposa dentro do galinheiro.

 

Só não se investe em pesquisa duradoura (ou melhor, um projeto explicitamente em aberto, de caráter permanente), que envolva ciência política, econômica, social, humana e da computação, em esforço interdisciplinar, na busca de um modelo mais próximo de democracia que preserve o bem individual e o bem de todos e que de fato permita que floresçam as individualidades de todos os nascidos vivos, para que sejam felizes sob o céu de, no mínimo, este Brasil varonil.

 

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A Democratização pelo Byte


Mário Flecha – jornalista

 

Definitivamente este não parece ser um tempo de unanimidades. A algaravia que se ouve é a de uma distante Torre de Babel construída com todos os artefatos e técnicas até hoje acumulados. Talvez por demais plural e em crise, mas não necessariamente a caminho do zero absoluto. Mais provável o fim de algo e o começo e possibilidade de alguma coisa que ainda não se encontra determinada. É impossível que a dimensão da política e da essência conflituosa das relações humanas não se manifestem no âmago da tecnologia e nos objetos por ela produzidos. Estaríamos numa espécie de reino mágico do positivismo, da neutralidade e do determinismo? Se sim, então nada a fazer, senão assistir sonolentos à instalação de equipamentos que têm implícitos os rumos de nossas vidas.

Os bastidores da história dos computadores estão cheios de pendengas pessoais e judiciárias. Estes embates, entretanto, não costumam surgir na superfície luzidia de papers e material publicado da área, tal como é mais comum nas ciências humanas e sociais. Tampouco se revelam nos canônicos textos de manuais de software e hardware.

Talvez porque o foco não esteja exatamente sobre o objeto mas sim nos protagonistas que disputam a projeção e resultados materiais através deste ou daquele trabalho. Muito além dos interesses pessoais há os corporativos, de caráter mundial. Em meio a esta luta de titãs vaga inocente o comum dos mortais: o cidadão, usuário e consumidor (em geral passivo) de toda a parafernália e interesses subjacentes ali incorporados.

Fala-se tanto em democracia e no entanto a tecnologia encontra-se longe da influência de decisão do conjunto dos cidadãos, como se fora matéria neutra, além ou aquém do centro e do calor da esfera do humano. Não haveria o que discutir, debater ou decidir quanto aos “como, quando, onde, quem, quanto” quando se fala em informatizar e democratizar a informação? Geralmente estas são decisões de uma “inteligência” técnica à qual tacitamente se submetem grandes coletividades. O silêncio que reina nesta matéria é intrigante, apesar de todo o “auê” da Internet.

Podem não ter sido claramente explicitadas, mas existem políticas em curso nestas questões que carecem maior atenção dos diversos setores da sociedade, em especial daqueles mais preocupados com o cidadão de segunda classe (o de primeira é a pessoa jurídica, de preferência estrangeira): a pessoa física, de carne e osso. Estamos em tempo de pensar em termos de uma tecno democracia. De urdir o microcódigo da política cotidiana através dos aparatos que nos rodeiam.

Há uma crise em curso. Uma crise que se expressa no enfraquecimento e crescente descrédito quanto a tradicionais mecanismos de solução de conflitos. A lógica da competição partidária transforma os partidos em meros caça votos interessados muito mais em sua própria manutenção do que qualquer bandeira que venham a empunhar. Lutam pelo mercado do voto e por interesses corporativistas da burocracia partidária.

Os movimentos e ações não governamentais florescem não é sem razão. É aconselhável buscar caminhos que melhor resolvam as questões da democracia atual, considerando os importantes avanços tecnológicos sob um olhar mais politizado. Especialmente quando comunidades se aglutinam eletronicamente, com interesses grupais em escala mundial, num ritmo totalmente diferente dos nossos parlamentares, que se atracam aos socos e pontapés e militam pela própria aposentadoria com o voto que lhes demos (exceção feita aos que merecem nosso respeito).

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Os preços do progresso


Mário Flecha – jornalista

 

Seríamos originários do caos ou da ação de alguma entidade superior? No fundo pouco importa. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, falou o poeta Pessoa. Muito do inferno parece estar é aqui e ser de fato obra humana individual ou coletiva, mas o inverso também pode ser verdadeiro. Mesmo o mais crente dos mortais do século XX é no mínimo antropocêntrico e esta mudança de centro de referência em boa parte possibilitou chegarmos ao estado de coisas atual. Mas a pergunta é: podemos atingir um ponto em que não há possibilidade de retorno?

Vamos imaginar que todos, num passe de mágica, ao redor do mundo decidissem fazer de nossa passagem no planeta uma coisa mais digna e sensível. Ainda assim esbarraríamos com dificuldades no mínimo equiparáveis aos doze trabalhos de Hércules. Os sistemas que criamos, enfim, toda a base da organização produtiva, nos limitam formulando os cânones da sobrevivência segundo lógicas de há muito institucionalizadas. Estamos numa grande máquina cuja inércia do movimento, cada vez mais veloz, é difícil reverter.

A ciência tem grandes responsabilidades e desafios diante de tudo isto. Especialmente a ciência da computação, mas não exatamente esta de hoje, tal como é, e sim uma que vá se embebendo da interdisciplinaridade, especialmente com a filosofia e as ciências humanas e sociais; que vá rompendo com o positivismo a-histórico e problematizando as soluções, a ponto de introduzir nos códigos dos programas e nos sistemas de banco de dados preocupações e cuidados acima da mera funcionalidade e eficiência do tempo de resposta (do qual sem dúvida não se pode descuidar).

Com que paradoxos teríamos de lidar, uma vez abalada a sustentação de nosso castelo de cartas construído segundo a lógica do lucro e do consumismo. Será este o preço desta forma de progresso? Esta mistura estranha de insensatez e eficiência, que soa racional e que “funciona” à semelhança de um trem bala. Um trem bala que apenas parcialmente responde aos comandos de seu piloto, encantado com seu painel “for Windows” e pouca atenção para os problemas mundanos que se erguem à sua frente; alguns deles criados pela própria construção da estrada do “progresso”.

Concordo com Isaac Asimov, autor de ficção científica falecido há algum tempo, que um dia, ao lhe perguntarem se temia um mundo dominado pelos computadores, respondeu que em verdade temia era um mundo sem computadores (e digo eu, ainda mais nestes nossos tempos). Entretanto, o recente blackout que atingiu de forma tão ampla a quase toda Minas, a Ilha da Fantasia Brasília e outras cidades em Goiás expõe nossa dependência. Quão artificial é o mundo em que vivemos: a água de nossas torneiras, as bombas de gasolina, hospitais, elevadores e, entre outro sem número de coisas, o computador. Tudo cessou como se estivéssemos num holocausto nuclear, banalmente resumido a um simples apagar de luzes.

De certa forma vivemos sempre por um triz, mas confiamos plenamente neste conjunto monumental de sistemas interligados que compõem o cordão umbilical que nutre nosso mundo tecnológico, o qual carrega a marca da massificação (inclusive nas catástrofes e injustiças sociais). Agora uma nova camada tecnológica vai revestindo o planeta: a tecnologia da informação é o topo de nosso iceberg de dependências.

Subjaz a sensação de que já passamos do ponto de retorno e da idade da inocência, enquanto alguns ainda teimam quixotesca e romanticamente em ignorar uma realidade sem volta: os computadores entraram em nossas vidas para ficar. Escaparemos dos novos problemas que criamos com nossas soluções? Esta é uma face da aventura humana. Não há como fugir da própria sombra ou aderir à saída da Avestruz.

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Tecnologia, Trabalho, Cidadania


Mário Flecha – jornalista

 

Neste Brasil pós-reserva de mercado há que se distinguir diferentes frentes de atuação para o estabelecimento de políticas que girem em torno da informação. Dificilmente o laisser faire neoliberal e a regulação do mercado serão capazes de equacionar nosso dilema de país em desenvolvimento que, com ímpetos de chegar ao primeiro mundo, frequentemente coloca a “carroça na frente dos bois”.

Cabe pensar em desenvolvimento de alguma coisa que se diga genuinamente nacional? Dentro de parâmetros modernos e que seja capaz de nos indicar caminhos para a afirmação de um país de dentro para fora, com capacidade de se impor enquanto produtor e condutor de tendências em algum cenário mundial, especialmente o de tecnologia de informação, sem contudo atropelar sua população.

Enquanto mercado consumidor do que quer que seja, não há dúvida de que damos mostra o tempo todo de nosso enorme potencial e apetite consumista. Haja vista a onda de indústrias automobilísticas que após resultados soberbos com a exportação de seus produtos para a Terra Brasilis, agora vêm em grande estilo aqui se instalar. Nada de mal nisto se além desta disposição de integração internacional mantivermos um objetivo de autorrealização enquanto país com lastro para muito mais.

A reserva de mercado da informática deixou pouco em termos substantivos quando a olhamos como uma política industrial. Pode-se dizer que o tiro saiu pela culatra e perversamente se obteve o oposto do que se propunha. Foi, no entanto, sensível à importância da questão e, mesmo que de tabela, galvanizou posições, ampliou a discussão nacionalmente, fortaleceu o papel do profissional e empresário da área e introduziu precariamente o tema na agenda do país. Pode-se dizer até que ajudou a fomentar um mercado.

Hoje, no vazio irresponsável deixado pelo neoliberalismo, permanecem obscuras e indiferenciadas coisas que se relacionam mas que não podem ser tratadas como uma só, ainda mais se os cuidados forem deixados a cargo dos mecanismos de mercado. O acesso, produção e controle descentralizado e plural das informações do Estado, a possibilidade de mais de uma fonte de informação à disposição do cidadão, o direito à privacidade e conhecimento do uso que se faz das informações a respeito de cada pessoa, tornam-se cada vez mais necessários e ultrapassam de muito qualquer tratamento meramente empresarial.

A informação e o (im)próprio uso da mesma pelo Estado são questões que vão além e que existem desde de muito antes da tecnologia atual. São várias as vertentes de políticas a se considerar: democratização da informação, desenvolvimento de tecnologia e maior participação no mercado, educação e pesquisa na área, ampliação dos direitos sociais de forma a evitar os danos causados pela automação, valorização do trabalho em seu papel social e não como simples atividade robotizável que descarta, em última análise, a cidadania daquele que perde sua atividade produtiva.

Há que se preservar o trabalho humano como componente fundamental do ato de viver, da cidadania, da coesão social. O próprio ideário liberal, que um dia representou um avanço diante da opressão e obsolescência da aristocracia, terá sido em vão; todo discurso será vazio se não puder superar esta lógica e argumentação puramente mecânicas. Como canalizar a força de uma cidadania nascente e de um querer incerto, que supere o atraso de nossas instituições e mentalidades, nos colocando de fato diante de uma modernidade onde tenhamos equacionado tanta desigualdade e violência?

 

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Poluição Invisível

 

Mário Flecha – jornalista

 

Já se vai algum tempo desde o episódio do césio em Goiânia, mas certamente a radiação letal ainda vai estar por lá por tempo inimaginável para nós, simples mortais. Invisível também é a informação poluidora que invade nossas mentes e sentidos, num processo insidioso e indolor. Vivemos num alto grau de exposição a esta irradiação de signos em rotação acelerada. Rádio, TV, telefone, Outdoors, adesivos, malas diretas e, mais recentemente, a Internet.

Seja lá o sistema de governo em que se está: democrático, totalitário, ditatorial ou monárquico; não escapamos a algum tipo de doutrinação ou propaganda. No mínimo sucumbiremos ao vizinho neurótico que faz questão de colocar seu rádio com todos os decibéis para que os demais se submetam ao seu mau gosto particular (especialmente aos sábados e domingos); ou então é o telemarketing invadindo sua privacidade, as instituições de caridade colhendo seu dízimo por telefone, as propagandas de TV na telinha, os insistentes Amway ou tele protestantes tentando te catequizar e obter trabalho gratuito para que subam na hierarquia, ocupem um posto avançado nas seitas do dinheiro. Tolerai-vos uns aos outros em troca do amai-vos parece mais adequado.

Órgãos oficiais ameaçam, rugem, prometem dar cabo da prostituição infantil, enquanto a cidade se enche de outdoors de ninfetas nuas ou convites para happy hours onde a foto é um sutiã sendo aberto “após as 18 horas”. O que dizer então das propagandas de carros e a pura exaltação da velocidade e depois ouvir sensatos conselhos para dirigir com prudência e não beber. Claro, sendo logo a seguir convidado a encher a cara de cerveja. Como conciliar o antagonismo e contradição destas informações que tentam a cada segundo ocupar sua consciência e levá-lo para o mundo em que tudo é mercadoria? Haja saúde mental.

Com tantos invasores de corpos é possível perder-se de si mesmo a ponto de não ser suportável o silêncio, a falta de agito, a voz da própria mente. A poluição simbólica é maior e mais ampla do que qualquer outra, gera consequências no meio ambiente, nas relações humanas, no trabalho, no bolso de cada um e no espírito.

Na idade média a ignorância, a superstição e a religião mantiveram os homens obedientes e sujeitos em sua maioria ao papel de servos e súditos, como convinha à organização produtiva. A partir do iluminismo, a marca da modernidade se faz sempre e cada vez mais presente. Os homens se tornam livres, muitos para a venda do trabalho, alguns para a acumulação e concentração cada vez maior do capital privado. O tempo das luzes nos cegou de uma “cegueira branca” , talvez a de que trata Saramago em seu “Ensaio sobre a Cegueira”.

Literalmente imersos em um oceano de ondas magnéticas de toda ordem, irradiadas 24 horas. Expostos a cada passo a miríades de mensagens e apelos, somos invadidos pelos símbolos. Quanto nos custa esta poluição? O que seríamos sem ela? Informação talvez não seja a palavra mais adequada, pois pressupõe um sujeito que de posse de um dado nele veja significado e o torne informação. A poluição causada pelo excesso é uma nuvem invisível de radiação simbólica que nos divide, atordoa, ilude.

Um filme que é um poema visual me vem à memória agora: Koyaanisqatsi (palavra da tribo Hopi do Novo México que quer dizer “vida em desequilíbrio”). Ali está nosso mundo da velocidade, do presente, da razão técnica e científica a nos abençoar com sua mão metálica. O ponto culminante embalado pela melancolia de uma música, que exalta a beleza louca destes feitos que revelam uma grandeza meio perdida em meio à fumaça e ao som ensurdecedor de um foguete partindo para o espaço, levando este desassossego que nos anima. Há algo de comovente e trágico nesta forma de existir, talvez seja a percepção de que poderia ser diferente.

 

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Computador não erra


Mário Flecha – jornalista

 

Nos idos dos anos 50, multinacionais de alimentos venderam a ideia de que o aleitamento materno era inferior aos produtos em pó por eles fabricados. Os consumidores incautos e absolutamente crédulos no faiscante e positivo discurso da ciência a serviço da indústria compraram o peixe. Claro, não fosse assim e talvez nem existisse esta modernidade tão industrial e de massa. Não é só opção, temos de ter alguma confiança nos produtos da tecnologia, de toda espécie, que nos rodeiam, mesmo naqueles onde há risco de vida, ou este mundo deixa de funcionar.

Com os computadores, a ideia mais mistificada me parece a de que computador não erra. Pois sempre errou e ainda vai errar muito, seja no hardware seja no software (principalmente neste último). Além disso, o que é erro pode não ser algo tão fácil de se determinar quando se pensa em segurança. Segurança significa muita coisa quando se fala em computadores e informática. Analogamente, pode-se representá-la como um prisma multifacetado.

Sob esta palavra enquadram-se aspectos de autorização de acesso, de proteção contra perdas de informação, de auditoria, de resistência a falhas de equipamento, de testes exaustivos, de métodos de trabalho e, talvez o mais importante, questões de ética, de cultura e mentalidade profissionais, de investimento na qualificação de quem cria o software, pois nesta área, qualidade e segurança têm muito a ver com quem faz, não basta o melhor equipamento.

Sem nos estendermos demais em detalhes, é possível que para uma geração mais atualizada estes mitos de perfeição da modernidade estejam ruindo, e, talvez por isto mesmo, comece a surgir uma consciência e uma exigência maior quanto ao que nos é oferecido muitas vezes em belas embalagens sem as devidas garantias. É comum em termos de produtos de software o fabricante se eximir de qualquer responsabilidade quanto a erros ou problemas em seu produto.

Há poucos dias tivemos uma pequena mostra de problemas de segurança com computadores que ganharam notoriedade mundial: a explosão do foguete Ariane causada por erro de computador e um outro ocorrido com bancos, se não me engano europeus, chantageados (há 3 anos!) por mais de uma quadrilha eletrônica que os ameaçava com o apagamento e destruição sistemática de seus dados, inviabilizando seus negócios. Que dirá os prejuízos causados por piratas da INTERNET a cidadãos comuns ou inúmeros acidentes não relatados, alguns com prejuízo de vidas humanas?

A explosão do foguete queimou alguns bons milhões de dólares. Quanto aos criminosos, estes não foram presos e os bancos (como é de praxe) justificaram sua omissão com o receio de demonstrarem quão falhos são seus sistemas peritos e assim perderem a confiança de seus clientes, além, é claro, de terem pago polpudos milhões de dólares aos marginais eletrônicos.

A confiança nos feitos modernos não deve existir em grau extremado, apesar de termos de ser realistas: quando entregamos nossas vidas às mãos de um cirurgião, do piloto de um avião e coisas assim (hoje em dia até mesmo quando entramos em um shopping) , temos de confiar e assumir um risco. Mas devemos, e cada vez mais, exigir demonstrações dos procedimentos de segurança envolvidos e buscar o aperfeiçoamento do sistema jurídico de forma a obter maiores garantias antes, durante e depois dos serviços prestados.

É impressionante o contraste entre nossa capacidade de aceitar os famosos “bugs” de software (erros de programas), como os do Windows 95 e outros produtos famosos, para não ir muito longe, e nossa exigência de funcionamento perfeito de um aparelho de TV. Por que somos tão condescendentes com um e com o outro o tratamento é diferente? E olhem que no caso da Microsoft há um investimento significativo em bons profissionais. Sobre este tema vasto muito há o que falar.

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Tecnocrata ou Tecno democrata?

 

Mário Flecha – jornalista

 

Tecnocrata encontra-se bem definido no Aurélio: “Partidário da tecnocracia. Político, administrador ou funcionário que procura soluções meramente técnicas e/ou racionais, desprezando os aspectos humanos e sociais dos problemas.” Tecno democrata não existe na edição que consultei e é pouco provável que venha a encontrar seu verbete em algum dicionário de língua portuguesa.

A tecno democracia é um cenário de futuro, é uma palavra que mora no espaço de um projeto futurista de sociedade livre e altamente tecnológica, que tendo recuperado a sensualidade libera a energia criadora de cada um e amplia suas possibilidades de participação, transcendendo as limitações atuais da democracia meramente representativa ou eleitoral.

O conceito de representação alterado, garantirá representantes qualificados em assuntos e áreas bem definidas, onde o senso comum não é suficiente para a decisão. O conhecimento será um elemento decisivo neste processo, tanto para assegurar melhores representantes como para qualificação do eleitorado, muito mais atento e com amplas condições de influenciar nas decisões. A participação se exercerá principalmente na agenda do cotidiano das comunidades e pequenos grupos ou aglomerações, tais como bairros, regiões, distritos, especialmente dentro dos grandes centros.

Por que representantes para decidir o que um número não muito grande de votantes pode fazer melhor? Como principais interessados, conhecedores que são e vividos na matéria em votação, podem decidir através de uma tecnologia digital ubiquamente distribuída em suas casas ou próxima delas, às vezes até em postos móveis de votação rápida.

Neste ponto podemos imaginar um Estado que não é mínimo, nem é tutor de um cidadão menor de idade para o resto da vida. Um Estado menos prepotente e intrometido, menos capaz de atormentar e que não se defina principalmente por ser aquela instituição humana que singularmente se caracteriza pelo uso legítimo da força (algo que por mais realista que possa parecer é de um primitivismo primata).

A racionalidade do Leviatã, a ferocidade da alcateia de lobos, os milênios de sangue, guerras, escravidão e exploração humana encontráveis apenas em enciclopédias em CD-ROM, como o registro de uma página virada em nossa aventura no planeta azul esverdeado. Sem dúvida falo de uma utopia, não no sentido do irrealizável, mas no do sonho futuro, no ideal a ser perseguido por uma sociedade capaz de realizar metas e criar mundos.

John Lenon em “Imagine” pintou um cenário de paz, Louis Armstrong eternizou “What a Wonderful World”, e deixaram este legado a recarregar as baterias daqueles, que de uma forma ou de outra, enxergam no ser humano mais do que um lobo feroz prestes a atacar e que veem no mundo mais do que um lugar onde explorar o máximo unicamente em proveito próprio.

Que pintem de cor-de-rosa o inferno, ainda mais agora em que parece só haver um caminho de mão única. Nada está definitivamente decidido para o eterno; se formos reduzidos ao zero é daí que devemos recomeçar, como disse um personagem de um filme de Godard. O uso de uma tecnologia que liberte, assossegue, facilite, desobstrua, impeça a corrupção e evite a dominação é uma questão de vontade política, desejo e busca ativa. Não precisamos realizar a visão profética de Dürer sobre o homem ocidental, expressa na gravura a que deu o nome de Melancolia I. Que seja um desafio fazer alçar voo a humanidade que, com asas para ir alto, permanece sentada na posição do pensador de Rodin, com um compasso nas mãos, símbolo do cálculo, pelo qual a ciência e a técnica produziriam seus feitos. Ao redor, todos os símbolos do trabalho e da construção: martelo, serrote, balanças etc. Abandonados enquanto ela medita sobre quão fútil é o esforço humano.

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Perigos da Modernidade

 

Mário Flecha – jornalista

Viver é muito perigoso.” está escrito nas linhas iluminadas do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O mundo moderno eliminou males vividos por nossos semelhantes no passado mas introduziu outros que chegam a dimensões planetárias. Nossa dependência por tecnologias que não podem falhar mas falham é crescente e se colocam como algo preocupante. A todo instante recebemos notícias relacionadas com falhas e acidentes com sistemas peritos, sejam elas causadas por equipamentos, software, imperícia ou má fé de um agente humano.

Existem pelo menos duas classes de problemas: os originários de falhas de projeto, onde condições não previstas podem ocorrer devido à impossibilidade de previsão de todas as ocorrências envolvidas em projetos complexos (e eles o são cada vez mais); e aquelas causadas por atos de peritos humanos criminosos ou terroristas.

Só para estas duas classes casos up-to-date estão disponíveis nas mídia a toda hora. Cito um exemplar divulgado recentissimamente. Diz respeito ao terrorismo informático e é um alerta enfático da CIA, feito por seu Diretor, John Deutch, o qual afirma que os EUA e países aliados encontram-se sob o risco iminente de ataques eletrônicos por terroristas e países inimigos. Os alvos prioritários seriam seus sistemas e redes, especialmente as do governo e setor privado, tráfego aéreo, bancos, produção de energia e as forças armadas, altamente dependentes da tecnologia de informática.

O ex-haker arrependido Chris Goggans, que atualmente trabalha numa sociedade de proteção à informação afirma que na maioria das empresas americanas não existem medidas reais de segurança (imaginem no Brasil). As empresas, compelidas pela competição e a necessidade de operar cada vez mais rapidamente e em longas distâncias não podem abrir mão do uso da Internet. Com isto expõem-se a muitos riscos, pois a rede não oferece a menor proteção em relação aos dados nela transmitidos.

O calcanhar de Aquiles encontra-se principalmente na rede telefônica e na grande facilidade em se obter conhecimento e ferramental capaz de produzir tais estragos. Os casos de falhas são muito mais comuns do que supõe nossa vã filosofia e costumam estar no céu, terra e mar. Recentemente fiquei sabendo de um episódio ocorrido com um usuário de banco eletrônico que ilustra bem o problema. O dito cujo placidamente entrou em um quiosque, fez tudo direitinho e esperou bem uns cinco minutos. Nada, nenhum sinal ou mensagem. Invocou então a ajuda telefônica e do outro lado não atendeu nenhum sorridente e simpático funcionário e muito menos um mal-humorado. Só o silêncio.

Resignado ou raivoso, não sei, o usuário foi salvo pela sorte. Quase saindo ouviu às suas costas o som da máquina a entregar o dinheiro solicitado. Pura sorte do felizardo, outros não a tiveram com certeza. O pior de tudo é que não fica prova alguma de que as coisas não foram bem. Simplesmente ficou registrado que a operação foi realizada (talvez no máximo a indicação de que demorou demais).

Pior é quando se envolvem grandes perdas em dinheiro público como os espetaculares acidentes com foguetes e jatos de combate, que a crônica americana registra em quantidade. Trágico é quando vidas humanas estão em jogo. Por exemplo, como no caso de falha ocorrida com o chip que controla o fluxo de combustível do motor dos carros Audi 5000, que supostamente foi a causa de 250 casos de aceleração súbita, alguns com vítimas fatais. Gostaria de saber se teria sido algo semelhante o que ocorreu com uma apresentadora de TV brasileira, que teve o air-bag de seu carro ejetado repentinamente ao rodar pelas esburacadas ruas deste país. Um recente levantamento nos EUA apresentou um resultado estonteante: 75% de todos os desenvolvimentos de sistemas nunca são terminados ou não chegam a ser utilizados. Pior ainda, 70% dos projetos de software são destinados à manutenção para correção e detecção de erros após o sistema já ter sido testado e colocado em uso. Não podemos viver sem os computadores, mas nem por isto devemos morrer por eles.

 

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Sociedade de Poetas Mortos


Mário Flecha – jornalista

 

A Poesia só morrerá de vez se a humanidade se banir do mapa, afora isto, a experiência poética ocorrerá pelo simples fato de fazer parte de nós o sentimento do belo ou, melhor dizendo, o sentimento do mundo de que fala Carlos Drummond. Isto não significa, no entanto, que sejamos todos poetas no sentido estrito da palavra (no lato é sempre possível). Estou falando daqueles que escrevem poemas e buscam registrar e trabalhar mais intensa e intencionalmente com a poesia que vivenciam.

A Poesia e o poema são tão inúteis como o podem ser as estrelas no céu, o cricrilar de grilos na noite, o som do mar, um simples dia bonito, crianças brincando tranquilamente, o brilho nos olhos do pivetinho descalço no asfalto e coisas assim. Não são produtos de consumo em massa, não geram lucro e não enchem barriga de ninguém. São manifestações espontâneas as quais não conseguimos produzir em série, empacotar e vender aos centos, pelo contrário, se dão à nossa revelia e tudo que se pode fazer é fruir e recarregar nossa alma.

O poeta e o poema, como nos lembra Octávio Paz, cumprem um papel histórico na produção de um registro sensível, gerado pela subjetividade que carrega as marcas de seu tempo. O poema é, ademais, uma forma extemporânea de comunicação entre os que se foram e os que aqui estão, revelando o que em nós nunca muda e o que muda ao longo do tempo.

Algo no entanto preocupa. Talvez estejamos assistindo à última geração de poetas maduros em nosso país, vendo um a um partindo e o aumento do deserto e seus homens de areia. Nossa produção cultural e artística se empobreceu ou encontra-se isolada em guetos cada vez mais reduzidos? O declínio do vigor da produção poética é um sensor desta possível decadência que vai se instalando silenciosa e calmamente, sem pressa e com constância. Na situação presente a produção poética existe, mas ou é rejeitada ou não flui para uma sociedade que volta as costas a tudo que não tem uma razão prática e imediata.

Seria um quadro surreal imaginarmos um país tomado por seitas fanáticas, semianalfabetos bestiais e multidões abúlicas comprando e consumindo lixo cultural? Não estamos muito longe disto em muitos pontos do país. Uma idade média aqui e agora, o isolamento, o individualismo e a aversão ao coletivo destruindo o espírito do homem, este fenômeno que germina e se nutre na convivência e no compartilhar dos sentimentos e das ideias.

Pode ser que estejamos constituindo uma sociedade de poetas mortos, sem graça e sem caminhos. Uma sociedade totalitária baseada na razão prática e esvaziada do diálogo, da dúvida e da experiência sensível do mundo registrada e compartilhada. Se assim for, o tempo da hibernação em um longo inverno neste país tropical terá chegado. Mas, tão certo como as estações se alternam, as sementes sabem a hora de acordar.

Fica a pergunta do poeta Octávio Paz: “É quimera pensar em uma sociedade que reconcilie o poema e o ato, que seja palavra viva e palavra vivida, criação da comunidade e comunidade criadora?”

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A Virada do Milênio

 

Mário Flecha – jornalista

 

Entre tantas profecias de final dos tempos, trombetas soando, maremotos, “twisters” e hecatombes em profusão, todas apontando para o ficticioso ano 2000, surge agora uma prosaica ameaça, um iceberg de cujas proporções os mortais mais comuns não tinham conhecimento até muito recentemente: a mudança de dígitos do ano, quando de 99 voltamos para 00. Este cisco no olho, este detalhe digital é a sensação do momento, causando furor nas mídia, especialmente as de informática.

Como já disse em matérias anteriores, um simples detalhe como a falta de um hífen num sistema perito baseado em computadores pode fazer explodir foguetes, detonar mísseis, parar um aeroporto ou o sistema bancário e coisas do gênero. Isto pode acontecer mesmo tendo havido um grande rigor metodológico e cuidados extremados. De qualquer forma somos uma sociedade tecnocientífica, fundada na confiança em nossos aparatos e na ciência que os faz. Para os mais incautos sempre teremos respostas para tudo o que deflagramos e ponto final.

Nossa dependência nos leva muitas vezes a situações tragicômicas. A mim é o que parece estar acontecendo com a questão das datas no computador. Exemplos da miopia informática ou excesso de confiança de que na hora certa a solução viria, certo é que derramaram-se códigos e arquivos com datas cujo ano possui apenas dois dígitos. Daí surge a ameaça do chamado “caos do milênio cibernético”, onde podemos começar com o pé esquerdo por causa de uma coisa tão minúscula. Não é o assassinato de um presidente, um terremoto planetário ou a decadência e consumismo da civilização ocidental, perdida no hedonismo e niilismo. Apenas o ano com dois dígitos.

Os problemas ocorrem em doses homeopáticas: já existem contratos e eventos cujas datas são para depois de 1999. Certamente alguns já pagaram um preço adiantado por causa disso, alterando programas e reconstruindo arquivos para acomodar dois pequenos bytes a mais nas datas. Há pouco tempo, o lúcido e centenário jornalista e avô de minha esposa, Sr. Lindolpho Espeschit, esteve às voltas com problemas de datas, pois um sistema que só trabalhava com dois dígitos pôde oferecer apenas a seguinte alternativa: torná-lo quatro anos mais jovem, fazendo-o nascer em 1900.

É bom notar que o problema não é só com o ano 2000, mas pelo exemplo, aqueles que nasceram antes de 1900 também podem sentir os efeitos. Seu Lindolpho muito provavelmente passará por três séculos e assistirá à virada do milênio, quando então voltará a ser criança em muitos sistemas por aí.

Enquanto isto, para aqueles que não perdem uma oportunidade de negócios, multiplicam-se as palestras, consultorias e ofertas de soluções, num mercado que nasceu da noite para o dia. O Grupo Gartner de consultores de tecnologia de informação, localizado nos EUA, calcula que serão gastos cerca de US$600 bilhões em todo o mundo para fazer o remendo dos dois bytes faltantes. Será algo como procurar uma agulha no palheiro, pois as datas são utilizadas para quase tudo, e podem estar sendo tratadas da maneira indevida inclusive dentro de chips, invisíveis aos olhos de quem procura. Certamente não passaremos de todo incólumes.

No entanto, não se pode dizer que tenha sido esquecimento ou total imperícia dos técnicos de informática, principalmente daqueles que labutaram na década de 60. O problema naquela época era economizar ao máximo memória, fosse em disco ou em circuitos (hoje uma agenda de bolso tem o tamanho da memória de um computador que ocupava uma sala). A inércia cultural, além de uma visão tecnocrática de curto prazo, pontual e do imediato, pouco preocupada em olhar para trás e para frente com mais distanciamento, alimenta um agir cada vez menos capaz de observar numa perspectiva histórica. Seja lá o que for, o caos pode ser deflagrado por uma prosaica vírgula, tal como a fissão do átomo.

 

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Internet e Modernidade


Mário Flecha – jornalista

 

Estivessem vivos e os enciclopedistas do Iluminismo nos séculos XVII e XVIII veriam seu ideal concretizando-se de uma forma que não poderiam imaginar à sua época. É praticamente impossível não se encontrar algo na mundial Internet que se procure de forma um pouco mais obstinada, ou com um pouco mais de jeito e noção de como consultar (o que fica cada dia mais fácil com avanços constantes em mecanismos de consulta inteligentes e com características de software robô!).

Qualquer assunto ou tema, se não está, em breve estará ali em volumes que chegam a assustar pela rapidez com que aparecem e crescem. As enciclopédias e bibliotecas serão discutidas de forma muito especial em outra oportunidade. Cito as enciclopédias para que me ajudem e dêem o gancho para ilustrar alguns aspectos muitos interessantes do mundo moderno e que às vezes muitos de nós ainda não tiveram tempo para dar uma parada e refletir.

É bem verdade que o conceito de enciclopédia não pode ser o tradicional. Na modernidade um conceito sólido dura pouco, a própria ciência é que gera a substituição rápida num processo conhecido como reflexividade. E nós, pobres mortais, temos que nos virar e fazer as adaptações em nossos paradigmas, que ficam velhos e descartáveis num átimo. Cair na correnteza acelerada destas mudanças pode ser algo destrutivo e consumista, nos esvaziando a alma e o espírito. Ficar de fora pode nos tirar de nosso tempo, do mercado de trabalho, do dia-a-dia da convivência que ainda resta.

A Internet é um grande caldeirão em tempo real onde se cozinham, destilam e produzem Pedras Filosofais de Alquimistas, Eurekas e o que mais seja em termos de novas descobertas ou de reprodução de conhecimentos mais cristalizados, sejam eles do senso comum ou científicos, que por um motivo ou outro estavam na cabeça de alguém ou perdidos em livros aos quais poucos poderiam ter acesso. Além, é claro, de estar servindo cada vez mais como suporte às atividades produtivas e comerciais deste fim de século e milênio.

A versatilidade e onipresença da rede é para todas as idades, em graus diferentes de dificuldade, de graça ou pagando, na hora ou dizendo onde está publicado ou com quem conversar mais em profundidade. Como um remédio para a solidão ou para atender a pesquisas específicas de mestrado ou doutorado, facilitando a formação de grupos de trabalho à distância para a produção de livros ou o que se conseguir inventar desta forma. Não há limites para a imaginação: os computadores, estejam eles em rede ou não, são potencialmente como as folhas de papel em branco. Nelas tudo se pode escrever (aludindo a Mao Tsé Tung que, se não me engano, disse algo a respeito num momento de lucidez).

Na Internet pessoas se encontram, agrupam-se e desagrupam-se num movimento e rapidez mais adequados e harmonizados em relação às características intrínsecas da modernidade, tais como a reflexividade e o deslocamento no espaço-tempo, ou seja, o aqui e o agora de um acontecimento não dizem mais respeito, muitas vezes, ao aqui e agora imediato (a globalização tem se valido muito desta característica).

A própria Internet é o exemplo: você compra um livro num aqui e agora virtual, numa loja que está a milhares de quilômetros, em fuso horário diferente, fora de seu país e por preços que concorrem com o da loja da esquina mais próxima de sua casa, que estão ao seu alcance mas mais distantes de você tanto em termos de tempo como de espaço e de seu tema de interesse. Esta situação recoloca as coisas de uma forma muito diferente do que eram, por exemplo, há três séculos atrás.

Não estamos mais restritos às coisas que acontecem em nosso espaço físico mais próximo e naquele momento. Coisas muito distantes podem ficar muito próximas e disponíveis sem restrições físicas e de tempo e outras que estariam mais à mão podem ficar muito longe ou não terem nada a ver. É cada vez mais perfeitamente possível trabalhar em equipe com pessoas que nunca se viu fisicamente e estar trabalhando no dia-a-dia em lugares que nunca se foi, ao mesmo tempo morando num lugar que comunitariamente não te diz nada, pois sua vida está conectada a coisas completamente distantes dali. Se ainda não pensou sobre isto, fica aqui o estímulo. Há muito o que se tricotar a partir deste novelo.

 

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Bibliotecas: o elo perdido da informação

 

Mário Flecha – jornalista

 

Aparentemente não faz mesmo muito sentido investir em bibliotecas modernas num país onde o hábito de leitura é uma coisa renegada ao mais baixo nível de prioridade, tanto por parte das pessoas quanto de instituições. Já vi professores com verba do CNPQ ironizando o hábito de leitura sob a pecha de academicismo e preconizando uma espécie de pragmatismo de empreendedor, baseados no faro, na ousadia e num sem número de adjetivos que no fundo não definem nada, apenas exploram mais este modismo em que ou se é empresário ou não se é nada.

A concepção básica é que ler é perda de tempo e como é perda de tempo, por que investir nisto? Eis um dos muitos círculos viciosos de nosso contraditório país, onde até mesmo um presidente intelectual nos coloca pejorativamente a pecha de caipiras. É o caso de perguntar o que é que o mesmo anda fazendo concretamente no sentido de reverter o quadro de nossa educação e cultura (que quando não é miserável é perdulário).

Precisa-se de projetos de longo prazo preservados entre governos que permitam de maneira sólida construir soluções de longa duração. Entre tais projetos se coloca a integração de bibliotecas de diversas instituições, a disponibilização de informações ao cidadão, principalmente aquele menos aquinhoado pela sorte de nascer com um mínimo de condições de adquirir um computador e poder informatizar-se de uma forma ou de outra.

As bibliotecas são basicamente instituições democráticas e podem ser um passo importante no sentido de uma maior socialização da informática, rompendo o abismo que existe entre um cidadão informatizado e o analfabeto tecnológico, um ser humano sem chance de escolha e trabalho num mundo cada vez mais digital.

Talvez o papel mais nobre de uma biblioteca seja o de fazer com que o conhecimento se propague, rompendo o elitismo cultural e econômico. A integração de bibliotecas através das tecnologias de redes e comunicações amplia o conceito de biblioteca, rompe as limitações de espaço-tempo e disponibiliza um espaço virtual onde todos os acervos podem ser pesquisados. Eis uma obra grande como uma rodovia, um túnel e outras coisas mais concretas.

Precisamos por mãos a obra na construção de produtos da engenharia de software voltados para questões de grande amplitude, rompendo a visão focal e muito limitada das instituições voltadas para o próprio umbigo, preocupadas em responder exclusivamente demandas geradas pela burocracia, que visam manter as coisas funcionando num nível muito operacional. A mudança de foco deve priorizar o cidadão e tornar o Estado responsivo, ou seja, responsável e capaz de atender às demandas da sociedade.

A modernidade é algo muito relativo, em diversas épocas o termo foi utilizado para designar coisas que ficaram antigas. É preferível pensar em termos de clareza e percepção das demandas do tempo presente e do que é preciso fazer, da melhor maneira possível, para superar e continuar caminhando, de acordo com princípios democráticos que favoreçam a realização das individualidades, não dos individualistas.

O escritor americano e crítico da sociedade tecnológica, Theodore Roszak, vê nas bibliotecas o elo perdido da informação, de onde uma série de técnicas de indexação e classificação do conhecimento e da informação vieram e para onde muito pouco se olha (especialmente em países com tanto desprezo pela leitura e educação como o Brasil). É fácil perceber o quanto se pode potencializar quando vemos o que a Internet possibilita em termos de intercâmbio de conhecimento. Só a Internet no entanto não é suficiente.

Instituições e locais públicos, onde fosse viável tecnicamente, deveriam ser pontos de acesso do cidadão a tais sistemas e seus serviços. Acredito que esta seria uma das doze tarefas de um Hércules moderno (ou melhor dizendo, contemporâneo), uma coisa para um Estado imbuído de responsabilidade social, que pode até mesmo contar com parceiros privados, mas não pode privatizar deste papel que é parte de sua essência.

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Trabalho e Século XXI

 

Mário Flecha – jornalista

 

Lá estava o palestrante a falar, com aquele ar de empresário bem-sucedido, que em seu tempo de estudante só via seus colegas se casarem, comprarem um Chevette branco e se empregarem em alguma boa empresa. Ele nunca quisera isto, sempre gostou de correr riscos, por isto não se casou, não comprou um Chevette branco e, obviamente, montou sua empresa. Uma pequena plateia de estressados mestrandos, todos assalariados e mergulhados na difícil tarefa de conciliar estudos complexos com trabalho e vida em família, ouvia em silêncio, cada qual fazendo suas conjeturas.

O que afinal de contas é melhor? montar uma quitanda, assumir dívidas e tentar nos próximos anos tornar-se um empresário de seja lá o que for, ou continuar nesta situação inglória, onde esforços que não conduzam à livre iniciativa são coisa de quem não soube se resolver bem na vida? Sem dúvida são tempos estranhos e bicudos estes. Fica a parecer que ser um trabalhador é uma coisa de incapazes, que simplesmente não quiseram mais da vida, como se as condições fossem iguais para todos alçarem vôos mais altos.

O que de fato ocorre é que o equilíbrio de forças entre Capital e Trabalho está rompido. Uma espécie de vingança das elites está em curso. Obviamente estas coisas não são apenas atitudes passionais. A desvalorização do trabalho, a destruição de conquistas de há muito institucionalizadas no Estado do Bem-estar e a privatização do público, se não faziam parte de um projeto, mais e mais delineiam uma intenção que se torna cada vez mais clara. O culto ao individualismo enseja o discurso do liberalismo econômico hightech.

Sob o lema do Estado Mínimo, um Estado forte se fecha em uma redoma de aço e, paradoxo dos paradoxos, intervém pesado no sentido de fazer valerem as premissas do liberalismo econômico, que não serve ao cidadão, mas aos agentes econômicos mais poderosos, a interesses corporativos e institucionais. A proposta falha, mesmo se encarada sob os princípios liberais mais legítimos. De um eterno menor de idade tutelado por toda a vida (o caso mais extremo do Estado interventor, cujos melhores exemplos estão nos países socialistas) o cidadão se vê lançado ao mar das procelas, contando praticamente consigo mesmo.

Há que se buscar algo mais responsável em toda esta história. Se nada disto serve para ampliar as possibilidades de escolha e o leque de oportunidades o mais possível iguais para todos, então pode-se concluir que o neoliberalismo só existe para que alguns se locupletem ainda mais, carecendo por completo de algum princípio mais justo que possa justificar sua continuidade.

Nem os profissionais de computação escapam à sanha demissionária, a qual, segundo artigo publicado pela revista americana Computers, apresenta números impressionantes relacionados a gigantes das telecomunicações e computação: desde 1994 as sete companhias de telefonia americanas dizimaram com 125.000 empregos e em 1996 a AT&T anunciou que irá incinerar mais 40.000; duas semanas após o referido anúncio da AT&T a Apple Computer anunciou a demissão de 1.300 trabalhadores como parte de seu plano de recuperação; a Siemens, desde 1992 reduziu seu efetivo em 9.7 %, fechou fábricas e cortou pagamentos; a Deutsche Telekom, maior empresa de telecomunicação europeia promete acabar com ¼ de sua força de trabalho (a bagatela de 60.000 empregos) até o ano 2000; da mesma forma a Digital em 1994 anunciou a decapitação de 20.000 trabalhadores ( 1/4 de seu efetivo no mundo); a Daimler-Benz (aquela de Juiz de Fora) irá fazer downsizing e mudar o foco de atuação, atingindo seus 329.000 trabalhadores assim como o setor aeroespacial e de defesa da União Europeia (países inteiros dependentes de uma empresa!).

Segundo prognósticos mais otimistas para trabalhadores da computação, ocorrerá uma mudança no processo de emprego e na configuração do mercado, valorizando-se quem for capaz de se atualizar com novos e heterogêneos produtos rapidamente. Os empregos temporários, de consultoria e por contrato limitado tendem a predominar, sendo requeridos conhecimentos de línguas e capacidade de trabalhar em equipe. Obviamente a organização sindical, da forma que conhecemos, tende a virar fumaça, pois os trabalhadores estarão desorganizados e predominará o individualismo.

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O Espaço da Poesia

 

Mário Flecha – jornalista e poeta

 

Definitivamente, a poesia não é um fenômeno de massa, passível de fazer reunir multidões em estádios de futebol, casas de espetáculo de grande porte ou mesmo bater recordes editoriais com vendas a la Paulo Coelho. Servindo-se de elementos também comuns à música, às artes plásticas, ao cinema e à fotografia, a poesia tem uma forma própria de ser, que pode se manifestar de inúmeras maneiras.

Na verdade, temos hoje em dia uma grande variedade de espaços e suportes para veicular a poesia, além do convencional livro. Em espaços mais públicos, tais como estações de metrô, pontos de ônibus, táxis, bares, boates, escolas, universidades e empresas e até mesmo em postes, para não nos estendermos muito. Como suporte temos a Internet (que neste caso é também um espaço virtual), a multimídia, o vídeo, as impressões caseiras (que podem chegar a um nível muito bom de qualidade), o silkscreen e por aí vai.

Não há pretensão de exaurir a lista. O que importa ressaltar é que, em relação a tempos passados, ampliou-se o leque de alternativas. Pensando de forma bem objetiva, diria que a poesia pode ser um bom investimento, devido ao baixo custo que determinados projetos podem ter, em relação ao retorno que podem dar, seja em termos de imagem, seja em termos culturais, seja em termos políticos.

Digo isto porque, mesmo que não se leve adiante nada que utilize os espaços e suportes acima mencionados, com coisa muito menos ambiciosa se pode fundar e lançar as bases de um movimento poético em Minas, capaz de abrigar todas as correntes e preferências, tal como convém à democracia. Somos, sei lá por que cargas d’água, um celeiro literário e poético.

Pré-requisitos é que não nos faltam. Letristas de mão cheia como Fernando Brant, Marcinho Borges e outros tantos de mesmo calibre, alguns mais e outros menos conhecidos, poetas underground, alternativos e tecnológicos, com trabalhos excelentes, como Tião Nunes, Tonico Mercador, Thaís Guimarães, Marcelo Dolabela, Carlinhos Ávila, Roberto Carvalho, Alícia Duarte Penna, Antônio Barreto, Régis Gonçalves, Rique Aleixo, Sérgio Fantini e inúmeros outros com os quais certamente fico em dívida, pois há muitos mais que gostaria de incluir nesta lista, a qual cumpre apenas o papel de dar uma ideia da plêiade.

Minha tese é de que, não sendo um fenômeno de multidão, pode-se trabalhar com o pequeno, porém múltiplo. Na verdade a poesia pode ser intensamente praticada em pequenos espaços, com frequência e constância, ampliando e atendendo a um público que existe e está preparado para ela, aliás, sente falta dela. Isto normalmente envolve pouco custo. Textos de diversos poetas, nacionais e estrangeiros, vivos ou mortos, poderiam ser trabalhados nestes espaços sem produção excessiva. O que acredito que deve haver é um processo de seleção dos textos para garantir um nível mínimo de qualidade e seriedade.

Exemplo de algo que caminha nesta direção (e com um retorno significativo em termos de público) é o interessante projeto Poesia Sintonia, organizado por Sérgio Fantini, Rique Aleixo e Marcelo Dolabella, que vem acontecendo às sextas-feiras no Centro Cultural UFMG. Com um único porém: por não ser uma coisa totalmente da poesia, há uma parte da plateia que ali vai interessada apenas no espetáculo de música programado para mais tarde, o que causa literalmente um certo ruído.

 

Uma outra vantagem destes espaços seria a de promover o reencontro de muitos destes poetas, ainda mais nestes tempos em que mesmo não desejando, a perspectiva individualista é quase uma imposição. Fecho com duas ressalvas: uma proposta assim necessita de um mínimo de infraestrutura para funcionar com constância. Além disto, quanto menos institucionalizante for a ação governamental, tanto melhor será o resultado. O ideal – utópico? – seria o máximo interesse do Estado em fazer a coisa acontecer, mas com a mínima interferência possível…

 

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Sabedoria, conhecimento e informação


Mário Flecha – jornalista

 

Vivemos o alvorecer da era da informação. É difícil imaginar alguém que não seja atingido pelas mensagens de toda ordem que circulam por todos os meios possíveis e imagináveis. Há paradoxos, mas no geral, hoje sofremos não tanto pela falta, mas pelo excesso de informação e nossa limitada capacidade de selecioná-la.

Apesar de ouvirmos incessantemente a palavra informação e vê-la associada a poder e conhecimento, de fato a coisa é vaga e intangível, difícil de precisar, escorregadia. Mais que nunca, informação tornou-se algo quase indissociável do computador, um meio poderoso, sem dúvida, altamente versátil e que nos oferece incessantes novidades e desafios.

Não é possível se pensar que com toda a propaganda maciça que se faz o tempo todo sobre a AIDS (esta sigla emblemática da modernidade) haja falta de informação. Entretanto, a doença se expande. Não tenho a menor intenção de mergulhar na discussão de um problema tão complexo, quero apenas utilizá-lo para exemplificar com um fato que nos é próximo. Se informação fosse algo por si só, bastaria chegar até nós e uma vez captada por nossos sentidos estaríamos informados, algo como o processo de osmose.

Então a coisa tem que fazer algum sentido dentro de nós para se transformar em informação. Precisa encontrar elementos já existentes em nosso banco de conhecimento a que possa se ligar, modificar ou ampliar nosso conhecimento, de forma que nossas ações e decisões neste vasto mundo sejam reorientadas a partir daí.

Tudo bem, então o conhecimento é algo parecido com um conjunto de informações captadas das mais diferenciadas maneiras e organizadas e reorganizadas o tempo todo, com vistas a orientarmos nossa ação no mundo. Aprendemos desde a imitação pura e simples até a leitura e o estudo, a experiência direta (por exemplo, por a mão no fogo queima) e a observação. O tempo todo usamos nossa base de conhecimento. E tem mais: aprendemos mesmo sem querer. Uma parte do que aprendemos está inscrito em nós de forma quase indelével. É quase uma marca.

Acontece que este conhecimento não implica sempre em atitudes idênticas e padronizadas por parte de cada indivíduo. Não somos robôs. Ele tem a marca de nossa cultura, de nossas lutas pela sobrevivência, do bom trato ou do mau trato que recebemos pela vida afora. Existem razões em nós, que nossa própria razão desconhece.

Estamos, portanto, mais para impregnados de um certo arranjo de informações, o qual em parte se revela em nossas ações e reações. Nossas crenças mais profundas (nas quais nem pensamos quando agimos), valores, costumes e um sem número de informações vão se encadeando de forma singular em cada indivíduo numa mesma matriz cultural (por exemplo a língua e os costumes nacionais fazem parte deste caldo).

Imagine agora a seguinte situação: um adolescente que no seu círculo de amizades aprende a fazer uso do crack e onde comprá-lo sempre que quiser. Este conhecimento é efetivo, funciona para os objetivos a que ele se propõe. A base de conhecimento está operando de forma correta, em que pesem as mensagens de alerta sobre os perigos das drogas. Há um processo de escolha ocorrendo dentro de cada indivíduo, em parte consciente em parte não. Da mesma forma países com alta capacidade tecnológica podem usar o conhecimento em direções adversas tanto para seu povo como para outros povos.

Sabedoria faz a diferença. Não é uma coisa dos mais idosos (há muitos que não têm sabedoria alguma) mas sim da habilidade de selecionar a ação mais harmoniosa e menos danosa a nós e aos outros dentre o acervo de conhecimento de que dispomos. Sabedoria seria então o uso do conhecimento para alcançar a felicidade e a serenidade, não apenas individual mas coletiva?

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Vilipêndio do Bem Público

 

Mário Flecha – jornalista

 

Cidadania num país como o Brasil ainda é piada de mau gosto. Pior é quando você a deseja demais, porque dependendo do estado de espírito, passa a ser mais uma entre outras razões para se atormentar. É mais um motivo para se ficar maluco entre tantos absurdos cotidianos. Ser cidadão aqui está longe de um sereno, civilizado e digno estado de espírito. É antes de tudo um precário, expectante e frustrante sonho sempre por realizar-se. Em geral, pelo senso comum, o mal está radicado nas instituições do Estado, seus agentes burocráticos e políticos. Tais vilões são o alvo predileto, onde a crônica do dia-a-dia registra com abundância todos os graus de arbítrio e desrespeito. Falar desta área é portanto chover no molhado.

No entanto, se tal fato for possível, acredito que desenvolvemos uma espécie de neurose coletiva que se traduz em atribuir todos os males e problemas a terceiros, que em geral são entidades abstratas na terceira pessoa do plural e que fazem parte da política, do governo ou de uma suposta índole ruim de nossa raça. Num segundo estágio, tendo atribuído a outrem a responsabilidade, torna-se fácil eximir-se da própria e justificar uma série de atitudes sem nenhuma dor de consciência.

Há poucos dias, voltando de uma viagem a Caldas Novas em Goiás, no trecho entre Araxá e Campos Altos fui parado numa blitz da Polícia Rodoviária Federal. Multavam a gosto, mas o que mais chamou a atenção foi a sujeira que faziam, espalhando folhas de carbono às margens da estrada. Quando perguntei ao policial por que precisavam sujar tanto, ouvi a seguinte resposta: “a culpa é dos homens lá em cima. Não tem verba nem pra saco de lixo”.

Ora, venhamos e convenhamos, basta colocar as folhas na viatura e depois dispensá-las na cesta mais próxima. Para isto não precisamos, graças a Deus, da intervenção de ninguém além de nós mesmos. É uma coisa de atitude pessoal. Me parece que este é o elemento fundamental de mudança: deixar de ser um agente da passividade e começar a faxina por si. A questão é que nem sempre se vê a sujeira como sujeira (sujeira aqui pode ser bem mais que papel no chão) e este é um problema educacional, que em parte se pode trabalhar na escola. Mas e as multidões de adultos de todos os níveis, lesados por anos e anos de concepções espúrias inculcadas por todos os poros?

Respostas para problemas desta natureza, do ponto de vista de políticas públicas não são um mero exercício da razão e da ciência, requerem tolerância e controle do nível de expectativas quanto a resultados que são colhidos muito lentamente e que em geral costumam ser aquém do esperado. Voltando ao setor de limpeza, para não irmos muito longe, pode-se dizer que houve mudança substantiva, para melhor, por parte da instituição municipal encarregada deste serviço em BH.

Diríamos o mesmo do conjunto da coletividade? Temos pessoas mais cuidadosas com a limpeza do meio ambiente urbano? Mais preocupadas em não jogar detritos de qualquer natureza ao chão? Será que se quintuplicássemos o número de garis e equipamentos de limpeza faria diferença se a população também não se preocupar e continuar mantendo um comportamento indiferente a este esforço? Sabe-se que não. E é aí que mora o X deste tipo de questão.

Sem a consciência do coletivo o que se tem é uma casca de noz, fechada e voltada exclusivamente para si, habituada a culpar, reclamar ou simplesmente nem aí. É tão comum ver “gente bem”, em seus carros do ano jogando papel, cigarro e coisa que o valha pela rua sem nenhuma cerimônia. O espaço público é para isto mesmo, parecem dizer com suas fisionomias tranquilas e alheias a ato tão “natural”.

Me lembro dos sábios pagãos de antes de Cristo, condenados ao limbo na Divina Comédia de Dante, cujo pecado foi o não terem intuído a existência de Deus. Em que limbo seremos lançados por não intuirmos coisas tão mais simples e evidentes? É uma estranha forma de paganismo a cegueira que têm olhos que veem para uma mente obscura.

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Os Trabalhos e os Dias

 

Mário Flecha – jornalista

 

Um amigo médico, voltado para questões de saúde do trabalhador, relatou-me o número crescente de casos de neurose, stress e lesões por esforço repetitivo (LER) após a adoção, por grande número de empresas, do discurso e da prática da chamada Qualidade Total, uma proposta cujo idealizador era Deming, pesquisador americano que teve suas ideias rejeitadas na terra natal e adotadas pelos japoneses, que nela reconheceram méritos. Deming, aliás, preferia tratar mais apropriadamente o assunto por Aperfeiçoamento Contínuo de Processos, ao invés do nome mais comercial que posteriormente foi adotado.

O taylorismo clássico apregoava o chamado “homem-boi”, uma espécie de trabalhador domado, domesticado e totalmente submisso aos desígnios patronais. Em verdade, Taylor era muito avançado para seu tempo. Queria mesmo era um robô bem-mandado, sempre disponível e a baixo custo. Na década de 70 tivemos um arremedo deste ser ideal, o chamado “operário-padrão”, ideia ainda utilizada, por exemplo, em fast-foods quando colocam o retrato do funcionário destaque da semana.

Pode-se estimar pelo número de linhas dedicadas ao tema da qualidade do ponto de vista do produto, processo, cliente e o que mais for. É ínfimo o tratamento da questão pelo ponto de vista do significado do trabalho na qualidade de vida do ser humano e de sua extensão nas relações familiares e interpessoais. Quão danosa pode ser para o espírito e para o corpo a labuta que não edifica mas danifica o físico e o espírito.

Existe o bom e o mau trabalho, como lucidamente, há vinte e sete séculos atrás, o poeta grego Hesíodo fez notar nos versos dos Erga (Os trabalhos e os dias). Érgon é o trabalho relacionado às necessidades de subsistência do ciclo biológico da vida e representa a justa e harmoniosa medida que enaltece e faz melhor o homem. Pónos é o trabalho árduo, gerador da fadiga, do excesso que humilha, degrada e rouba as energias. Pónos é um dos males que sai da jarra de Pandora, o presente de grego que Zeus enviou à humanidade para vingar-se do roubo do fogo sagrado pelo humano Prometeu.

A qualidade de um produto é obrigação mínima na relação entre produtor consumidor, não é favor ou atitude baseada em escolher produzir com qualidade ou não. O que ocorre é que o discurso da qualidade virou diferencial competitivo no mercado e sua prática torna-se a melhor fachada para a introdução de medidas que visam redução de custos e empregos, aumento de carga de trabalho, degradação, neurotização e transferência de custos em formação e aperfeiçoamento para o bolso do trabalhador. Uma coisa que funciona ainda melhor no mundo individualista em que estamos vivendo.

O maior mal do capitalismo é que juntamente com a riqueza que produz caminham juntos a violência, o egoísmo, a falta de solidariedade, a miséria, a mortalidade infantil, a falta de escolha e opções, a rápida degradação do meio ambiente, a prostituição, o tráfico, enfim, uma lista infindável de mazelas sedutoramente camufladas por avanços tecnológicos, automóveis reluzentes, mistificações, sucesso individual e muito, muito acúmulo de riqueza nas mãos de poucos.

Ainda apoiando-me na sabedoria de nossos ancestrais gregos, o capitalismo compara-se a Pandora: um belo mal que corrompe pela sedução. Divorciadas do significado do trabalho, consomem-se existências nas engrenagens dos tempos modernos. Caíram muros, ruíram regimes, em verdade o sonho não acabou, está hibernado se reciclando. As condições que degradam o ser humano e perpetram os males de Pandora persistem.

Jack London, autor de estórias de aventura, viu o fim miserável que lhe estava destinado na degradação a que chegavam homens que na juventude eram como ele, empregando diuturnamente sua energia vital num trabalho extenuante e sem futuro. De fato, nada acabou. Na verdade nem começou.

 

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Construindo a Cidadania

 

Mário Flecha – jornalista

 

Há poucos dias atrás, mais precisamente na edição do dia 9/11 do Diário da Tarde, publicou-se matéria intitulada “A Revolta do Morro”, que considero alvissareira em meio ao ambiente moribundo da cidadania neste país. Uma reação de saúde, de justa e lúcida indignação, demonstração de consciência e ação coletiva organizada. Trata-se da denúncia da associação de favelas sobre um fato que, de tão cotidiano, já nos parece normal que assim seja: a violência e o desrespeito à cidadania por parte das corporações policiais que nelas atuam em batidas e blitz a procura de criminosos.

Infelizmente o aparato de segurança pública está impregnado de uma concepção que se baseia em dois pesos e duas medidas. Que me digam não ser verdade a seguinte conclusão, observável na crônica policial e cenas cotidianas: polícia protege rico e prende pobre (em geral negro). Assim como a justiça, a saúde e outros serviços públicos também diferenciam. Ranço de último país a abolir a escravidão?

A palavra marginal tem sentido mais amplo: são aqueles colocados à margem da sociedade, que não partilham da distribuição de renda, que no Natal e demais dias do ano, desde sua tenra idade e, geralmente, curta existência, assistem do lado de fora ao baile do consumo.

Perversamente se poderia dizer que “deram o azar de terem nascido nesta situação”. É natural que a marginalidade favoreça o aparecimento de criminosos, mas não deriva daí que todos os lançados na marginalidade recebam a pecha e sejam tratados como tal, vendo os direitos mais básicos, tanto do indivíduo quanto sociais desrespeitados sem nenhuma cerimônia.

E olhem que em Minas temos uma polícia, especialmente a Militar, considerada referência na América do Sul, com conduta moral da maior parte de seus indivíduos, assim como um padrão de qualidade, várias vezes superior ao do inferno carioca. Fosse esta denúncia no Rio e duvidaríamos de sua idoneidade, suspeitando de manipulação das gangues que por lá controlam as favelas. Mas aqui é diferente. A reivindicação procede.

O criminoso endinheirado, muitas vezes filho de papai, saca do cheque na hora de se defender e contrata advogado. Não reage, sabe que demora pouco na cadeia por bom comportamento e conhece seus direitos, num país por demais benevolente com bandidos elitizados. A título de curiosidade, dizem que na China os corruptos (estes do colarinho branco que aqui se dão tão bem) são fuzilados com um tiro na nuca e a conta da bala que foi gasta vai para a família.

Verdade ou não, deixando de lado a polêmica da pena de morte, quem dera as palavras bandido e criminoso não tivessem classe social e fossem utilizadas “democraticamente”, de forma equânime, contra todos que de alguma forma violassem as leis. Poríamos fim a este “apartheid” tupiniquim.

Afora isto, o que resolve problema de marginalização e criminalidade não é o uso da força mas distribuição mais igualitária da riqueza, educação, saúde, vontade política e etc eteras. Duvido que se resolvermos esta equação corretamente os índices de violência, medo, menores abandonados, pobres coitados em filas intermináveis dos serviços públicos não venham, no mínimo, a se reduzir substancialmente.

É infame a quantidade de mendigos, bêbados e crianças abandonadas que temos produzido nos últimos anos, assim como de criminosos endinheirados que vemos livrarem-se das grades rotineiramente. Temos sido um solo fértil para a criminalidade. Um amigo psiquiatra dizia, que onde fraquejam as leis e instituições os psicopatas comandam, dado o pendor e atração que possuem por um poder absoluto, especialmente de vida e morte.

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Educação e Liberdade

 

Mário Flecha – jornalista

 

Não há como perceber no individualismo um caminho rápido para a mediocridade. O isolamento e a rejeição do outro, ou melhor, a indiferença, rompendo diálogos, estabelecendo distâncias. Por isto, antes de mais nada, estas palavras provocadoras e instigantes de Helena Antipoff: “Evidentemente há só um meio de escapar ao espetáculo de nós mesmos e da censura de nossa consciência – agir. É necessário agir de tal maneira que a finalidade da ação nunca seja em proveito de nós mesmos, e sim agir tendo em vista outras plagas e outras vidas. Assim movidos pela ideia do próximo, deixamos de pensar em nós mesmos.”

Para aqueles que procuram para seus filhos e filhas uma educação libertária, viva, com cara de gente e respeito pelas individualidades, posso dizer de experiência pessoal – não é fácil encontrar lugar e pessoas cujo discurso e prática caminhem pelo menos próximos. Há que se esquecer de certas comodidades (ou comodismos?), que se fazer algum esforço para oferecer o que em geral não se encontra: o entrelaçamento do lúdico aprender, o convívio, a oficina de brincar, vivenciar, pesquisar, dialogar.

Encaixotados em apartamentos, acossados pelo medo dos pivetes e outras violências tentamos proteger-nos num isolamento cada vez maior, ao qual acabamos submetendo nossas crianças. Quando ainda tínhamos as ruas de BH como espaços viáveis para a convivência dos bairros, dos jogos de bente altas, cabo de guerra e queimada, carrinhos de rolimã e patinete, tínhamos um remédio para a melancolia que nos vinha imposta por pais e educandários na quase eterna tentativa do enquadramento numa disciplina robótica.

Hoje, sem estas válvulas de escape para o lúdico, a privação é maior e com certeza vemos cada vez mais frequentemente crianças obesas, criadas em frente à televisão, prisioneiras de apartamentos e completamente submersas na imposição disciplinar que tantos pais impõem a seus filhos na busca da doma, da submissão, do silêncio que não incomoda. Passarinhos de gaiola não sabem viver em liberdade. A inteligência requer estímulo para despertar e ser efetivamente usada diz no mínimo o bom-senso.

Se em outras espécies observamos que brincar é também um elemento que funcionalmente prepara o indivíduo para a defesa, a caça e outras habilidades que o instinto de sobrevivência desperta, no ser humano a inteligência é nosso elemento mais importante e brincar é o universo mais rico do aprendizado, porque cheio de prazerosos momentos, não nos abandonam mais a memória e estimulam para os próximos passos.

Minha filha de cinco anos passou por dois lugares fundamentais que carregam e desenvolvem as ideias fundamentais de Helena Antipoff: Educ, cujos diretores são o casal Daniel Antipoff e Otília, respectivamente filho e nora de Helena Antipoff, e a Brinquedoteca de Sônia Barcellos, aluna e colaboradora de Dona Helena. Um bom pedaço de seu período pré-alfabetização Alice esteve na Brinquedoteca, onde desenvolveu vários conceitos de convivência, de raciocínio espacial e por aí afora.

Na Educ, já se encontra praticamente alfabetizada, sem nenhum esforço traumático, aprendendo e se divertindo, entre hortinhas, pesquisas de tudo que a curiosidade do grupo demanda, com coelhinhos, ar livre e muita convivência e atenção, nada massificado. Educar um ser humano é um projeto de fôlego e é uma responsabilidade e prioridade da qual não abrimos mão.

A inteligência sensível e não ressentida é algo raro porque pouco trabalhada ou até mesmo sistematicamente combatida devido ao caráter naturalmente libertário que encerra. Se alguém em que vale a pena depositar um voto de confiança é em nossos filhos, dos quais somos em parte escultores. Cidadania começa em casa e muita serenamente.

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Sob a Lei do Barulho

 

Mário Flecha – jornalista

 

É inútil, eu sei, mas certamente é um desabafo. Vivemos numa cidade onde se suja muito. Se suja a Lagoa da Pampulha, se suja as ruas de todo tipo e tamanho de lixo, se polui sem dó o ar, o Arrudas este esgoto a céu aberto infectando a atmosfera de suas imediações. Quando não é a sujeira é a opressão dos engarrafamentos, a descortesia e brutalidade de motoristas e pedestres em sua guerrinha neurótica de todo dia. É difícil imaginar que se possa fazer algo para mudar esta realidade (mesmo com a boa vontade do prefeito e talvez uma certa demagogia).

Afora isto, dá-lhe cigarro em local proibido, buzinas, agressões de trânsito, o inferno de cada dia nas páginas dos jornais, o alcoolismo e a criminalidade que só faz aumentar. Esta lista pode se alongar por demais. De todos estes males há um que é dos mais descuidados e até mesmo protegido por lei: a poluição sonora. Seja na forma de escapamentos abertos, de buzinas desnecessárias, de motores ruidosos, de sons ligados da manhã até à noite em profusão.

Mil vezes vozes de crianças brincando do que o rock’n’roll contínuo, as falsas músicas caipiras, as baixarias e mediocridades de dança da garrafa e outras vulgaridades mais. Tenho vizinhos que durante a semana e especialmente aos sábados e domingos se esmeram em arrebentar seus tímpanos e atormentar o sono e o sossego de outros.

É um abuso consentido ou protegido por lei. Depois das oito da manhã e até vinte e duas horas salve-se quem puder (não é incomum se ultrapassar a lei do silêncio). Talvez de todas as poluições que toleramos esta seja a campeã. Vejam, não sou contra uma festa na casa de ninguém ou vez ou outra alguém curtir o seu som (também fazemos isto em casa). A diferença esta no padrão repetitivo e constante de alguns gajos.

Ora é o fulano que desce para lavar o carro sistematicamente aos sábados e abre as portas, coloca quase sempre a mesma fita e exibe a potência de seu som. Paralelamente, é o outro vizinho (o tal do rock) a todo o vapor numa pauleira que pode durar o dia inteiro, se ele não tiver algo melhor para fazer. Geralmente homens jovens solitários ou em repúblicas são os piores. Santas as namoradas, delas é o reino dos céus. Quando surgem costumam domesticar estes selvagens sonoros. Mas não se iludam, existem os casados renitentes.

Algum apartamento do quarto ou terceiro andar liga numa AM e dá-lhe qualquer uma destas musiquetas de consumo e existência fugaz que vieram assassinar a MPB. Daí o outro liga o Pavaroti de sempre e para completar, ao lado do prédio existe uma oficina de carros importados que sempre aciona seus alarmes ultrassensíveis. Além destes, no prédio do lado oposto vem diversos sonidos dos mais variados compositores. Ia me esquecendo, temos também um exemplar de estudante de sax.

Ainda temos a ditadura dos clubes, o Minas é um deles, que cismaram que ambiente alegre e divertido tem que ter som alto de alguma FM. E dá-lhe zoeira. A definição de segundo no Brasil sabem qual é? É o tempo de abrir o sinal e o de trás tocar a buzina (estou sendo bonzinho, de fato a coisa é muito pior. A buzina é uma arma ou sua substituta mais próxima). Pobre de minha amiga e colega de mestrado, vizinha do bar Três Lobos, que tem de aturar noite adentro a potência de caixas de som, buzinas e arrancadas na Raja Gabaglia. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente só pode verificar o que fazer daí a três meses (como é que dão o alvará de funcionamento?) e a polícia nada pode fazer.

 

A lei é municipal e portanto está fora de sua jurisdição. Só podem agir se houver uma solicitação da própria prefeitura. Mesmo assim, tentam bater um papo e contar com a boa vontade de alguns. O silêncio anda em baixa há algum tempo. Dante não conheceu este Círculo do Inferno, digno de citação em sua Divina Comédia.

 

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Lendas Natalinas

 

Mário Flecha – jornalista

 

Vou relatar aqui algumas histórias de tempos e lugares diferentes, que convergiram e deram origem, a partir de um certo momento, ao nosso Papai Noel. Infelizmente minha memória é falha e alguns detalhes e nomes não serão lembrados, mas creio que a essência curiosa da lendária figura será possível transmitir.

A parte mais antiga de nossa história começa ali pelo Estreito de Behring, aquele pedacinho em que quase se tocam os territórios da Sibéria e Alasca. Tribos de origem mongol que viviam naquelas terras geladas viam nas Renas animais sagrados e as usavam para transportá-los. Estes nativos viviam em grandes cavidades escavadas no solo gelado e ali dentro acendiam fogueiras cuja saída da fumaça era um orifício no teto (o qual era uma estrutura de madeira recoberta, por exemplo, com peles), que além de chaminé servia também como saída da moradia através de uma escada (destas do tipo que se apoia na parede).

Lá também existiam os feiticeiros da tribo, os quais em determinada época do ano, colhiam cogumelos vermelhos com bolas brancas, típicos da região, que tinham um alto poder alucinógeno. Faziam um chá dos mesmos com a urina das renas e o bebiam. Em seguida, saiam de suas casas pela chaminé e desapareciam na noite da vastidão gelada. Voltavam dias depois, com sacos carregados de presentes e desciam pela chaminé, contando as estranhas visões que tiveram e deixando encantadas as crianças, seu fã clube número 1.

Do outro lado, na velha Europa, estava São Nicolau. Este era um velhinho de barbas brancas, presenteiro por excelência que adorava sair pelas ruas distribuindo presentes para a garotada. Acabou se consagrando Santa Claus. Em verdade Papai Noel significa Papai Natal (do francês Pèrre Noël, que significa Pai Natal). Há ainda a Árvore de Natal, com todos os seus enfeites, da qual pouco sei. No entanto, posso dizer que o Pinheiro simboliza a longevidade, o renascimento e que faz parte da cultura da Oriental quanto Ocidental.

Bem, daí para a frente a coisa foi se misturando. Juntem-se estes símbolos de Natal: chaminé, renas, presentes e histórias mágicas, um bom velhinho de barbas brancas amigo das crianças, cogumelos vermelhos com bolas brancas, árvore de natal e neve. Foi o que fez um esperto americano, creio que pelo fim do século XIX, ao lançar com muito sucesso a primeira versão do Papai Noel que conhecemos.

Os comerciantes adoraram, as vendas subiram e a coisa pegou. Desde então o Natal, data do nascimento do Menino Jesus ficou indissociavelmente ligado ao Papai Noel, o qual costuma roubar as atenções da garotada. Tornou-se uma data de muito consumismo, um tanto quanto adulterada em seu espírito atualmente, mas que ainda pode ser vivida dignamente por aqueles tantos que buscarem recuperar seu valor.

Dizem que o Natal é uma festa onde muitos ficam deprimidos, acabrunhados. Pessoalmente já vi muita gente manifestar que não gosta da festa do Natal, daquelas reuniões de família etc. Convencionalmente, para cumprir o ritual acho que é muito chato e cheio de alegria mecânica mesmo. Mas tenho uma dica que pode ser que funcione com alguns.

Natal é festa de criança, do espírito da fantasia e do momento de agradar fazendo surpresa. Assim, ficar perto dos pequenos e se deixar contagiar pela alegria e espírito da infância é uma forma de recuperar a própria criança que muitas vezes perdemos nos descaminhos da vida. Este é para mim o verdadeiro Espírito do Natal. Uma coisa cheia de esperança, capaz de nos fazer brincar e enxergar a vida com bons olhos. E é de graça! A riqueza está no compartilhar o sentimento verdadeiro. Espero que todos sejamos iluminados e que celebremos o espírito natalino. Feliz Natal para todos.

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Racismo à Brasileira

 

Mário Flecha – jornalista

 

Venhamos e convenhamos, fosse feito um extenso estudo neste país onde pouco se estuda e lê e veríamos que se já éramos racistas desde sempre, a coisa não mudou e diria mesmo que piorou. Nós, este país que foi o último a abandonar a escravidão, ostentamos a panca de país que a todos acolhe de braços abertos, mas nas entrelinhas exibimos esta vergonha: o racismo.

Não posso afirmar com certeza, afinal não tenho nada mais que minha percepção, mas diria que de alguns anos para cá a coisa está ficando pior e de um jeito que é bem nosso, ou seja, debaixo daquela capa de alegria mecânica, daquela falsa tolerância, tão clichê do brasileiro. Uma coisa forjada nos anos 50 e 60 especialmente no Rio de Janeiro e que até hoje tenta refletir o que já perdemos há muito tempo: nossa espontaneidade, cordialidade e uma certa marca e sentimentos genuinamente nacionais.

Os muitos e originais carnavais pasteurizaram-se com a busca da imitação da metrópole carioca, americanizamo-nos mais do que nunca, multinacionalizamo-nos ainda mais e viramos algo que está longe de ser um país que caminha para a própria independência dentro de uma economia globalizada, o que só vem complicar as coisas.

Mas chega de divagações. O ponto central desta conversa é o racismo do dia-a-dia. Falo de uma vivência que me incomoda demais e que venho sentindo cada vez com maior intensidade. O que é pior é que vem de pessoas de convívio muito próximo, das quais não poderia esperar comportamento tão atrasado e desprovido de, no mínimo, uma certa reflexão pessoal sobre o valor e papel de nossos atos e das opiniões que emitimos, mesmo quando estamos aparentemente “brincando”.

Piadas racistas, especialmente contra negros, parecem ser o prato predileto de pessoas que vão desde médicos, jornalistas, advogados, escritores, poetas etc, que no mínimo se espera que tenham um pingo de consciência. A coisa é tão comum que se dá dentro da maior naturalidade, ou seja, parece ser tão óbvio que nem se dão ao trabalho de pôr em dúvida a crença racista que anima as piadas e as opiniões geralmente emitidas em voz baixa. Ora, que sabem ser algo condenável não resta dúvida, ou não usariam da voz baixa ou mudariam de conversa na presença de um negro.

Todo racismo é torpe. Sei que estamos vivendo um tempo que é mais para terra de murici, onde cada um cuida de si e que se dane o resto. O espaço para a comunhão, o comunitário, o solidário se reduz em ilhas num oceano de individualismo e competição sem limites. O racismo e a intolerância se fortalecem na Europa e se refinam com tecnologia, exibindo uma nova versão de tecno violência do nazismo ou simplesmente uma geração sem maiores compromissos ideológicos, apenas criada sem amor e atenção, embora mais bem nutridos que nossos inúmeros pivetes, e talvez com um certo charme europeu que tanto encanta nossa euforia indígena.

Querem um exemplo da trivialidade e enraizamento de nosso racismo? Tão impregnado que nem o sentimos, tal como o ar que respiramos. Aí vai: quando se entra numa loja de artigos femininos para comprar uma daquelas meias que desfiam à toa e pedimos uma que seja da “cor da pele” de que cor será esta meia? Acho que basta apenas este exemplo.

Afora isto, há vários filmes de produções recentes, inclusive um com John Travolta que ilustra através da inversão de papéis de negros e brancos na sociedade, o que acontece aos “brancos” numa sociedade dominada pelos “negros”.

 

Se ri muito durante o filme, o qual também apresenta cenas chocantes e termina tragicamente. Por quanto tempo ainda chafurdaremos neste atraso de corações e mentes? Belo passo o dado pelo Prefeito Célio de Castro ao criar a Secretaria Municipal de Assuntos da Comunidade Negra. Esperemos que outros sejam dados no sentido de ampliar a participação daqueles que são minoria no poder (mulheres, crianças e terceira idade, por exemplo).

 

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Aos Templos do Consumo

 

Mário Flecha – jornalista

 

Os Shoppings vieram para ficar e BH é uma cidade rica em exemplos. Modificaram-se os hábitos, a violência se espraiou calmamente em nossos grandes centros urbanos, a dificuldade de estacionar, todos os incômodos de ficar a céu aberto tendo de atravessar ruas com compras, tornando-se presa fácil de pivetes, trombadinhas e motoristas aparentados de equinos, os quais, aliás, são uma espécie humana de quatro rodas muito comum em nossa cidade.

Corremos sério risco de que os Shoppings se transformem em algo assemelhado aos bancos ou serviços privados de saúde: investem muito em mala direta, propaganda televisiva, outdoors, mas a relação real é de desprezo pelo cliente. Creio que o porquê está no fato de que nos tornamos por demais dependentes. A ponto de se poder dizer que aquele “cativar o cliente”, ou melhor seria “cevar o cliente”? parece ter se invertido ou anulado.

O engraçado é que este tipo de situação leva a pensar se a tal privatização implica sempre em melhoria de qualidade dos serviços, eficiência e toda esta terminologia “neo”. Passamos a ter de pagar por tratamento típico de serviço público mal administrado: filas, demora, erros, má vontade, desrespeito a direitos fundamentais etc.

A questão a meu ver está relacionada ao monopólio (uma coisa que pode ser modificada, mesmo no serviço público, através de um sistema de concorrência entre agências prestadoras do serviço, através de incentivos à produtividade e mais autonomia local entre outras coisas). Tais mazelas em geral começam nos dirigentes de instituições públicas(os mesmos que preconizam o desemprego, a privatização), cuja inépcia gerencial é transformada em culpa dos subordinados (não vamos nem falar da má fé explícita, do nepotismo e outros problemas que se resolvem com decisões administrativamente corretas, seriedade, ética, vontade política, polícia e etc).

O absurdo ainda não atingiu os Shoppings em tal grau, mas começa a se fazer anunciar na cobrança de estacionamento. Não há justificativa razoável, seria o mesmo que cobrar explicitamente pelo papel de embrulho, pelo durex, pela embalagem, pela luz elétrica, enfim, inventando taxas de manutenção e serviços.

Afinal de contas, se os shoppings não possuíssem estacionamentos dariam o Ibope que dão? Não, e ainda gerariam um grave problema de falta de estacionamento nas ruas e mais engarrafamentos do que já geram. O estacionamento faz parte do equipamento básico de funcionamento de um shopping ou do contrário seus serviços ficam comprometidos.

Não teríamos dúvida do absurdo se pusessem catracas e bilheterias na entrada destes mesmos shoppings para cobrar pedágio de quem estivesse a pé. Estaria ainda mais claro a qualquer um o despautério. Em verdade estamos sendo passados para trás, pois isto está, mesmo que implicitamente, embutido nas taxas de condomínio que lojistas pagam às administrações de shoppings para que a coisa funcione a contento.

Mesmo os shoppings localizados no centro ou dentro da cidade, como o Cidade, o Central e o recente Diamond podem facilmente resolver o problema de serem usados como estacionamento gratuito solicitando a nota fiscal, ou coisa equivalente, que comprove que houve consumo; assim como assegurando uma faixa livre de cobrança, digamos de 15 minutos, para aqueles que porventura não encontrarem o que procuram.

No período da noite e aos sábados não faz sentido algum a cobrança, assim como nos domingos e feriados, quando o movimento cai e certamente a maioria absoluta ali vai para usar praças de alimentação, cinemas e outros serviços, ou seja, estão consumindo. Enfim, assumindo minha posição de frequentador de shoppings, especialmente cinemas e praça de alimentação, deixo aqui este protesto, esperando que o bom senso, a boa vontade e alguma indignação contra abusos prevaleçam.

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Pais, Shoppings et coeteras

 

Mário Flecha – jornalista

 

Afinal estão percebendo quão importante é o núcleo familiar para fazer girar a roda da fortuna. Claro, principalmente os estressados pais e mães de pequerruchos ativos, saudáveis e carentes de espaços novos onde possam se expandir. Quanto tempo levou para perceberem a importância de serviços do tipo “estacionamento de crianças” em restaurantes, lojas, supermercados e especialmente shoppings, para que os pais possam fazer suas compras, curtir uma praça de alimentação, visitar as vitrines, enfim, exercer um dos papéis fundamentais da família na sociedade de consumo: consumir.

De uns tempos para cá começaram a surgir diversos locais oferecendo a seus clientes serviços de guarda e diversão para as crianças. Creio que o shopping pioneiro nesta iniciativa e que implantou um serviço de primeira, superorganizado e gratuito é o Ponteio, com seu Vipinho Park, do qual minha caçulinha já é sócia com carteirinha e tudo.

Aos poucos foram surgindo iniciativas (nada como a competição para acabar com a paradeza): no Minas Shopping dentro do Paes Mendonça, no Minas Casa e mais recentemente no Del Rey, com um espaço muito transado todo acolchoado e com brinquedos gigantes de espuma, formando túneis, montanhas, bolas, piscinas de cubos de espuma, leões, cobras, tudo emborrachado e com assistência de monitoras. Neste ponto me pareceu ser o que mais tem a oferecer aos pequerruchos.

Comodidade e segurança são importantes. Tanto no Vipinho como no Del Rey os pais recebem um pager; caso se esgote o tempo, que em geral fica entre uma e duas horas, ou a criança deseje sair antes, o bip tocará avisando e transmitindo a mensagem.

Considero estes serviços de utilidade pública, como deveriam ser as creches e outros, que empresas poderiam contratar para liberar seus funcionários e propiciar condições de trabalho qualitativamente melhores, retirando-os dos atropelos e sufocos de pagamentos, pequenas compras, busca de objetos e documentos. Afinal as pessoas têm obrigações não apenas com o seu trabalho.

Os carrinhos de neném também vieram a calhar. Que pai já não se sentiu um pequeno Jegue carregando toda a matula do ou dos filhotes? Ou a mãe que, ou leva nos braços ou tem que inevitavelmente carregar a bugiganga toda para sair.

Uma coisa fundamental para o ato de bem consumir: a pessoa deve estar despreocupada, relaxada, envolvida com o ambiente numa espécie de transe agradável que a predispõe para o consumo. Diabólico? Talvez, mas já que o consumo é inevitável e não necessariamente ruim, devemos buscar aperfeiçoar os serviços, trabalhar de forma cada vez mais científica e profissional.

A questão da qualidade ultrapassa muitas vezes o produto. Do ponto de vista industrial esta muito centrada nele, nas condições de trabalho, no significado do trabalho etc. No comércio, especialmente no atendimento e no compromisso ético do preço justo, na pontualidade etc.

Uma questão que penso valer a pena assinalar é a de que não se deve cobrar por este serviço, a exemplo dos estacionamentos. São âncoras importantes, que trazem e favorecem às lojas em geral e deveriam portanto ser bancados pelo conjunto dos lojistas, pois trazem clientes certamente. Neste ponto o Del Rey está em desvantagem em relação a seus concorrentes ao cobrar pelo serviço, pois mesmo não cobrando em demasia é um serviço com retorno garantido que certamente se paga, pelo afluxo destes consumidores certos que são os pais.

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Modernidade e Minas

 

Mário Flecha – jornalista

 

Minas é celeiro de muitas coisas, todos sabemos disso. Temos visto muitos e muitas mineiras abandonando a terra natal para buscar o sucesso no eixo Rio-São Paulo. Entretanto não perdemos todos e aqui se tem construído uma base sólida para progredir, se compararmos com outros estados e capitais. Nada mais justo, portanto, que pretendermos fazer com que isto continue se expandindo, ao polir arestas, esquecer divergências e trabalhar em harmonia com as diferenças, num espaço amplo de debate, argumentação e união de esforços. Claro, ao final das contas, é preciso haver um crédito positivo de ações conjuntas que beneficiem o Estado e as municipalidades.

Falei no atacado, agora serei mais específico: a questão fundamental que desejo abordar é a da política e desenvolvimento da tecnologia de informação e seu uso estratégico para a produção de know how e soluções voltadas para especificidades mineiras, brasileiras e latino-americanas, voltadas para o fortalecimento e suporte logístico às atividades produtivas da própria área e de outras, na ocupação efetiva de nichos de mercado do Mercosul, inserção na economia global não apenas como consumidor ou sede de empresas transnacionais (que nada têm de nossas), ampliação das chances de não sermos apenas um país periférico, de segunda classe na economia globalizada, ou se melhor não for possível, que pelo menos desfrutemos de situação mais digna.

Algumas iniciativas importantes têm sido tomadas no sentido de fomentar estas mudanças. A Fundação João Pinheiro, conveniada com a UFMG, a qual tem no Departamento de Ciência da Computação um corresponsável pela coordenação do mestrado juntamente com a FJP, oferece através da Escola de Governo um Mestrado Profissional, interdisciplinar, onde se cruzam saberes de Doutores da Ciência da Computação, Ciência Política, Ciência da Administração e Organização e Ciência da Informação, com algumas pitadas de outras áreas.

Instigante e desafiante posso dizer de experiência própria como mestrando. Novidadeiro no cenário nacional em termos da proposta, que além das característica de interdisciplinaridade, traz também a do enfoque profissional não puramente acadêmico. Trata-se de um fazer científico que introduz questões trazidas da realidade de instituições do Estado e Municípios que pedem soluções criativas, capazes de lidar com a complexidade dos problemas enfocados pelas dissertações.

Parcerias de peso como a da FJP e UFMG não sobrevivem apenas delas mesmas, dependem da visão de longo alcance que dirigentes das empresas e instituições públicas, que participam com alunos nesta primeira turma de mestrado, têm da necessidade de reforma do Estado, da ampliação de oportunidades para o cidadão, da qualificação dos serviços públicos, da geração de políticas públicas embasadas em informações confiáveis, obtidas da realidade e com as quais se possa decidir.

Não são tarefas fáceis, disto se pode ter certeza. Não só as instituições precisam encarar o compromisso de sustentar esta política de requalificação e modernização como os próprios mestrandos lutam com o difícil desafio de trabalhar meio horário, assistir aulas de crédito, elaborar dissertação e estudar noite adentro. É um esforço pessoal que costuma consumir por volta de doze horas diárias de cada um, sacrifica um bocado da convivência familiar e de fins-de-semana, mas traz também a satisfação de se estar dedicando de corpo e alma a uma causa pessoal e profissional, além do prazer de aprender desta interseção de disciplinas tão diversas.

Prodemge, Prodabel, Secretaria da Fazenda, Prefeitura de Contagem e Polícia Militar participam deste esforço que precisa e deve continuar. Recentemente a Prodabel inaugurou um Centro de Estudos e Desenvolvimento, que espero venha a ser uma área neutra, que possa se desvincular de uma instituição específica e ser encampada por várias, na busca de somar esforços que modernizem e libertem, oferecendo soluções para o Estado e municípios, de mãos dadas como um dia versejou Carlos Drummond. É importante refletirmos sobre o significado da união de esforços.

 

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Para Inglês Ver

 

Mário Flecha – jornalista

 

Inicialmente, o termo “para inglês ver” surgiu ao tempo da relutância do Brasil em abdicar da mão de obra escrava e do comércio de seres humanos. Àquele tempo, surgiu uma lei internacional que era fiscalizada pela Inglaterra, que proibia o tráfico de escravos. Os escravocratas brasileiros já haviam descoberto a lei de Gerson antes do mesmo e procurando levar vantagem em tudo davam sempre um jeito de ludibriar a vigilância sobre naus brasileiras forjando situações e ocultando os escravos de forma a parecer que estavam cumprindo a tal lei. Eram coisas “para inglês ver”.

Nos dias de hoje, como colônia americana perdida de si mesma e dona de um desprezo quase absoluto pela própria história, dificuldades e lutas, reproduzimos valores de outros, desejos, sonhos e práticas veiculadas pelos mais diversos meios. Estamos mais que nunca engajados no American Way of Life. Retirados deste contexto podemos enxergar com clareza o que acontece.

Minha filhuca caçula de seis anos, feitos em novembro de 96, está em plena febre de alfabetização e tenta ler tudo o que lhe vem às mãos. Está acontecendo um fato que não percebêramos antes mas que torna-se claramente visível em função de Alice. Buscando ler os rótulos de produtos, nomes de carros, nomes de lojas em “shoppings” esbarra sempre com palavras do tipo: car, Coke, Future Kids, Aqualung, Le Postiche, shopping, Wrangler, Be Happy, Stop car and so on.

A lista é muito maior e a todo momento é engrossada com novas dúvidas que recebem a repetitiva resposta: “é inglês minha filha….”, seguida de um sentimento difuso de perplexidade, frustração e a noção clara do lugar que ocupamos no quintal do Tio Sam. Saímos andando pelo BH Shopping e começamos a reparar o incrível percentual de palavras que não são de nossa língua estampadas por toda parte, tocadas em rádio, discos. Impressas em roupas, etiquetas e produtos de uso doméstico.

Que país somos nós, vivendo à sombra dos gigantes, disputando as migalhas caídas de suas mesas, repetindo seus hábitos como se assim pudéssemos nos consolar de nossa secundária posição e existência. Não há como repetir a ridícula tentativa francesa de proibir o uso de palavras da língua inglesa em uma série de meios e veículos de comunicação e os anglicismos em seu vocabulário oficial.

Alice está crescendo num mundo inundado pela Internet, onde a língua dominante mais que nunca é o inglês. Quer ler o mundo na língua que está aprendendo e se surpreende ao se deparar com outra língua em praticamente tudo o que olha na rua, no espaço público. O que nos tornaremos daqui há alguns anos? Que dialeto estaremos falando?

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O Brasil tem Dono

 

Mário Flecha – jornalista

 

O título acima até parece slogan da soberania nacional da década de 70, mas na verdade é justamente o contrário. Basta empreender viagem que permita vislumbrar o que é o país fora das imagens recortadas ideologicamente e oferecidas pelas mídia. O Brasil é uma possessão que vem passando de mão desde a colonização portuguesa e as disputas da presa por holandeses e franceses.

Com o tempo outros donos foram surgindo, alguns vindos da Inglaterra, outros mais tardios, vindos do hemisfério norte das Américas. Desta infusão de dominação, onde vivemos alguns lampejos de liberdade genuína, moldou-se em alguns o espírito da espoliação, a meta individual de se apoderar do que fosse possível sem maiores compromissos ou sentimentos de nacionalidade.

País objeto do patrimônio imperial, esta herança despótica foi legada àqueles que se fortaleceram e tornaram-se poderosos através dos tempos, sobrepujando pela força e violência os menos favorecidos pela sorte, cunhando as oligarquias rurais, imprimindo a marca do coronelismo sustentado pela miséria e ignorância, ingredientes fundamentais da servidão voluntária, assim como da esperteza fraudulenta, da corrupção e venalidade tão comuns na história do país.

Assim fundou-se uma escola de políticos baseada no tradicionalismo, na passagem do bastão aos herdeiros diretos, não raro netos, filhos, aparentados e coisas mais, quase de forma natural perpetuando e atendendo às demandas formuladas pelas elites econômicas e ou culturais que representam (não raro a combinação de ambas). Esta coisa quase tacitamente aceita pelo conjunto da sociedade é que garante e reafirma o sentimento de posse e a apropriação do público pelo privado pelas elites políticas oriundas e orientadas para o atendimento e perpetuação dos interesses específicos que defendem.

Estas concepções arcaicas são ainda sustentadas por valores da sociedade que as legitimam e promovem, formando-se um círculo vicioso difícil de ser rompido. Ademais, um sistema de comunicação bastante monopolizado e amplamente difundido sustenta e renova criativamente os mitos, os valores, os agentes mais adequados para manter à distância a possibilidade de ruptura desde estado de coisas.

É por razões como estas que se diz que o Estado no Brasil é privado e não público, pois está organizado para atender não ao conjunto da nação mas a interesses específicos de potentados que praticamente ditam os rumos do país. Romper estes mecanismos na busca da Democracia é tarefa difícil institucionalmente.

Um sistema bastante venal de negociação do voto por parte dos eleitores garante a perpetuação de políticos tradicionalistas, o esquema de favores, a moeda de troca em nossa política tupiniquim mais barata e imoral. Cabe ao eleitor usar a rara oportunidade do poder do voto para começar a romper este círculo vicioso.

Quando admiramos o sucesso e o desenvolvimento de um país do primeiro mundo, não admiramos o sucesso pessoal de seus magnatas ou firmas, mas do conjunto, pois percebemos que ali existem maiores possibilidades de escolha e maior distribuição da riqueza, mesmo que prevaleça e seja desmedidamente concentrada a riqueza nas mãos de alguns. Há uma saúde nacional. O Brasil não ingressará em sua própria modernidade se os antigos valores que orientam o eleitor e o político, entre outros agentes sociais, não forem mudados. Afora isto, não há como produzir mudanças de peso.

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As Formigas e Nós

 

Mário Flecha – jornalista

 

Há pelo menos um bom par de décadas assisti a um filme documentário do qual volta e meia me lembro: A Crônica de Helstron. Tratava do mundo dos insetos e obteve boa parte de suas imagens em um jardim. Sua maior ênfase, ou o que mais me marcou, foram as formigas.

O filme fazia algumas predições e entre elas a de que as formigas possuíam um grande potencial para tornarem-se hegemônicas dada sua extrema adaptabilidade e resistência. Além deste filme, vários outros de ficção científica ou de terror já focalizaram as formigas e sua suposta ameaça. Muitos devem se lembrar da campanha contra a Saúva, cujo slogan era “Ou o Brasil acaba com a Saúva ou a Saúva acaba com o Brasil”.

Até agora nada. Elas estão aí, dão prejuízo, mas quem vai acabando mesmo com o país é o ser humano. Alguns mais do que outros. O que me parece plausível é que nossa ação sobre o meio ambiente desequilibre as coisas a ponto das formigas sobrepujarem (improvável?).

Nos últimos tempos tenho percebido um constante aumento destes insetos em muitas residências, incluindo a minha. Especialmente de uma formiguinha minúscula, muito pilhadeira, que se desloca muito facilmente, mudando ou produzindo novos ninhos. Durante tempos nosso apartamento viveu sem o assédio destas pequenas invasoras, as quais passaram a conviver conosco de forma inevitável, embora eu não lhes dê muita trégua nem lhes favoreça a oferta de alimentos.

Tivemos de mudar alguns hábitos: passamos a guardar açúcar e outros alimentos que as atraem na geladeira, assim como observar muito bem se latas e outros acondicionantes estão bem lacrados, pois do contrário elas invariavelmente atacarão. Quando se varre o chão elas ali estão (e também no micro-ondas, entre livros, na mesa, na pia do banheiro, da cozinha, na lava-louça…), incessantes em sua atividade, noite e dia. Mais de um vizinho já teve aparelhos eletrônicos danificados (vídeos, secretárias eletrônicas, TVs). O prédio é dedetizado a cada semestre, mas nada é capaz de detê-las.

Aliás, suspeito que a dedetização elimine certas fontes de alimento e desequilibre as coisas ainda mais. Ficamos entre a cruz e a caldeirinha: o que fazer com relação às baratas e o aracnídeo escorpião? Cavaleiros do tempo que nos primórdios da vida lá estavam. Lutamos contra vitoriosos da seleção natural, adaptados a praticamente qualquer ambiente e condições. Verdadeiros sobreviventes.

Me pergunto, o que pode a ciência com relação as estes comensais indesejáveis? A tão antiga dedetização (esta palavra nascida do mortífero DDT) é o que há de mais avançado ou simplesmente não se avança neste setor? Uma coisa me parece bastante razoável supor: nossa forma de viver no planeta só pode contribuir para piorar as coisas.

Estamos preparando uma das várias formas de extinção da própria espécie com nossa filosofia de vida e a relação que estabelecemos com o ambiente. O consumir, o dar sumiço com, o processar e jogar fora o bagaço, o lixo, a poluição nos tornam infinitamente daninhos ao planeta. Podemos estar certos: estamos abrindo caminho para nossos possíveis algozes ao desequilibrarmos tanto as coisas. São sombrios os verbetes no Aurélio do verbo consumir e suas variações, dê uma olhada.

Por algum tempo estudei e lidei com abelhas, uma sociedade de insetos, assim como as formigas. Bem mais antigas que nós, estão há pelos menos 70 milhões de anos sem grandes mudanças morfológicas, contra nossos 7 milhões aproximadamente. Dentre todos estes alienígenas, bem diferentes de nós mamíferos, é um dos que mais simpatizo. Sua atividade produtiva favorece a polinização, contribui com a vida ao não consumir sem repor, não abre ravinas, favorece o verde.

Mesmo as abelhas não podem com as formigas, as quais são o que são. Quem pode mudar alguma coisa nesta situação somos nós, o cada vez maior fator de desequilíbrio que ameaça o planeta.

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O Trânsito Engarrafado de cada dia

 

Mário Flecha – jornalista

 

Quem ficou em BH no carnaval e viu de longe a nuvem negra de fumaça da récua enfurecida saindo em tropel para outras plagas pode viver verdadeiros momentos de paz e qualidade de vida. Dias maravilhosos, sossegados, cidade limpa e, principalmente, com um trânsito divinamente tranquilo.

O carnaval de outras bandas livrou a muitos da vizinhança barulhenta que tem o terrível mau gosto e falta de imaginação de só ouvir repetitivamente os Gerasamba (arre!) e os pseudo-caipiras 24 horas por dia irradiando para o mundo sua onipotência sonora protegida pela lei do barulho. É de causar pasmo a capacidade que alguns têm de construir seu próprio inferno e ainda espalhá-lo para outros na forma de ondas sonoras.

Todos sumiram, dedetizados pelo carnaval. Isto foi qualidade de vida que se prolongou até o domingo pós-carnavalesco. Na segunda o inferno estava restituído. Constatei: o trânsito e a poluição sonora são provavelmente os maiores responsáveis pela vida ruim que se leva hoje em dia. BH que eu saiba não controla nada ou quase nada da poluição do ar como São Paulo já o faz há tempos.

Estarão esperando que a coisa chegue a níveis insuportáveis para que alguma atitude seja tomada? Som e trânsito excessivos são muito piores, sendo que a poluição do ar é consequência do trânsito em boa parte.

Na Itália, em cidades semelhantes a BH estão em vias de implantar um veículo computadorizado, praticamente não poluente, de dimensões externas supereduzidas e excelente aproveitamento interno, feito para circular nas áreas inviáveis do centro. O consumidor paga por horas de uso, registradas num cartão inteligente que armazena uma série de informações. Este veículo pode ser da prefeitura ou de uma operadora autorizada. Me parece o tipo de solução que pode dar certíssimo em BH e tem um público que certamente usaria.

Pego carona numa boa ideia da Prefeitura com o Transporte Público Escolar que busca reduzir o número de veículos circulantes, especialmente nos horários de “rush”. Nesta mesma linha de redução, descartada aquela coisa esdrúxula de carros na rua apenas de determinadas placas, pode-se pensar num transporte coletivo em Kombis, Towners, Bestas e outros “vans”.

Devidamente cadastrados e vistoriados pela Prefeitura, pagos com vale-transporte ou talonário, que pode ser vendido em bancas de revista ou outro tipo de rede de distribuição bem capilarizada, tais veículos teriam linhas bem estabelecidas, dirigidos por motoristas profissionais.

Descarto a ideia de empresas explorarem o serviço (chega de cartéis), o qual seria para autônomos e estaria gerando condições de renda para muitos desempregados, além de nos livrarem dos acordos e poder de barganha neo corporativistas entre sindicatos patronais, políticos e sindicatos de trabalhadores, que costumam fazer a cidade refém de seus interesses específicos.

 

Economia, por exemplo, na manutenção das vias por serem veículos leves que danificam pouco as pistas, seletividade dos motoristas, mais cortesia no trânsito e menos carros nas ruas. BH não tem um traçado de metrópole. É uma cidade para pedestres (como as antigas cidades romanas), tomada pelo deus carro, mas isto pode não ser uma desvantagem se tratarmos o problema com o remédio certo.

 

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Festival da Impunidade


Mário Flecha – jornalista

 

Dirijo há pelo menos 20 anos. Fui kartista, motociclista, piloto de asa delta. Pratiquei muitos esportes e me considero bem preparado em termos de condicionamento físico e mental. No entanto, cada vez mais me encho de temor quando saio às ruas, seja de carro seja a pé ou de ônibus. Segundo um psiquiatra amigo, cerca de 10% da população apresenta problemas psiquiátricos graves. Se imaginarmos que de toda a população de uma cidade apenas cerca de um máximo de 20% usa ou tem o deus carro, para o qual as cidades modernas foram imoladas no altar do sacrifício da era industrial e do mercado, é possível imaginar que uma quantidade razoável de desequilibrados anda solta por aí.

O trânsito é um paraíso para a animalização, onde podemos assistir a cenas de selvageria explícita a todo momento. Perdemos de há muito qualquer espírito de cortesia e boa convivência, em que pesem os esforços da prefeitura e outros órgãos que têm tentado alguma coisa neste sentido em Belzonte. A começar inclusive pela tentativa de sensibilizar a população a sujar menos a cidade e ter maiores cuidados sanitários (veja-se a reincidência de Dengue, cuja causa é atribuída à falta de educação sanitária, entre outras faltas) e uma maior educação de pedestres e motoristas para o trânsito. Ou simplesmente jogar o lixo para reciclar na cesta certa, coisa que nem no Minas Tênis se obtém êxito.

Esta é uma questão que tem como pano de fundo a tão falada cidadania. Mas enquanto é apenas um sonho distante, é preciso de alguma forma mudar o que vêm acontecendo. Deve haver algum estudo sobre o perfil psicológico destes motoristas de caminhão e ônibus que são envolvidos em acidentes, assim como das condições de trabalho, stress e pressão a que são submetidos por seus patrões. Por outro lado, estes veículos pesados perdem o freio com muita facilidade ou esta é uma alegação muito comum entre os motoristas.

A tragédia mais próxima da ocorrida esta semana foi a dos dezenove trabalhadores que tiveram seu ônibus (escolar!) fechado por uma carreta que aparentemente livrou-se de qualquer responsabilidade alegando que foi fechada por um Palio (será que foi mesmo?). Além disso, é comum nas estradas e blitz urbanas ver uma certa camaradagem entre policiais e motoristas de veículos pesados. Estou cansado de ver gente em cima de carga passando em frente a policiais e nenhuma multa ser aplicada, enquanto exibem grande preocupação em punir pequenos infratores.

Uma outra situação que necessita ser moralizada firmemente é a dos usuários de telefones celulares, que frequentemente tumultuam o trânsito e expõem outras pessoas a riscos ao dirigirem com uma só mão, fazerem mudança, observarem o retrovisor, controlarem o semáforo, anotarem recados e, se sobra tempo e habilidade, prestarem atenção para onde estão indo. Multa neles seu guarda! Por que tanta complacência?

A classe média e rica costuma se sensibilizar muito quando vê um dos seus atingido pela violência. Provavelmente se uma kombi de trabalhadores humildes fosse esmagada pelo caminhão desgovernado ficaríamos chocados mas não revoltados. Debaixo das rodas de um caminhão qualquer um vira a mesma coisa. O mosquito de Dengue não diferencia classe social, gente mal educada e sem limites é produzida desde a favela até o bairro Mangabeiras. A justiça é falha e morosa, mais fácil será trabalharmos para mudar a nós mesmos, a população da Cidade do Século. Será que conseguimos ir além da vala comum das grandes cidades? Tenho cá minhas dúvidas, mas ainda acredito que se pode conseguir alguma coisa, pois há muito mais gente boa que ruim.

 

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Reciclagem é um estado de espírito

 

Mário Flecha – jornalista

 

Reciclar está em moda. Na verdade na Cidade do Século não pegou ainda, pois o pobre do lixo seletivo está aí para mostrar isto. Um Clube tão tradicional como o Minas é uma boa prova do quão difícil é dar conserto em pau que nasce torto.

Não é que ali, naquele berço de tradicionais famílias mineiras, onde se encontram e confraternizam a Classe A com a Classe B e a C remediada, onde se veem doutos acadêmicos, estudados e estudantes de nível superior e “gente bem” muito viajada; ali não se consegue grandes avanços, mesmo com muita propaganda e tudo separadinho pra fazer a seleção.

A única coisa que se espera é que a mão que joga o lixo, jogue no lugar certo. É uma mão (mas não é mamão) que sabe ler, que tem acesso às notícias e informações, mas parece insensível ao próprio lugar que frequenta, talvez vítima daquele raciocínio individualista de que alguém depois vai limpar.

Daí você pensa: se aqui é assim por que na devastação das ruas lá fora, na Cidade do Século, é que vai ser diferente? E este espírito perdulário e sugismundo caminha em todas as direções. Seria uma fatalidade? Algo sem conserto? Descreio, mas há que trabalhar para mudarmos. Sem aquela de perseguir o ideal de sermos primeiro mundo tal como é hoje.

Mais provável é que nunca passemos de país periférico, mas isto não implica em coisa ruim. Podemos ser um povo infinitamente mais bem educado em todos os sentidos, limpo, saudável e equilibrado. Pessoalmente acho que uma meta importante é garantirmos a dignidade e a ampliação das oportunidades para todos, universalizando os direitos da cidadania, garantindo as conquistas do trabalho e promovendo energicamente a distribuição da riqueza com desconcentração da renda (que não me ouçam os avaros).

Então onde entra a reciclagem tecnológica em toda esta estória? Vamos por partes, como diria Jack, o estripador. Temos muita gente ameaçada de ficar de fora da ciranda tecnológica simplesmente por não ter acesso a nada. Socializar a tecnologia da informação não é dar uma de bonzinho, aliás, socializar e socialismo não têm nada a ver com filantropia.

Tem que ver com tornar as coisas melhores pra se viver. Por exemplo, reduzir a criminalidade, violência, prostituição, vício, stress, ansiedade. Socialismo é bom para a saúde física e mental de cada indivíduo e para o social. Se as tentativas empreendidas na história da humanidade ainda não frutificaram neste sentido é porque a coisa não é trivial. De qualquer forma, o espírito engarrafado do acumulador de riquezas é um estágio atrasado do ser humano e precisamos superá-lo para a preservação da(s) espécie(s), no mínimo.

Imaginem vocês o percurso de vida de um computador, da fábrica até sua casa, alguns anos de uso (quando muito) e depois pra onde vai a tecnologia obsoleta? Desmonte e lixo, sucata de ferro e retirada de algum ouro e cobre nos meandros das placas. Mas pode haver usos mais nobres, que nós do terceiro mundo temos obrigação de estudar e desenvolver. É uma questão de economia, redução de custo e desperdício.

Me lembro do professor Mário Montenegro, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, em uma de suas aulas comentando a possibilidade de reciclagem destes XT’s, 286’s, 386’s etc, como alternativa barata e viável de integração de escolas públicas, bibliotecas e o escambau à Internet, mesmo sem os recursos visuais.

A conexão para mail, BBS’s e outras alternativas amplia e aproxima muitos que de outra forma serão barrados no baile. Quantas mentes brilhantes vivem à míngua no Brasil, só por não terem nascido em berço esplêndido e não poderem sequer experimentar da tecnologia e enfrentar os desafios de nosso tempo e país. O espírito da reciclagem é uma semente de participação social que nos toca em nosso cotidiano. Será que ainda somos capazes de sonhar e fazer grandes coisas juntos?

 

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O Inferno é logo aqui

 

Mário Flecha – jornalista

 

Dante não conheceu o verdadeiro inferno do Caos Urbano. Seus círculos, que já não eram tão originais assim, uma vez que baseados no modelo grego do Hades, tinham no entanto a antevisão de coisa mais concreta, própria de nossos dias. Com Prometeu os deuses não deixaram por menos, e se vingaram do roubo do fogo sagrado, este símbolo da rebeldia humana dominando os segredos do cosmos através do conhecimento e da técnica, representados no domínio e uso do fogo.

Bem, até agora meus olhos não foram capazes de localizar em larga escala algo que pudesse chamar de uma construção humana paradisíaca em larga escala, gratuita, onde ninguém sofre a humilhação de não poder entrar porque não tem como pagar, nem é desrespeitado por sua cor, aparência ou o que mais seja. As tentativas têm sido canhestras.

O que se vê é excessiva ritualização religiosa, adoradores de carneiros de ouro, muita crendice e angústia existencial. Ou, o que é praticamente a mesma coisa, um dogmatismo político que só faz velar a iluminação da consciência e turvar as mentes. As religiões e sistemas políticos totais oferecem panaceias de explicações sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos, de tal forma que, tão mais serão competentes na prestação deste serviço quanto mais convincentes vierem a ser, de forma a afastar o temor frente ao mistério da vida e a possibilidade de sermos apenas o que somos e tudo depender só de nós neste rastro de cometa que é a existência.

Quantos deprimidos acabam com suas vidas apenas por carência de produção de um neurotransmissor, cheios de culpa e desespero causados por um problema de química biológica e agravado por um ambiente que só faz potencializar seu problema. O que faremos diante da alma se comprovada sua essência tão terrena? E as Dolly e todas as possíveis evidências científicas que não poupam nem a própria Ciência enquanto mito? Saberemos conviver com a possibilidade de que sejamos nós os verdadeiros deuses num mundo carente? Estes seres imperfeitos com intuição do infinito, do eterno e com uma semente de sabedoria que geralmente não germina e morre com a criatura humana?

Que mal pode haver em buscarmos na Terra a construção de um Éden e postergarmos para depois da morte a possível explicação para as questões supra existenciais? Há uma crença negativa no homem, que o remete à barbárie tão logo se lhe retirem qualquer temor pelo castigo e culpa, o controle das consciências pelo sofisticado sistema ideológico, que uma vez introjetado dispensa a presença física constante de um agente repressor. Talvez em tempos idos este aparato tivesse sentido ou não chegaríamos até aqui. Teríamos nos exterminado sumariamente a pau, pedra e espada.

Mas e deste estágio para o próximo, precisaremos de tanta crendice? Ou o próximo passo é superarmos e evoluirmos para nós mesmos? Para assumirmos um papel não de donos onipotentes do planeta, mas de colaboradores estudiosos da vida, da organização absurda a que chamamos Caos. Onde mais do que a mera razão, desenvolveremos a sensibilidade inteligente que nas crianças na tenra idade (antes de terem suas consciências corrompidas) se apresenta, assim como em praticamente todos os seres.

Adiamos a felicidade para depois, abrimos mão da liberdade, esta que é talvez a única coisa realmente natural em nós, porque o resto é caldo cultural, valores, costumes etc. É falsa a ideia de que sem os mitos, deuses e repressores nos tornamos loucos e selvagens desvairados. Isto já somos. Precisamos é inaugurar uma nova era, onde a sabedoria coletiva substitua o mero mando de poucos que se aboletam no poder e dali dispõem sobre o destino de tantos. Para isto há que superar a selvageria latente em cada um, o individualismo e a crendice. Tarefa nada fácil. Será que nosso destino é o mesmo de um caminhão na banguela, descendo a av. Nossa Senhora do Carmo sem freio?

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Dois Pesos, Duas Medidas

 

Mário Flecha – jornalista

 

Longe de mim a intolerância. O que vou tratar aqui não me apraz por diversas razões, pois envolve pessoas pelas quais simpatizo e acredito que sejam intrinsecamente boas. De qualquer forma, estou em condições de distanciamento e isenção suficientes para discutir a questão, mesmo sentindo mal estar.

O Brasil é um país que padece de uma série de sociopatias, práticas, valores, costumes e crenças um tanto quanto doentias e atrasadas. Na terra da Lei de Gerson predomina a concepção de que o mundo é feito de otários explorados por espertos. Os pobres são punidos de forma cruel e o rico com benevolência.

Foi louvável e corajosa a atitude de Reinaldo ao se revelar publicamente, foi estrategicamente inteligente também, pois comoveu crédulos corações, tangidos por paixões e dados a deduções simplórias. De certa forma funcionou como um dos mecanismos que permitiu facilitar decisões que relaxassem as coisas.

Entretanto, avilta o esforço, o trabalho e o merecimento o simples fato de se estar acima das asperezas da vida quando se é notório e se está rodeado de amigos poderosos. A imprensa compactuou tacitamente. Não era o caso de atirar pedras, mas de cobrar equanimidade, sem dúvida. O que torna Reinaldo um cidadão de primeira classe e a outros na mesma situação não se dispensa o mesmo trato?

Hipervalorizamos o esporte, talvez pela falta de outros interesses não despertados em nosso processo educacional, e por isto mesmo produzimos verdadeiros nababos que se colocam acima da lei e da ordem dos mortais. Do outro lado da cerca, cenas grotescas de violência se repetem. Os “ídolos” dão o exemplo também nesta área.

Inúmeros são os casos. Quem não se lembra da Hortência agredindo uma dentista nas ruas de São Paulo e sua arrogância desafiadora e impune, ou então do piti dos jogadores da seleção brasileira tentando passar na “marra” pela alfândega (e passaram) mesmo às custas da demissão do Secretário da Receita, que se negou a relaxar a coisa numa rara atitude de retidão vinda deste tipo de gente.

Quem tem fama pode infringir porque isto costuma se tornar coisa positiva. Às vezes ocorre o contrário, como foi o caso daquele bandido lá de Goiânia, que virou uma espécie de garoto malvado endeusado mas ainda assim viveu seus cinco minutos de fama. Daqui há pouco veremos o Hosmany Ramos transformado em best-seller ou secretário de segurança, porque já tem até coluna de crônica em jornal da capital.

Acredito que a atitude em relação a Reinaldo foi a de um amigo sincero ou de um correligionário que estende a mão a um companheiro de luta que escorregou mas teve a coragem de se redimir. Me recuso a crer que foi mero oportunismo político ou populismo rasteiro. Só que determinadas posições, sabemos disto, tem um significado muito mais amplo. Para nossos valores mais negativos só serviu como reforço.

Imagino que um Reinaldo não seria enforcado com uma “tereza” se fosse acusado de estuprador, mas esta é a cínica lei do mundo cão que foi aplicada ao acusado de estupro que teria cegado a moça atacada. Seria preferível a pena de morte decidida por um júri. São tantos os atos de corrupção na polícia civil, quem julga a mão armada e marginal do Estado? Esta corporação com práticas medievais e inquisitoriais que não acompanha nem mesmo a evolução lenta para a cidadania de uma sociedade atrasada.

A posição de um governante é difícil, exige determinados atos que mesmo dolorosos devem ser tomados. Creio que a ética de um governante nem sempre é apenas a ética de um indivíduo correto. Ela algumas vezes deve estar acima das amizades. Reinaldo merece todo o respeito e apoio e certamente os terá. A meu ver um erro foi cometido tanto por quem convidou como por quem aceitou.

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As Facetas do Vampiro


Mário Flecha – jornalista

 

 

Cantado em prosa, verso e imagens desde tempos imemoriais, em diferentes culturas o mito do vampiro viaja nos séculos assombrando crianças e adultos. O Príncipe das trevas reina com seu charme e sedução entre as personagens do terror. Do novelo de símbolos ergue-se renovado de sua cripta e projeta sua imagem espectral nas telinhas, telões e demais meios de comunicação. Num cardápio variado, do terror ao humor, o vampirismo atrai até hoje multidões.

Autoridades linguísticas divergem quanto à origem da palavra vampiro. Alguns a atribuem ao termo turco uber, que significa bruxo, outros ao termo polonês upire que designa sanguessuga. Sem sombra de dúvida, a palavra húngara vampir está ligada a estes seres espectrais.

Donos de muitos nomes e origens, os vampiros existem desde as civilizações da Assíria e Babilônia (cerca de 2000 a 1000 a.C.), ocorrem também entre os gregos, chineses, hindus e africanos, mas boa parte das histórias que os consagraram provém dos povos eslavos: Hungria, Sérvia, Morávia, Boêmia e da famosa Transilvânia (região ao sul da Romênia, vincada por elevações de difícil acesso).

O vampirismo ganhou asas e se alastrou pelo mundo após o batismo literário do Conde Drácula (tataravô dos vampiros depois que fizeram a fama e deitaram na cama), personagem do romance de Bram Stoker (nascido em Dublin, Irlanda, em 1847), que após exaustivas pesquisas sobre o folclore vampírico tomou de empréstimo a figura do lendário Conde Vlad Tepes, também conhecido como Drakul (Dragão), para escrever sua obra mais conhecida: Drácula.

Vlad, governante da província da Valáquia nas vizinhanças da Transilvânia, tinha paixão por torturas e mortes terríveis, sendo o responsável pelo fim de mais de vinte mil pessoas. Ambígua figura de herói e sádico, era famoso por seus feitos em batalhas, inúmeras mortes por empalamento (método que aprendeu em Constantinopla, onde realizou seus estudos) e desaparecimentos em condições misteriosas dos muitos que adentraram as muralhas sombrias de seu castelo.

Aos vampiros estão ligados nomes famosos do cinema, que compõem extensa lista, entre eles Boris Karlof, Bela Lugosi, Vincent Price, Klaus Kinsk, Werner Herzog, Fritz Lang, Roman Polanski, Sharon Tate, George Hamilton, Sir Richard Francis Burton, David Bowie, Catherine Deneuve são apenas alguns entre os internacionais.

No Brasil, Jorge Mautner, Rita Lee, Caetano Veloso, entre outros, tropicalizaram o “Mestre”. Mesmo Carlos Drummond de Andrade não se esquivou ao tema do vampirismo em sua poesia: O vampiro resume as assombrações que me visitavam/no tempo de imagens! Enfrento-o cara a cara,/aperto-lhe a mão, propondo-lhe em desafio minha carótida./Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam/sem que me dissessem e eu soubesse qual./Crime, loucura, danação,/todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.

O filme Powaqqatsi, dirigido por Thomas Reggio e produzido por Copolla, cujo título foi tomado de empréstimo à língua Hopi (tribo do México), apresenta em imagens uma possível versão do sentido da palavra: uma entidade que se alimenta da energia vital dos outros seres, levando-os à exaustão completa e à morte. Uma visão mais singular da universalidade cotidiana do vampirismo, menos preocupada com a face do vampiro, que nem sempre a tem.

Segundo informes recentes, os vampiros descobriram a cura contra o sol, alho, cruz etc. Tomam leite, não fumam, são corados e têm um apetite invejável. Do antigo vampirismo teria ficado apenas a voracidade, seu bem inalienável.

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Necrópole Cultural do Século

 

Mário Flecha – jornalista

 

 

Gosto de BH por diversas razões. Uma delas é por ter nascido aqui. A outra por ter muitos elos afetivos construídos ao longo do tempo. Não vivi o tempo todo em BH. Até os cinco em Alfenas, onde meu pai trabalhava na Cemig. Depois, durante quase oito anos, em Petrópolis, num tempo em que a cidade era realmente bonita e mais cosmopolita. Hoje está muito degradada. Dos doze anos para frente foi só BH.

É uma cidade que faz 100 anos, mas não diria que representa bem o século. É mirrada, não foi feita para o deus carro (mas poderia tirar vantagem disto). Não admite metrô à altura de suas demandas. Como esquina do mundo está longe, pois não é grande referência para o exterior (veja-se o Aeroporto Internacional de Confins que mal oferece voos internacionais). É uma cidade interior e do interior. É referência interiorana, embora seus governantes almejem voos mais altos para ela.

Sua indústria em geral é avessa à tecnologia, refletindo bem o perfil e a mentalidade ao redor. BH, assim como Minas, apresenta déficit de investimento em tecnologia. A população é refratária a muitos apelos governamentais, voltada excessivamente para si e pouco dada à participação (feitas as exceções de praxe).

Embora nos seja prática comum, como de resto em todo o país, excomungar governo e governantes por todos os males que nos assolam (o que não deixa de ser fato em muitos casos), pouco se pode esperar de participação em termos da população local (é bem verdade que são anos e anos de mau trato).

Ironicamente, parecemos uma cidade de estrangeiros do interior, que poucos laços têm com o lugar e por isto pouco se interessam pelo que aqui ocorra. Assim é que não há campanha de limpeza que funcione a contento, que epidemias de dengue e calazar alastram-se, acidentes de carro e violência no trânsito são constantes e o bom senso e cortesia nas horas de “hush” já deram adeus há muito tempo.

É reconfortante quando encontramos alguém disposto a dar passagem, esperar alguns segundos, não buzinar e vociferar com uma pressa que não vai além da próxima esquina, sinal ou cruzamento bloqueado sem necessidade. Quando assim não é, é o aluguel do tempo dos outros fazendo filas duplas, em conversas no celular à direção (fato tão corriqueiro) ou então pedestres disputando o espaço com carros, toureiros sem civilidade ou noção de regras básicas de convivência, quanto mais sobrevivência.

Quanto à vida cultural, que lástima. Não diria que por culpa dos agentes culturais, das pessoas que trabalham e vivem de arte e cultura. A população é apática, autoexcluída de qualquer envolvimento com manifestações culturais que possam ir além dos enlatados de massa e da mesmice que assola o país.

A mesmice que vêm desta pobreza de espírito encontra guarita no ranço de atraso cultural de que padecemos. E olhe que já tivemos melhores épocas, a década de 50 foi um período rico, por exemplo. Pesquisas feitas na área cultural em BH apresentam números expressivos do quão autoexcluída é a população. Arriscaria dizer que isto deve perpassar todas as classes sociais, mas notavelmente a de média renda para cima (a de baixa, coitada, a gente sempre espera por isto).

É comum gente que nunca pisou num teatro, assistiu a um balé, um cinema que não seja de pancadaria ou pornô, a um espetáculo mais elaborado. Visitas a museus, a parques e praças são um “privilégio gratuito” do qual poucos usufruem e transmitem às gerações mais novas como um hábito saudável de convivência no espaço urbano. Um espaço que tem sido tratado com mais carinho a cerca de umas três administrações municipais mais competentes e honestas.

É difícil, mas não impossível, acordar esta massa sonolenta que só dedica seu tempo livre a novelas, futebol, bebida, gerasamba, domingão do faustão e xuxa. O mundo é muito mais e BH pode vir a ser uma cidade do século. Para o Encontro das Américas só com muita maquiagem, mas como apontou o Professor Tarcísio Ferreira, parece que nem isto.

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Suco de Laranja Mecânica


Mário Flecha – jornalista

 

Quem leu o livro ou assistiu ao filme Laranja Mecânica deve ter evocado a lembrança contundente da estória, ao tomar conhecimento destes garotos pós-adolescentes que atearam fogo ao índio Galdino. Não me peçam para lembrar o autor, pois sou péssimo para nomes. Stanley Kubrick acho que foi o diretor.

As personagens são garotos bem nutridos, tomadores de leite, sem limites e diálogo com os pais, perdidos, zanzando pelas ruas a procura de emoções, droga, sexo, rock’n’roll e o que mais gostam: violência pura e simples. Até que caem nas mãos de um Estado não menos violento, de uma sociedade que fabrica gente violenta e têm os cérebros desligados ou sofrem uma lavagem mental.

Fiquei refletindo sobre mais este fato deprimente de nossa crônica cotidiana. E pensei que países em guerra, de uma certa forma, não contam como exemplos de violência, assim com as lutas guerrilheiras etc. Estes horrores são “aceitos” como fatos próprios destas situações (e olhe que ainda falam de inferno no além).

Portanto, vamos desconsiderar o Timor e seus horrores, suas meninas estupradas e empaladas em praça pública, crianças queimadas vivas, trabalho escravo, assim como o fato de no ano passado não haver ocorrido nenhum nascimento (estas informações estão circulando na Internet como uma corrente de protesto).

Não vamos pensar na Albânia, nos Palestinos, nos massacres de Ruanda, nas outras guerras da África e tudo o mais que “no se puede contar”. Não vamos também dizer que está tudo assim e que no Brasil não poderia ser diferente, porque poderia.

Vamos pensar que o Brasil deve ser o primeiro ou então está no páreo com não sei quem, no “ranking” dos países mais violentos em situação de “paz”. Só com o passado recente dá para encher os dedos da mão: massacre da Candelária, Carandiru, chacina do Taquaril, Eldorado dos Carajás, chacinas de famílias nas favelas do Rio, o detetive fuzilador em BH e muito, muito mais. Nosso ar cheira a sangue e em geral de gente jovem, pobre e negra.

Não vamos computar os acidentes brutais de trânsito, de trabalho, as crianças desnutridas e abandonadas, as mortes nas filas de aposentados e nos hospitais, a violência e morte nas escolas, o desemprego, as balas perdidas achando crianças nas praças, as sucessivas denúncias de corrupção e escândalos com políticos e empresários.

Há algo de podre na república do Brasil. Sejamos sinceros. Quem, a não ser os medíocres, ingênuos, egoístas e analfabetos políticos, pode de fato se considerar fora disso tudo, se colocar distante e dizer que não tem nada com isto? Estes garotos, além da vida que tiraram, desgraçaram as suas próprias, as de seus pais e a fração que cabe a cada um em nosso tecido social.

O que gela o sangue nas veias é a ingenuidade perversa destes filhotes de demônios tão humanos e brasileiros; filhos de juízes togados e coronéis. Expressões máximas da sisudez e probidade institucionais. Este fato ensina uma coisa: marginalidade é causada, antes de tudo, por falta de amor verdadeiro, uma coisa que faz a gente ter outros princípios.

Mas não os julguemos como seres distantes e estranhos a nós, porque foi basicamente este o raciocínio que fizeram quando disseram que queriam se divertir e pensaram que era “apenas um mendigo”. Com estas frases eles transcenderam a esfera do restrito. É a expressão de um conjunto de valores (não creio que seja a ausência) que estão permeando nossa sociedade, em especial uma faixa de gerações.

Este é o tratamento cru e nu dado ao pobre no Brasil. Estes garotos estão em cela especial para não serem linchados. Igual destino não teve aquele mecânico acusado de ter cegado e estuprado uma enfermeira há pouco tempo em BH. Não interessa saber se era culpado. A polícia não tem o direito de fazer justiça ou lavar as mãos. Entretanto o fato vai ficar por isto mesmo, com certeza.

Olha os filhos e sua pura criancice e imaginamos: quando vão perder a limpeza de seu olhar neste mundo podre? Onde terão errado os pais e as instituições que moldaram estes ingênuos incendiários perversos? E se for como falou meu amigo e ex-concunhado, Marcinho Borges, em parceria com Beto Guedes na música “Contos da Lua Vaga”: o que será de nós se estivermos cansados da verdade do amor? Que pai ou mãe pode dizer que não vai viver este pesadelo? Talvez uns poucos. O fato é que estamos perdidos demais na rasura de nossos valores, ideias e exemplos. O discurso da indignação não é suficiente.

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E Nossa Soberania?

 

Mário Flecha – jornalista

 

A memória do povo costuma ser curta. A capacidade de avaliar consequências de mais longo prazo também. Senão veja o que ocorre via mídia. As coisas parecem acontecer enquanto estão no noticiário, depois somem, se dissolvem e a razão de todo “auê” parece simplesmente desaparecer num passe de mágica.

Privatizações são um bom exemplo. Passou acabou. Sim, não há como chorar sobre leite derramado. Mas há que acompanhar atentamente o que vai acontecendo posteriormente. As privatizações de empresas elétricas do Rio e São Paulo levaram a grandes aumentos de tarifa. Há pouco tempo alguém do governo ou do meio empresarial dizia temer aumentos e impactos na indústria devido a aumentos nos preços de tarifas da Cemig, como se não tivesse conhecimento do que já vem acontecendo em outros estados.

Há poucos meses assisti a uma palestra de Aureliano Chaves no auditório do BDMG. Embora nunca tenha sido partidário de sua linha política, confesso que saí dali com maior respeito pelo homem e pelo político, e também pelo brasileiro conhecedor do país, que se posta em defesa de nossa integridade nacional, de nossos frutos colhidos com esforço ao longo de tantos anos.

Aureliano fez uma defesa da Vale do Rio Doce enquanto instituição, enquanto obra nacional bem sucedida e respeitada mundialmente, enquanto detentora de um patrimônio incalculável contido em nosso subsolo. A Vale é uma gigante mundial no setor e uma questão estratégica para o país, assim como o setor energético e de telecomunicações.

Será que os compradores nacionais destes nossos patrimônios têm algum compromisso com o país? Será que os internacionais estão fazendo o mesmo, em tal proporção em seus países? Desconfio que não. Nenhum país pode se entregar tão facilmente a uma moda ou uma tendência ainda tão pouco conhecida na extensão de suas consequências como a globalização.

Seria prudente embarcarmos neste barco com menos afoiteza, com menos euforia indígena diante do colonizador. Afinal, mal chegamos a um estágio razoável de democratização. Na área social nada temos de novo praticamente, a não ser o acirramento da pobreza e da concentração da riqueza. Vemos é o aumento da violência, da falta de sentido na vida, do futuro vazio e sem maiores perspectivas.

O que veremos depois desta farra do boi? Quando nada mais houver para torrar nesta fogueira modernosa, onde são atirados os bens mais sólidos do país, indiscriminadamente. Em que pesem as muitas justificativas e garantias dadas, entre tantas que já tivemos para depois constatamos que “fomos enganados, agora é tarde”. “Dinheiro na mão é vendaval” diz a sabedoria popular.

Será que demos a esta linhagem exótica do neoliberalismo, com sigla de social-democracia no nome, uma procuração em branco em nome da nação para que fizessem o que estão fazendo? Ciro Gomes, um peessedebista autêntico, acha que não e se posta ao lado de outras tendências social-democráticas.

A eficiência das políticas no Brasil é sempre muito grande quando é para piorar a situação e torná-la ainda mais difícil. Não sou nenhum entendido em economia, mas enquanto vítima dos “entendidos” que já passaram aos centos pelos sucessivos governos: não há política econômica que se preze se não considera seriamente o benefício social como a sua finalidade maior e imediata.

Do contrário, o risco é de se ver um governo que governa para si, que se aliena e cria razões próprias, abandonando seu caráter de representação maior da sociedade, voltado para a promoção do bem desta última. Tudo o mais cheira a usurpação e confusão.

Uma política como esta não poderia ser levada de forma tão autônoma pelo executivo. A vontade popular neste e em muitos outros casos deveria ser ouvida, após amplo debate, onde setores mais informados fariam sua parte na discussão de todos os prós e contras. Nestas horas é que se sente a fragilidade da democracia representativa. Vê-se a quem pertence a instituição do Estado.

Prefiro estar errado, mas onde foram parar os kamikazes gritando banzai? Morreram em vão. A venda da Vale e Cemig não seria o sintoma de uma política igualmente suicida? Políticas são coisas sérias porque causam efeitos em nossas vidas que têm duração de anos. Que fazer com sensação de estar num ringue sendo nocauteado a cada segundo. Seja por golpes de direita ou esquerda contra um saco de pancada que não chamo de povo, mas de sociedade brasileira, a desencontrada de seu próprio destino e glória.

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Reflexões Pós-Festim

 

Mário Flecha – jornalista

 

O certo é que a entidade de massa chamada povo ficou atrás da cerca vendo os “donos” das Américas na passarela do Parque Municipal a decidir coisas que, por princípio, lhe diziam respeito. Mobilizou-se capital e Capital do Século o suficiente para ultrapassar o caráter de festim, e indicar que muitos ficaram de fora de algo tão importante.

É interessante este tipo de evento, promovido com dinheiro público, com a finalidade de agenciar interesses paraestatais e privados. Se era para ser um encontrão de países para tratar de assuntos de economia e futuro nacionais, deveria ter havido mais representatividade.

Decisões foram e ainda serão tomadas e que afetarão o trabalho, o emprego, enfim, a larga margem da sociedade que se encontra abaixo e fora do Estado e do poder econômico. Não vejo por que deixou-se de fora tantos interessados. Quem estabeleceu estes critérios? É uma questão nacional, não deste ou daquele grupamento social.

O chefe Tio Sam deve ter outros objetivos os quais cordatamente se deve obedecer? Não não deixou de ser vexamoso o expurgo a Cuba. A direita americana e paranoicos ultrapassados do pentágono são poderosos sem dúvida, mas esta política nos faz duvidar do número de neurônios. Ora, o que uma ilha isolada e tão cheia de erros e mazelas pode representar ou significar para ser tão valorizada assim?

Se é algo que está caindo de podre não há o que temer. Se há ganhos econômicos, como havia quando se comerciava com a antiga União Soviética, por que não haveria agora com os ventos da globalização do capital e encurralamento do trabalho nas fronteiras dos países? Dinheiro não tem ideologia nem ideal, tanto faz se vem de Cuba ou do Tio Sam. Que se assuma esta coisa em toda sua extensão pelo menos no campo econômico. Por que supervalorizar Cuba como um exemplo de sociedade não capitalista que tem algum significado que deve ser oculto?

Será que há algo ali que deve ser destruído pois ameaça todo o resto do mundo capitalista ou em “vias de”? É ridículo e cruel. Mas os “donos” de 33 países se puseram de joelhos diante de um só. Isto não é um tipo de totalitarismo? Acho que devemos defender as diferenças e os princípios democráticos, lutar contra todo tipo de totalitarismo e desigualdade de direitos.

Somos ainda um país grande e bobo, mas tenho muita esperança de que sairemos desta lama, Jacaré. Vamos aprender a votar e a limpar os espaços onde hoje se pratica muita política do jogo sujo. Assim talvez um dia venhamos a viver um verdadeiro Encontro das Américas. Nas Américas da Terra onde mora força jovem e viva, pulsante e prenhe de sonhos irrealizados.

A modernidade é mesmo do consumismo, da pressa e do ideal de ter e acumular matéria, especialmente a alta modernidade deste fim de século e milênio. Mas a pós-modernidade é uma incógnita e eu prefiro adotar uma postura confiante, pois é ela mesma que nos faz mover e buscar mudar o que está errado.

Existem algumas tendências interessantes. Se o negócio hoje é a pressa, a ganância, a velocidade etc, então podemos começar contrapondo. Por exemplo, à fast tech, à slow tech, ao avião a jato o dirigível que não explode, à ganância o compartilhar e por aí afora.

Quem sabe até mesmo menos reza e uma prática de vida mais saudável, mais bem-humorada e tranquila, religada ao Cosmo. Com isto, tenho certeza, neste Encontro das Américas não se estava preocupando.

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Dilemas Modernos I


Mário Flecha – jornalista

 

Fé e confiança são palavras muito próximas semanticamente. O Aurélio apresenta verbetes em que estas palavras se referenciam. No entanto, uma eu diria que tem um caráter mais religioso ou místico e bastante pessoal e a outra é mais mundana, terrena e compartilhada. A era da modernidade, ensejada no renascimento nos séculos XV e XVI, tem seu início fixado pelos estudiosos por volta da século XVII, com o iluminismo, e carrega em seu bojo um conjunto de características que a diferenciam de outras eras vividas pela chamada civilização ocidental, principalmente.

A confiança é uma marca preponderante da modernidade, como diz o filósofo Anthony Giddens. Que confiança pode ser esta quando olhamos para um conjunto de coisas a nossa volta e não nos sentimos nem um pouco confiantes? É algo ambíguo, ou que deve ser visto sob um determinado foco para ser entendido. É algo que nos torna muito diferentes do que era o ser humano antes da modernidade. Em que mesmo a religião é modificada pelo pensamento científico e a crença na razão científica.

Trata-se de uma confiança que, de tão institucionalizada não percebemos. É uma coisa arraigada em nosso comportamento menos consciente, está na base de nossos atos. Por exemplo, quando entramos num avião, quando nos submetemos a uma cirurgia, quando transacionamos e depositamos nosso dinheiro num banco, quando utilizamos um computador ou procuramos um especialista num determinado ramo de atividade. Tudo isto depende desta confiança de que estou falando. O dinheiro como símbolo de valor é um elemento fundamental neste mecanismo de confiança.

Alguém pode argumentar: mas quem disse que embarcamos nestas coisas por confiança?

É algo compulsório, sem dúvida. Hoje mais que nunca não temos muita escolha. Temos fé, esperança e confiança de que algum fanático não detonará um artefato nuclear roubado daquelas regiões falidas, econômica e ideologicamente, do bloco soviético. Não ousamos nem sequer pensar que sob nossos pés passam fios, tubos de gás, tubulações de água com pressões capazes de jogar para o alto carros e solapar alicerces de áreas enormes. Muitas destas coisas gerenciadas automaticamente e sob risco de contaminação por vírus eletrônicos.

São tecnologias controladas por outras tecnologias e por especialistas dos quais dependemos. Uma greve de médicos nos deixa vulneráveis a vários problemas dos quais padecemos menos quando esta corporação de especialistas e aparatos funciona, por exemplo.

Sem dúvida há motivo suficiente para uma síndrome do pânico bem fundamentada. Voltando um pouco em alguns aspectos interessantes, há alguns símbolos que refletem uma coisa bem típica da modernidade. Esta é uma era marcada pela ciência, pela verdade que pode ser provada e comprovada, pelas especialidades e conhecimentos específicos dos quais dependemos e com os quais convivemos cegamente.

Tudo isto está permeado por uma série de coisas que, de tão enraizadas, mal percebemos. Os peritos e especialistas necessitam manter uma distância funcional dos não-peritos. Para isto uma série de atos, espaços e símbolos foram criados de forma a estabelecer esta distância, a separar uma realidade de outra, como a cortina do teatro.

O piloto na cabine dos grandes aviões é separado por uma porta que isola a área de contato com leigos, o motorista no ônibus é separado por uma cortininha ou cabine. O cirurgião se fecha num bloco cirúrgico, o caixa do banco está atrás de um balcão e tem acesso a um conjunto de equipamentos e procedimentos, o perito se encerra em seu saber específico com linguagem própria. Tudo isto é fundamentado com argumentos cabais.

Não transgredimos facilmente estes limites, que são a fronteira entre um mundo e outro. Caso isto ocorra, e eventualmente ocorre, temos vários exemplos disto, esta abertura se torna um ponto de acesso, através do qual podemos enxergar e perceber como funcionam e falham estes arranjos modernos.

Este tipo de contato é evitado para proteger e garantir o estatuto da confiança, ao mesmo tempo que enseja um hermetismo e obscuridade que protege os grupos com interesses corporativos que souberam se aproveitar desta brecha da qual a própria modernidade depende, mas que tem efeitos colaterais indesejáveis.

Tudo isto dá os contornos do nosso tempo, da nossa era. Uma era que de certa forma se propôs perfeita e capaz de nos livrar de muitos males, mas que nos coloca frente a dilemas e situações dramáticas. Temos algum futuro plausível pela frente? Numa próxima oportunidade vamos argumentar sobre isto.

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Vaga Democracia


Mário Flecha – jornalista

 

Algumas coisas ganham significado mais nítido à medida em que o tempo passa. Quem se lembra do Palácio da Liberdade sem grades, ou do Parque Municipal? E do Palácio da Alvorada em Brasília? Esta ausência de grades a separar o governo de seu povo e o povo do bem público indicava muito mais coisas do que podíamos supor. Eram o símbolo da confiança e do respeito mútuo entre povo e governante, de um temor menor por violências e invasões, de uma força e crença no público acima do privado. Enfim, eram um símbolo forte de democracia.

Juscelino, ou Nonô como dizia meu avô de seu primo-irmão, é a meu ver o exemplo maior de democrata que tivemos. Não o conheci e, por estudos críticos, sei que viveu num tempo em que as circunstâncias o favoreciam, assim como sei que foi um populista que soube alinhavar bem os interesses de uma burguesia industrial, que se fortalecia, com a política tradicional das oligarquias rurais e o poder econômico multinacional. Juscelino estava longe de ser um anjo imaculado.

Entretanto, se observarmos seu estilo relaxado e bem-humorado de homem público, sua informalidade sem sapatos em seu gabinete de trabalho, o gosto estético e a atitude visionária de projetar e construir o futuro projetado, podemos dizer que deixou um legado maior que sua dimensão de homem falível e de político menor.

Foi capaz de ser um estadista, mas acima disto, deixou um exemplo de governo democrático que se sustentou pela boa vontade e consenso da sociedade, ao invés de se manter por decretos-leis, baionetas, propaganda mentirosa e se cercar de aparato, perseguição policial e grades, muitas grades.

Nossos palácios se cercaram, políticos e governantes estabeleceram uma distância entre eles e o povo que nunca mais vi quebrada. Pelo contrário, me impressiono com o aparato de segurança e a quantidade de paranoia cada vez maior que cercam a visita de um Presidente ou de um Governador.

Então vejo Juscelino no meio do povo, andando pelas ruas, convivendo com artistas, música e poesia e realizando obras que projetaram o país e lhe deram algum futuro e alguns novos problemas. Aqueles sim, foram tempos de modernidade. Pouca perseguição política, harmonia social e feitos de que o país ainda se orgulha. Éramos mais pobres mas socialmente, até onde se pode imaginar isto, éramos mais felizes.

O projeto de Juscelino e sua linhagem política não se sustentaram no entanto. Precisávamos e continuamos precisando de algo mais elevado em termos de sentimento e ideias, menos calcado nos desejos, na força e ingerência de grupos econômicos sobre o público e o estatal. Algo forte e terno (citando Guevara), capaz de recuperar a confiança mútua, de desprivatizar os subterrâneos do Estado e promover o bem-estar social numa economia forte, equilibrada e voltada para o conjunto da sociedade.

Pode-se pensar que não temos mais o tempo e as condições que favoreceram o período jusceliniano, mas temos a dimensão do sonho e do desejo, de onde brotam as forças que tiram do vazio os elementos da concretização. Vontade política é um bom ingrediente, verdade interior, honestidade pessoal, generosidade e paixão também. Serenidade e sabedoria para discernir e respeitar.

Longe de ofensiva e dedo em riste, que só fazem ofender e atemorizar, longe de caricaturas de topete, psicopatas mafiosos, peitos cheios de patentes e todo um desfile de palavras melífluas e ocas, de tradições familiares e nepotismos. Precisamos de compaixão responsável, sensibilidade e razão despojadas de interesses personalistas e mero estar no poder, esta coisa rebelde que não se toma e violenta, mas à qual se é levado e conduzido pelo respeito e admiração dos semelhantes.

Somos um povo crédulo e ingênuo (em fase de amadurecimento é verdade) fácil de ser enganado. Precisa-se de políticos com “P” maiúsculo, movidos com verdadeiro interesse pela democracia, muito carinho e respeito, capazes de entender o drama em que vivem grandes parcelas da população e de estabelecer linhas diretas de comunicação e busca de solução para seus graves problemas. Só isto. Então quem sabe deixássemos de ser uma vaga democracia e nos tornássemos uma vaga de democracia.

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Mar de Procelas

 

Mário Flecha – jornalista

 

Às vezes fico imaginando cada lar como um veleiro onde vivem e navegam seus ocupantes. Uma nave no alto-mar da vida, singrando os desafios da existência. E vejo gerações de navegantes, por séculos, milênios lutando e navegando, levando adiante. E embora navegar seja um ato de precisão, uma lógica heurística que vai corrigindo o rumo e vencendo os incidentes, viver não é preciso e não há matemática que nos salve por antecipação.

Os governos que se revezam são o oceano, as condições atmosféricas a que estão submetidos os barquinhos na grande imensidão líquida de Netuno, vivendo cada um suas odisseias. Alguns governos vez em quando ensaiam um mar de bonança, com ventos amigos e águas suaves, que nos ajudam a navegar e seguir o rumo de nossas vidas. Entretanto, não me lembro de haver singrado tais águas.

Vejo nossos barquinhos navegando em mar encapelado, o vento uivando na cordoalha, o vagalhão espumante, cobrindo o tombadilho, arrebentando contra a proa. Raios cortando a escuridão do céu, iluminando fantasmagorias nebulosas, luz estroboscópica em “flashes” de rostos crispados. A esperança um fogo de santelmo no topo dos mastros.

Vez por outra uma nesga de céu azul se faz entrever e pensamos que tudo vai mudar, mas novamente o senho se fecha e a borrasca recomeça. Éolo não perdoa. Tubarões oportunistas circulam esperando suas presas: crianças caídas ao mar, mulheres, negros, desvalidos de todo tipo. Botes salva-vidas são impotentes. As forças motrizes e dinâmicas deste mar sem sossego querem, barcos e navegantes, seus joguetes entre as ondas.

A miudeza do planeta Terra no sistema solar não se compara à nossa em sua superfície. Tal é a situação dos seres humanos que ainda têm adiante um Estado que se aliena e ganha vida própria, desejos singulares, objetivos estranhos, bufante Leviatã. Perdidos neste deserto líquido nos debatemos a cada nova vaga, tentando manter as coisas em ordem. Solitários que nem mesmo se unem.

A matéria do sofrimento, do abandono e da desesperança com seus gritos roucos e desajeitadamente rudes é falseada em baderna, arruaça e a mão pesada recai sobre estes excluídos como as ondas arrebentando esculturas de areia.

Há os que se sentem e se põem acima e além. Onustos navios corsários, de ouro recheados, arfam ardorosos. De seu rumo, perdidos, têm apenas o objetivo do mineral guardar e expropriar. Se salvam e resguardam com a força de guardas e armas. Se ondas não há, provocam-nas, exigem-nas, sua sede e sanha não suportam bonança e descanso. Abordam e saqueiam, enrubescendo o mar.

Navegar é preciso. Viver não é preciso”. A matéria de nossos sonhos e anseios as ondinas hão de recolher, e mais que espuma que se desfaz, o hálito quente das gerações de seres humanos que vivem tão vã existência irá insuflar vida e força a toda nova gente, pra seguir viagem, vencer correntes.

Caluda! Ouve o lamento dos viventes. Nada há que possa parar aqueles a quem desperta a mente. Evoé! vamos em frente.

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Rebeldes Perdidos (versão 1)


Mário Flecha – jornalista

 

Concordo com minha esposa. Não gostamos de pichações mas gostamos dos pichadores. Principalmente de sua rebeldia e vigor, seu inconformismo diante de uma realidade onde, de longe, mais que sua razão consciente, sua sensibilidade percebe o destino que os aguarda: uma existência anulada, de cabeça baixa, dizendo “sim, senhor” para outros que tiveram melhor sorte só por nascerem do lado onde o sol brilha.

São estes jovens que saem dos bailes “funks”, que voltam para a periferia, que no dia seguinte cedo se transformam em “boys” de brinquinhos, cordatos, trabalhando e cumprindo um papel que tem muito pouco de emoção e chances reais de realização de seus sonhos e aspirações mais legítimos.

A infância não é a mesma coisa para todos os seres humanos, mas todos nascemos com uma luz e um brilho que vai sendo apagado para atender a desígnios que pouco têm a ver com o ser, pelo contrário, está em acordo com o que se espera dele conforme sua origem social, bens materiais etc. Somos uma sociedade de castas sem deuses para justificá-la como na Índia. Poucos, independentemente dos bens materiais, terão uma educação para a liberdade ou ainda melhor, serão respeitados em sua integridade de seres livres.

Apesar de parecer “natural”, esta diferença é imposta e exige a “doma” de cada indivíduo num processo que se inicia quando ainda está no ventre da mãe. Começa no atendimento médico, no tipo de alimentação e hábitos maternos, onde e como vai nascer, o local onde vai morar, o tipo de roupa e condições gerais de existência, enfim.

Após um processo que leva alguns anos, digamos de sete a oito, já se tem alguma definição de uma personalidade moldada, conformada ou, com certo eufemismo, adaptada socialmente. Ora, os pichadores são aqueles onde este processo de algum modo não deu certo (ainda). Não foi bem torcido o pepino, os mecanismos próprios do processo de alienação da consciência e percepção crítica, ou não se completaram inteiramente ou falharam.

Os pichadores ficam neste limbo onde vaga o espírito livre, indômito e pouco elaborado criticamente. Tal como vem ao mundo, se debate e tateia só, num labirinto de normas, obrigações, deveres, regras, imposições e o nada que se coloca à frente como existência sem opções. É querer muito que corações selvagens e livres como o de crianças e jovens não reajam da maneira que podem a isto. Qualquer ser livre o faz. É da natureza selvagem e pura das crianças ser livre para brilhar.

Mais tarde se perde esta natureza divina, aquela que se vê nos olhos e gestos destes pivetinhos de três, quatro, cinco, seis anos; próximos aos sinais, nas ruas em meio aos carros como “pequenos príncipes e princesas” perdidos, caídos de algum planeta distante sem chance de volta e de desabrochar, embora seja da natureza das sementes tentar a vida, mesmo que lancem suas raízes no cimento (e olhe que algumas conseguem). A vida é rebelde e sua causa é irrefutável.

Concordo com minha esposa. A pichação é a marca desta rebeldia jogada na cara da sociedade injusta em que vivemos. É o grito selvagem do ser humano que não quer ser moído no matadouro do espírito livre. Não tem lugar certo, não se acomoda nem conforma, nos incomoda e à nossa intolerância cada vez maior, que muitas vezes confundimos com cidadania. A intolerância combina melhor com tirania.

Para os outdoors não autorizados, a propaganda política, os papéis e faixas de construtoras poluindo o visual e sujando ruas somos mais condescendentes e permissivos. Afinal o seu objetivo é mais “nobre”: dinheiro.

É a mesma intolerância contra os sem-terra, sem-teto, sem emprego, sem lugar e inconformados o suficiente para exigirem reparo de sua dignidade ultrajada da maneira como podem e conseguem, ou seja, se unindo e organizando para se fortalecerem para a luta desigual. O problema não esta exatamente em se ser “boy”, seja de que tipo for, mas na inexistência de opções reais e iguais. As mulheres e outras minorias em termos de participação no poder costumam saber muito bem o que vem a ser isto. Qualquer solução que se preze não pode desconsiderar estas razões.

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Rebeldes sem Causa (versão 2)

 

Mário Flecha – jornalista

 

Já não me lembro mais quem disse a célebre frase: “Deem-me uma alavanca e moverei o mundo”. Sempre me lembro um pouco disto quando vejo pichações e outras formas irracionais de atos de rebeldia individuais ou de pequenos grupos, especialmente de jovens. Mas afinal, você deve estar se perguntando, o que tem uma coisa com a outra?

A resposta é a seguinte: concordo com minha esposa. Não gostamos de pichações mas simpatizamos com o pano de fundo da coisa, apesar da rebeldia mal utilizada e, na nossa opinião, do mau gosto. Principalmente da rebeldia e vigor, do inconformismo diante de uma realidade onde, de longe, mais que sua razão consciente, sua sensibilidade percebe um destino que não agrada.

Não sabem usar a alavanca da inteligência organizada em grupos, em formas mais democráticas e limpas de abrir seu espaço à existência, requisitar seu direito de ser humano, de mover os obstáculos com esta alavanca.

A infância não é a mesma coisa para todos os seres humanos, mas todos nascemos com uma luz e um brilho que vai sendo apagado para atender a desígnios que pouco têm a ver com o ser, pelo contrário, está em acordo com o que se espera dele conforme sua origem social, bens materiais etc.

Somos uma sociedade de castas sem deuses para justificá-la como na Índia. Poucos, independentemente dos bens materiais, terão uma educação para a liberdade ou ainda melhor, serão respeitados em sua integridade de seres livres.

Apesar de parecer “natural”, esta diferença é imposta e exige a “doma” de cada indivíduo num processo que se inicia quando ainda está no ventre da mãe. Começa no atendimento médico, no tipo de alimentação e hábitos maternos, onde e como vai nascer, o local onde vai morar, o tipo de roupa e condições gerais de existência, enfim.

Após um processo que leva alguns anos, digamos de sete a oito, já se tem alguma definição de uma personalidade moldada, conformada ou, com certo eufemismo, adaptada socialmente. Ora, os pichadores são aqueles onde este processo de algum modo não deu certo (ainda). Não foi bem torcido o pepino, os mecanismos próprios do processo de alienação da consciência e percepção crítica, ou não se completaram inteiramente ou falharam.

Os pichadores ficam perdidos neste limbo onde vaga o espírito pouco elaborado criticamente. Tal como vem ao mundo, se debate e tateia só, num labirinto de normas, obrigações, deveres, regras, imposições e o nada que se coloca à frente como existência sem opções. É querer muito que corações selvagens e livres como o de crianças e jovens não reajam de alguma forma.

Mais tarde se perde esta natureza divina, aquela que se vê nos olhos e gestos destes pivetinhos de três, quatro, cinco, seis anos; próximos aos sinais, nas ruas em meio aos carros como “pequenos príncipes e princesas” perdidos, caídos de algum planeta distante sem chance de volta e de desabrochar, embora seja da natureza das sementes tentar a vida, mesmo que lancem suas raízes no cimento (e olhe que algumas conseguem). A vida é rebelde e sua causa é irrefutável.

Para os outdoors não autorizados, a propaganda política, os papéis e faixas de construtoras poluindo o visual e sujando ruas somos mais condescendentes e permissivos. Muito se confunde intolerância com cidadania, quando na verdade não passa de um desejo egocêntrico de tirania para com as diferenças, especialmente as desigualdades.

A intolerância é desproporcional e injusta em relação aos sem-terra (vejam a vergonha do julgamento do Rainha comparada ao de bandidos comprovados que festejam livres a impunidade), sem-teto, sem emprego, sem lugar e inconformados o suficiente para exigirem reparo de sua dignidade ultrajada da maneira como podem e conseguem, ou seja, se unindo e organizando para se fortalecerem para a luta desigual.

O problema mora na inexistência de opções democráticas reais e iguais. As mulheres e outras minorias em termos de participação no poder costumam saber muito bem o que vem a ser isto. Qualquer solução que se preze não pode desconsiderar estas razões.

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Salve Guignard

Mário Flecha – jornalista

 

Guignard entrou em minha vida pelas mãos de minha tia e amiga Sara Ávila. Desde menino, convivia com quadros de Guignard nas paredes do apartamento e atelier à rua Aimorés. Tempos incríveis. Ainda sinto o cheiro gostoso de tinta do atelier cheio de quadros, telas e material de trabalho. Não tinha, na época, a noção de que ali estava uma discípula de Mestre Guignard, de uma geração de artistas que marcariam o talento de Minas. Uma herança que se renova, geração após geração, nesta terra de poetas de todas as artes e engenhos.

Mestre Guignard deixou uma obra que se estende para além de seus quadros. Um espírito e uma garra de continuar o trabalho de ensinar o ofício e cuidar das sementes para que possam brotar em plenitude. Dia 25 de junho foi o 35o aniversário de sua morte. Uma boa data para celebrar e também para apontar alguns problemas pelos quais vem passando a Escola Guignard.

Somos a segunda economia do país. Isto não implica, infelizmente, que temos um Estado com recursos suficientes, pois a sonegação é um dos males que assola o país. Isso a despeito dos esforços do governo, de todo um arsenal de medidas que melhoram mas não resolvem o problema que, na verdade, depende de um pouco mais de consciência dos setores produtivos.

Daí o problema crônico de nossas instituições em diversas áreas importantes: entre elas a Saúde, Segurança, Cultura e Tecnologia. Não obstante, os dirigentes de muitas destas instituições lutam para mantê-las funcionando e para isto buscam apoio da sociedade, criam alternativas para angariar fundos e manter um nível mínimo de dignidade em seu funcionamento.

A Escola Guignard está nesta lista. Após anos de existência sob o Palácio das Artes, ganhou um sede que levou outros bons anos de construção. Hoje ali se mantém um centro que se pode apontar como um dos maiores do país. Um marco cultural importante numa capital que se quer a Capital do Século.

Para se manter, a Guignard tem aberto seu espaço para festas de formaturas, espetáculos e eventos artísticos. Nada escandaloso, nada que denigra ou coloque abaixo a cidade. Nada nem de longe comparável, por exemplo, ao Carnabelô, espetáculo privado que usa do patrimônio público e o inunda de xixi e violência. Nada nem de longe tão freqüente quanto os semanais barulhos de casas de espetáculos como o ruidoso Três Lobos (Bobos?).

Apesar disso, a Guignard vem sendo alvo de incompreensão por algumas pessoas de sua vizinhança, até agora pouco dispostas até mesmo ao diálogo. Pessoas às quais tem faltado um pouco da tolerância saudável que deve reger as vidas dos que vivem num grande centro urbano, palpitante de atividades as mais diversas. E que poderiam (ainda podem), com um pouco de boa vontade, ajudar a salvar a Guignard – não a pô-la abaixo.

A Guignard não é um problema. Problemas são, por exemplo, os bares e restaurantes que, além do ruído, invadem os passeios e até as ruas com cadeiras, mesas e muita sujeira. São os comerciantes que poluem a fachada dos prédios com placas horripilantes, desrespeitando qualquer senso estético. Big problema é o Mineirão, que após o advento das torcidas que pulam em uníssono, tornou-se fonte de terremoto artificial, provocando trincas e queda de objetos das prateleiras dos prédios das imediações.

Sejamos razoáveis – salvemos a Guignard. Àqueles que têm se sentido incomodados, peço que busquem o diálogo. E sugiro que procurem usufruir da Guignard, talvez colocando um pouco de poesia em suas vidas. Recuperando um pouco do doce que o dia-a-dia da cidade, muitas vezes, nos rouba pela vida afora.

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Minas: liberdade e união

 

Mário Flecha – jornalista

 

É Drummond que vem alertar a não nos afastarmos muito uns dos outros, a continuarmos de mãos dadas. Marcinho Borges, amigo e ex-concunhado, lembra em Contos da Lua Vaga: o que será de nós se estivermos cansados da verdade do amor? Por fim, o amigo irmão que se foi, Gonzaguinha, que o tempo ia adoçando a rabugice e fazendo cada vez mais um poeta da vida, da fraternidade, da dança do trabalho do dia-a-dia na brincadeira de roda.

Não nos esqueçamos destes e de outros tantos especialmente nos momentos difíceis, em que o equilíbrio emocional e racional devem estar presentes, na união da razão e do coração. Já vi um pouco do Brasil e sei que Minas é um estado importante do ponto de vista da unidade nacional, do equilíbrio das forças, do exemplo das coisas.

Diferentemente do dito eixo Rio-São Paulo, esta coisa atrasada e perversa, em Minas não se vê em alto grau a decadência de valores que são a saúde da sociedade, também não é um estado totalmente dominado pelo lobby de interesses de grupos econômicos restritos (vejam que não estou dizendo que não existe, mas a sociedade mineira possui ainda antídotos que refreiam muito estes problemas).

Por isto mesmo, crises como a da PM não são coisa de bandidos fardados, mas de uma instituição que cresceu com o tempo, a partir das bases, e não cabe mais nas antigas vestes. Infelizmente o comando não foi sensível a ponto de antecipar problemas próprios deste processo de avanço, não de retrocesso. A modernidade pode ser contundente e até mesmo mortífera se não lidamos com as forças motrizes com habilidade.

Por outro lado, errar é humano, mesmo que seja terrível. Que atire a primeira pedra o que não for capaz de admitir isto para si mesmo. Deve-se abrir espaço para uma saída honrosa e digna para todos os lados envolvidos. Buscar a conciliação para o momento. Entretanto, não se deve circunscrever apenas ao imediato. Tiremos daí lições de democracia madura.

Há já algum tempo figuras eminentes e notórias assinalam a falta de participação efetiva de Minas no governo FHC. Em mais de uma vez assistimos a atos visivelmente parciais de apoio ostensivo a Rio e São Paulo, em detrimento de Minas, um estado emergente. O governador tem dado mostras de grande lealdade e humildade, buscando se alinhar às orientações da política federal, mas como mero espectador dos fatos, o que vejo é uma certa indiferença como retribuição.

Estamos nos aproximando de eleições. Elas são sempre um momento importante, uma hora em que a gente espera ver que a nação aprendeu a exercer o poderoso direito do voto e começar a limpeza da classe política, eliminando pelo voto os bandidos e elegendo gente de verdade. Vejo com certa tristeza que nossa política mineira vai mal.

Falo como eleitor muito independente de partido. Já votei e voto, em gente do PC do B, do PT e do PSDB, buscando pinçar pessoas com valor. As fronteiras entre partidos hoje são coisa muito tênue, tanto é que está aí a moda das coligações.

Vimos um espetáculo feio do PT mineiro na eleição para prefeito, desdenhando o candidato Célio para atender a anseios de grupos internos que forçaram e impuseram a candidatura de Virgílio. Agora vamos assistindo à mesma cena com relação a Patrus, o candidato natural. O resto é desejo interno e não tem nada a ver com a sociedade.

Em minha opinião de eleitor, gostaria de ver a união do PSDB com as forças social-democratas, uma certa independência em relação à política do planalto. A realidade deve falar mais alto do que qualquer modismo de escola econômica. Estas coisas não passam de métodos, ferramentas. Não devem ser tratadas como filosofia de governo. Que tal Patrus para governador com o apoio dos partidos progressistas do estado? Seria isto uma loucura completa?

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Há Esperança

 

Mário Flecha – jornalista

 

Talvez a marca característica deste final de século seja a queda de um sem número de crenças arraigadas nas mentes. Algumas não sofreram substituição adequada e vemos muita gente mais perdida do que cego em tiroteio. Sinais há de que a ordem das coisas está mudando de forma sub-reptícia, para um mundo que pode não ter nada a ver com o espírito que anima a globalização tal como é hoje, a noção de trabalho e riqueza, pátria, estado e cidadania, e muito mais.

Há tendências antagônicas compartilhando o mesmo espaço num estado de competição e indefinição. Diria mesmo que este é o embate das forças agonizantes da modernidade contra as forças emergentes da pós-modernidade.

Assim como um dia ruiu a nobreza e todo um mundo construído sobre os valores nobiliárquicos que dominaram a sociedade até um certo ponto, é possível que comecem a se abalar os valores dominantes que têm como grande marco de referência a revolução francesa, onde ascendeu a burguesia econômica representada principalmente pelo comércio e mais posteriormente pela indústria.

Naquele momento, toda um sociedade se uniu contra o poder constituído e após um longo e cheio período de atribulações logrou uma mudança que definitivamente levou à ruptura com o modelo da nobreza. A burguesia mais bem aparelhada econômica e intelectualmente soube se apoderar e tomou o governo das coisas. Havia condições para um pacto social.

De uma certa forma, o burguês se tornou o rei, usando até hoje muitos dos símbolos da nobreza, principalmente como forma de distinção e para produzir um certo glamour existente em relação a reis, príncipes e princesas. Os palácios de governo continuam sendo palácios, valores ainda mais sutis e incorpóreos ainda residem nas mentes e se perpetuam geração após geração.

A grande aceleração imposta pós queda do modelo socialista implantado, deixa livre e desvenda em grande parte os mecanismos sociais de exclusão que inevitavelmente são parte inerente desta forma de sociedade de contradições, agora entregue a si mesma e de certo modo o único objeto ao qual se pode atribuir culpa pelos males com os quais se convive diuturnamente.

Por outro lado, há também movimentos de busca por uma forma de vida mais comunitária, baseada no suporte tecnológico, internacionalizada pelas infovias, que quer fruir e compartilhar a existência pacificamente, livre da ânsia de consumir e possuir, de acumular e cercar propriedades, da pressa para tudo, do acordar ao dormir, só para atender à necessidade de acumulação para além do necessário.

Esta tendência a buscar uma forma de governo menos centralizada e mais participativa, mais solidária e menos individualista busca resolver problemas ligados à realização da individualidade nesta existência e não num possível mundo para além túmulo.

Traz consigo um desejo de paz na Terra e de harmonia com o planeta, enseja também a defesa da dignidade de cada um e a não submissão ao egoísmo de poucos sustentado pelos valores da modernidade. Neste sentido, diferentemente da visão apocalíptica de alguns pensadores atribuída à pós-modernidade, diria que não, ao contrário, a tendência à decadência é a marca dos estertores da modernidade, caso ela se imponha e aborte a emergência da pós-modernidade como projeto de futuro mais promissor para a humanidade.

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Brasil & Minas

 

Mário Flecha – jornalista

 

A bocas pequenas se diz que na última hora Itamar escolherá a candidatura ao Governo de Minas, compondo com FHC uma aliança secreta, no sentido de manter a política neoliberal do governo federal. Não acredito nisto, embora seja possível. Também não creio que a bancada do PSDB mineiro venha a ser conivente com tal fato, pois Minas tem tido reiteradas provas da política desigual de FHC para com o estado.

Os graves conflitos que vêm ocorrendo em todo o país apontam para a necessidade de um nome de consenso nacional, que se não fez um super governo, soube fazê-lo com mais paz e harmonia social, saindo com saldo positivo. Itamar é bom para o Brasil e por consequência o será para Minas. Isto se vier a se candidatar para a Presidência. Para o governo de Minas creio que seria negativo até mesmo para sua carreira política, pois se submeteria a um desgaste muito grande, tendo que compor com a política de FHC.

Evidentemente, que melhor seria se tivéssemos o nome de Lula, mas o conservadorismo do eleitor e seus vícios políticos talvez impeçam esta candidatura de deslanchar numa presidência da república, o que seria ainda melhor. Itamar, no entanto, para o comum dos mortais pode ser uma escolha bastante razoável para nos salvar da situação atual e permitir à sociedade tomar folego e se repensar em novas bases, mais humanas e sérias.

Não se deve ser cego e sectário. O que houver de bom nas ideias neoliberais deve ser utilizado. O que não pode ser esquecido nunca, é o papel do Estado como grande prestador de serviços à sociedade e garantidor de condições mínimas para que as existências de cada um e de todos nós possam se dar dignamente. Portanto, desenvolvimento é para todos, com justiça social e democracia.

O plano real não foi criado para ele mesmo ou para reeleger FHC, mas para servir à sociedade e não submetê-la a ele. Assim, não há nada que justifique a penalização de todos em nome de um plano que não promete justiça social, mas sim, mais e mais concentração da riqueza.

Não acredito em raposices políticas nem em voto útil, a ideia de partido está partida demais e em tempos muito ruins é bom ser realista e avaliar bem a situação para não atendermos aos desígnios de poucos e bem resolvidos senhores e esquecermos de nossas próprias dificuldades.

Como mero eleitor estou atento. A candidatura de Itamar para a Presidência é uma chance e uma opção a mais de solução. Ao contrário, a candidatura para o governo de Minas pode ser nefasta para nós e para o Brasil.

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As Mulheres que o digam

 

Mário Flecha – jornalista

 

Um dos assuntos candentes do momento é o direito ao aborto. O que mais vejo são vozes masculinas ou machistas argumentando, cada qual a seu modo, contra este direito antes de tudo das mulheres. Quem irá cuidar depois dos rebentos abandonados, famintos, violentos, mal amados jogados numa vida indigna e sem futuro o mais das vezes? Que preconceito religioso ou amor idealizado os adotará? Há ainda os abandonados de amor, os filhos de pais poderosos, ricos, que gostam de incendiar índios, mendigos, se drogar e prostituir.

Os filhos deveriam ser pensados, desejados e escolhidos, para serem recebidos e amados. Esta é uma defesa da vida. Jogar gente no mundo, seja ela originária de pobres ventres ou ricos e bem nutridos, não é defesa nenhuma da vida, é alimento para a morte, para a tristeza, a falta de amor que reina no mundo.

As mulheres desde há muito vivem uma situação difícil de dupla jornada. Ainda se acha lindo o homem que dá uma “ajuda” enxugando alguns pratos, passando um paninho aqui e ali de vez em quando. Nosso tempo é outro, a divisão do trabalho doméstico é uma necessidade e não há justificativa racional que explique porque deve ser tarefa feminina. É pura exploração.

Nas classes mais baixas a barra pesa ainda mais, sendo quase uma atividade escrava a que as mulheres têm de se submeter, sob pena até mesmo de violência física. Por que os que são contra o aborto não defendem a libertação das mulheres deste jugo, a preparação dos candidatos a pais e mães para a criação e educação dos filhos em bases mais científicas, com conhecimento prévio de tantos detalhes do mundo afetivo, emocional e racional, que constroem tijolinho por tijolinho a personalidade sadia, autoconfiante, serena, capaz de amar e ser amada?

Há que por limites é claro. O aborto deve ser realizado o mais cedo possível e até um limite a ser determinado pela medicina. É claro que não é uma coisa agradável, mas é necessária e para o bem da mãe, da vida, da sociedade. Quantos dos votantes podem dizer que têm uma família harmoniosa, com filhos amados e assistidos, que não os possuem soltos e abandonados por este mundo?

É fácil assumir posições pelos outros, quando as consequências das escolhas não serão vividas por quem faz as escolhas. É possível que desta vez ainda vença o preconceito, a razão idealizada, a ignorância. Mas a sociedade está em plena mudança e mais cedo ou mais tarde prevalecerá, esta é minha esperança, o bom senso e o amor verdadeiro, aquele que se constrói e se planta no solo concreto da vida e da realidade. Quem sabe então tenhamos a percepção real, o “sentimento do mundo”, a religiosidade do religar-se ao cosmos.

Pela vida feliz, justa e em comunhão. Pelos filhos amados e desejados. Pela obra de folego que é criar e educar uma pessoa serena e saudável. Pela fruto da concepção feito com amor. Que prevaleça a liberdade de escolher e a responsabilidade de decidir.

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Microcosmos


Mário Flecha – jornalista

 

Há quem pense que sou um pessimista ou um ateu convicto, que teima numa racionalidade estéril. Certamente não me conhece. Meu terreno é muito outro. Pra não dizerem que não falei de flores, insetos e outros seres, aqui vai um comentário sobre um trabalho dos mais bonitos e tocantes que já vi na área de documentários para o cinema.

Trata-se do filme Microcosmos. Impressiona a poesia lúcida e linda, um verdadeiro ato de religação com o cosmos, com o inominável “fazer-se” do universo e da vida. Pessoalmente me senti tocado de uma forma nunca dantes acontecida neste gênero cinematográfico.

Sempre achei o tema da vida um assunto cativante mas o domínio dos insetos padecia de uma visão que os colocava como criaturas duras e completamente desprovidas de, digamos, vida. Me pareciam apenas engenhocas biológicas. Algumas lindas, outras somente asquerosas, que a uma simples pisada se dá cabo sem o menor incômodo, talvez até um certo prazer cruel. Sabe como é, aquele sentimento de onipotência que parece perseguir o homo sapiens desde sempre.

Não é à toa que biologia e medicina já foram metas e sonhos de profissão de minha juventude primeira. A paixão nunca perdi e sou sempre um leitor ávido de curiosidades sobre estes temas. Quando raramente assisto TV, o Discovery Channel é um de meus preferidos.

Pois bem. Já fui um aprendiz de apicultor, estudei um pouco sobre abelhas, fiz até um breve estágio em Santa Catarina, na geladésima e linda cidade de São Joaquim, onde um amigo mineiro me apresentou a pessoas que me adotaram por alguns dias para que pudesse aprender fazendo (já havia feito uma boa leitura prévia sobre o assunto).

De lá para cá passei a admirar um pouco mais os insetos, aracnídeos, batráquios e outros afins. Mas neste filme caíram por terra quaisquer grandes distinções que me fizessem percebê-los como seres frios e mecânicos, distantes de nosso cálido mundo dos mamíferos. São diferentes de nós mas estão na luta da vida há muito tempo e com uma tenacidade admirável. Fui tomado de um sentimento de irmandade com a vida e todos os seres que a representam em nossa mãe Terra.

Sim, ainda estamos muito longe de nossa verdadeira essência e competência animal, somos pobres seres racionais que se perderam nas muitas possibilidades e trilhas da vida. Quiséssemos nós a nossa animalidade de volta e estaríamos dando um passo no sentido de uma inteligência sensível, tal como os sutis pensadores chineses a perceberam observando e aprendendo com a natureza. Me parece que este é o caminho da sabedoria num mundo por demais dominado pela esperteza informatizada.

Não jogo fora o mundo ocidental, nem o desclassifico. Nos quatro pontos cardeais veremos sempre muito sofrer, desassossego, violência, bebedeira e uma dureza que são apenas e unicamente humanas. Há uma espécie de inferno terreno que construímos com muita competência e tecnologia. Não sei nem mesmo se poderemos recuperar o que talvez nunca tivemos. Há tanta gente tenebrosa sob o sol, quando se lê os jornais, no trânsito das cidades.

A poesia de Microcosmos consola e alenta. Num mundo mecânico, onde a lógica da produção pouco tem que ver com nossa realização enquanto simples seres vivos, é uma benção existir este tipo de cinema e arte. Sublimação da perversão a que somos submetidos; anestésico para o dia-a-dia, mas também um elemento de indução à reflexão e ao sentir. Enquanto isto os dias e as noites se sucedem na bolinha verde que gira em torno do sol.

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Canícula Senegalesa


Mário Flecha – jornalista

 

Nestes dias candentes, de corpos ardentes é que sinto ao vivo o peso da coluna de ar sobre meus ombros. Eis um momento exato do termo canícula, do latim canícula, cadelinha. O por quê de se ligar cadelinha a calor não me perguntem. O fato é que designa exatamente a opressão de uma atmosfera asfixiantemente quente.

Nossa reação imediata é culpar as cidades, o trânsito poluidor, a degeneração do meio ambiente. E não estamos errados em fazê-lo creio eu. Entretanto, o meu centenário amigo e jovem bisavô de minha caçula, Lindolpho Espechit, me diz que aqui neste chão, onde viu nascer uma cidade há 100 anos atrás, havia cerrado como aquele que ainda não foi transformado em carvão pelas siderúrgicas, ali pelos lados de Curvelo no rumo de Brasília.

E diz mais: que aqui era lugar de fazer calor de até 42 graus! O incomum era a constância destas temperaturas elevadas ano a ano. Ora, estamos conseguindo um feito. Estamos conseguindo padronizar o verão antecipado, numa cidade lotada de carros, coberta de asfalto, edifícios espelhados e um movimento incessante ao estilo de São Paulo.

Era isto o que chamávamos de progresso? Que desespero e insensatez a nossa. Nossa própria danação vem do fato de relacionarmos bem-estar, conforto, saúde e tantas coisas boas que podemos ter, mas que de fato poucos usufruem, com a produção desenfreada e o consumo acima e além do necessário.

Este raciocínio justifica a voracidade destrutiva da economia expansionista, ávida por mercado para alimentar uma fome sem fim. É bom lembrarmos que somos apenas um rojão na cadeia da sobrevivência.

Temos muito pouco tempo de planeta, se nos compararmos com o longo reinado dos dinossauros. Me pergunto se haverá planeta que reste para daqui há 200 anos. Ou seremos uma coisa mal cheirosa, coberta de nuvens ácidas, efeito estufa, rios secos ou poluídos, fumaça e canícula senegalesa o tempo todo, noite e dia. Um cenário de pesadelo, antevisto magistralmente em poemas lindos de Eliot, por exemplo, Waste Land, Terra Devastada.

Há pouco tempo, como bom aficionado de Jornada nas Estrelas, ouvi algo que me agradou muito, em termos de uma fantasia minha. O comandante Picard esclarecia a alguém que há muito o desejo de acumular e enriquecer pessoalmente havia sido banido, uma forma superior de sociedade havia sido construída, onde todos usufruíam dos bens produzidos e um compromisso com o zelo e cuidado pela natureza haviam sido alcançados.

Olhando-nos como se estivesse na perspectiva de alguém que chegou ao planeta naquele momento, talvez percebamos como sujamos e danificamos coisas paradisíacas em nome de um conceito de progresso que de longe não é o único possível. Nossa tragédia enquanto espécie será não conseguirmos reverter este rumo tomado há muito tempo atrás. Nossas razões que justificam este estado de coisas podem mudar. Não apenas individualmente, mas no conjunto, coletivamente.

O calor infernal dos tempos modernos pode ser banido por ar puro, calma serena, pouco consumismo e agitação, um relaxamento sem preguiça, onde o gosto de fazer e conviver se tornem uma canção da vida, como cantava meu saudoso amigo Gonzaguinha.

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O Fim e o Começo

 

Mário Flecha – jornalista

 

Estou lendo um livro recomendado por um amigo, denominado “O Horror Econômico”, de Viviane Forrester. Trata-se de um libelo apaixonado contra o rastro de destruição deixado pela política da doutrina neoliberal, mas mais do que isto, contra a selvageria das elites econômicas em seu frenesi por lucro num mundo onde rompeu-se o equilíbrio de forças outrora existente.

Estou gostando do que tem de denúncia, do tom vivo e literário, pois não se trata de um estudo acadêmico, embora seja bem embasado. Entretanto, confesso que algo está me intrigando cada vez mais e começo a querer buscar outras formas de enxergar o problema.

Tenho lido material que discute a modernidade, a pós-modernidade e o período de transição que vamos vivendo. Comparações são feitas com o que ocorreu na revolução industrial, os impactos que trouxe para a organização social, o trabalho e as relações econômicas e de poder.

Um bom número de autores reúne argumentos que levam a prognósticos dos mais sombrios. Uma coisa que perturba e nos deixa com uma certa angústia frente a um cenário que parece não deixar alternativas. Os fatos se multiplicam como esfinges, lançando o desafio de seus enigmas: decifra-me ou te devoro.

Por outro lado, temos nossas vidas para viver, um espaço de tempo relativamente curto onde buscamos realizar nossas esperanças, nossos sonhos e onde pessoas com um mínimo de saúde mental e claridade interior querem conviver com suas diferenças sem prejudicarem ou infernizarem umas às outras. Mas para a caminhada “hay que endurecerse sin perder la ternura jamás”.

Quando vejo este lado pressinto que há também um movimento pacífico e firme no sentido de um mundo mais harmonizado com a natureza, o trabalho, o sentido da vida (uma mistura onde vejo o espírito de Gandhi, Cristo, Buda, Lao Tsé, Karl Marx e outros homens). Uma abdicação da ganância e o surgimento de valores acima do ter, muito mais do ser.

Isto me alimenta as esperanças e fortalece para um tipo de luta que considero mais afirmativa e menos pessimista. Acredito que a serenidade dos que lutam por um novo e melhor mundo humano é um elemento fundamental de firmeza e determinação, não de rigidez e dogmatismo. Parece haver também um abandono dos mitos, o “tudo que é nada”, como diz Fernando Pessoa. Lógico, há também o oposto: fanatismo religioso, recrudescimento da exploração e da ganância entre outras manifestações deprimentes.

Sabemos que há uma horda de perdidos e violentos, vazios de alma e sentimento que frutificam em todos os níveis sociais indiscriminadamente. São os frutos apodrecidos deste mundo real em boa parte concebido pelas relações perversoras do espírito que rege o capital e o sentido do lucro e do acumular em demasia às expensas do trabalho de outros. Um envenenamento que permeia nossas relações mais íntimas e pessoais.

Dentro da escuridão está o princípio da claridade como mostra o simbolismo do yin e do yang do Taoismo. É muito cedo para afirmar o que será a pós-modernidade, as forças motrizes, o princípio do claro/escuro está em plena transformação. A aceleração imposta pela expansão dos mercados num mundo que perdeu seu equilíbrio pode ser seu próprio fim, pois o ápice é também o limite da ascensão.

Não creio que será indolor, mas talvez Marx esteja certo em suas previsões. As contradições do capitalismo são seu elemento de autodestruição. O espírito da paz e da fraternidade a arma para a superação.

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A Decadência não tem Pressa


Mário Flecha – jornalista

 

O processo de decadência é como uma poça d’água que vai ser formando e alagando lentamente o assoalho, como a velhice que chega e nos deixa com dez dentes (decadente). A dinastia Ming, na China, no final de seu apogeu viveu um clima de grande corrupção, onde o lobby e a venalidade dos eunucos que circundavam o imperador, criava um comércio de influência ao qual os abastados recorriam para obter favores. Imperava um individualismo extremo, a vida e o trabalho pouco valiam.

Filhas eram vendidas aos bordéis como forma de garantir-lhes pelo menos a vida, enquanto reduzia-se o número de bocas para alimentar. Irrompiam conflitos, tiranos locais eram linchados pelos famintos e desterrados. Ao mesmo tempo, invasores buscavam minar as resistências do Império do Centro com vistas à dominação e colonização.

Certa vez estive com um livro que era um registro fotográfico comentado de práticas escravagistas chinesas, onde crânios humanos, de crianças e adultos, úmeros, e outros ossos do corpo eram transformados em utensílios de luxo, incrustados de ouro. A pele humana também era utilizada. Alguns ossos de criança demonstravam lesões provocadas por excessivo esforço.

A exploração do homem pelo homem paradoxalmente se inicia com o fim da chamada barbárie e vem até os dias de hoje se refinando e mudando, mas nunca se extinguindo. Houve algum momento de aparente retrocesso, mas os fatos atuais registram o recrudescimento desta bruteza do espírito humano, deste desserviço ao ideal de humanidade.

No século XIX, há bem pouco tempo atrás, na Inglaterra imperava o “sweating system”, o sistema do suadouro, onde os trabalhadores desguarnecidos de quaisquer proteções legais eram submetidos a jornadas de trabalho de até 18 horas, incluindo crianças de 8, 9, 10 anos. De lá para cá alguns direitos civis, políticos e sociais foram conquistados com muita luta, sacrifício e sangue. Entretanto, tudo está sendo demolido diante de nossos olhos.

Já entraram em nosso jardim, pisaram em nossas flores, chutaram e mataram nosso cachorro e para muitos já invadiram o lar. Mergulhados numa espécie de torpor, assistimos perplexos o desmoronamento de uma coisa tão fundamental que não se poderia supor o seu fim. A alcateia avança faminta, uma elite ressentida e vingativa ataca o rebanho.

Hordas de desempregados vão se formando, criminalizando-se aos poucos, desejando o que não podem ter ou compartilhar dignamente. Buscando satisfazer de forma cada vez mais brutal os desejos despertados que a exclusão completa impede realizar. Jovens sem perspectiva alguma, debatem-se com sua energia e hormônios inutilmente. Vieram para uma vida onde não há para onde ir ou fugir. Uma cadeia sem paredes ou grades, segregados de nascença.

Os rostos dos prisioneiros dos campos de concentração nazista, seus olhos fundos e tristes, seus corpos esqueléticos empilhados na banalização da morte não são diferentes dos massacres que assistimos aqui e em outros países. O horror está mais próximo da classe média, que começa a ver seus filhos decaindo na vida, perdendo postos de trabalho, velhos de 40 anos, no momento da maturidade profissional.

Já começa a grassar entre os jovens a concepção de que estudar não dá camisa a ninguém. Os exemplos práticos servem como elemento de comprovação do raciocínio. Pouco há que se possa fazer quando a esperança se vai. A vida se vai. Ficam solertes os demônios humanos, os quais conseguem se comprazer diante da decadência e se encantar com a construção do inferno terreno.

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Poesia Orbital

 

Mário Flecha – jornalista

 

Enfim um projeto coletivo de poetas: o “Poesia Orbital”. Uma ação que congrega sessenta e oito poetas do fim do século e milênio na comemoração dos cem anos de BH. Em que pesem os tempos bicudos, a poesia é uma coisa que teima em permanecer viva. Remeto-me a uma antologia anterior, Taquicardias, que num lançamento memorável no ex-cine Santa Tereza, reuniu poesia da melhor qualidade.

Agora uma nova forma de fazer, em livros separados, uma mostra representativa da poesia feita na cidade. Nem de longe se esgotam neste trabalho os poetas. Para os aficionados a ausência de alguns nomes será percebida. Inevitável.

De qualquer forma, o conjunto dos trabalhos exibe influências de distintas tendências estéticas e trabalhos nos mais variados formatos gráficos. Entre os participantes do projeto estão representantes de praticamente todas as linhagens poéticas, muitas delas nascidas de movimentos tais como: Cemflores, Dazibao, Fahrenheit 451, Poetas de Nova Lima, Razão de Dois; além, é claro, dos independentes.

BH possui uma comunidade de poetas, criativa e constante, que teima em produzir e se manifestar. Não é fácil permanecer poeta nestes tempos. Entretanto se escreve, se trabalha com as forças líricas, a escultura dos poemas. O tempo dominante é um rolo compressor, achatando e nivelando praticamente tudo. A poesia conspira, brota no asfalto, rebela e revela.

O poeta é de ferro, é de vento; transmuta, registra a história inscrita nas palavras, inventa, congela, revive o tempo, retoma o tempo presente. Uma conexão entre os que se foram, os contemporâneos e os vindouros.

É alvissareiro o projeto, um farol contemporâneo no meio de uma já meio antiga modernidade. Não saberia dizê-lo, até porque sobre poesia poucos dados e pesquisas há, mas aposto que BH possui a maior densidade poético demográfica do país.

Com tantos valores humanos nas artes e outros campos da cultura e do conhecimento em BH, ainda acho que do ponto de vista do conjunto da coletividade estamos mais para necrópole cultural. Não é uma situação singular no país, pois vivemos uma decadência imposta pela indústria cultural, que de certa forma tem assassinado tudo o que foge ao padrão de mediocridade veiculado (que exista a mediocridade tudo bem, o problema é ser praticamente só ela a ter espaço).

Criou-se um círculo vicioso que exacerba o comportamento mediocrizado-genitalizado e a incapacidade de fruição de formas de arte mais sensuais. O baixo critério de julgamento de um público já bastante entorpecido, que pouco lê e pouco discerne, acaba se tornando aversão.

O fosso se aprofunda quando se passa a valorizar o próprio umbigo, numa espécie de autoelogio da ignorância, que se justifica e vangloria. O que não foi aprovado pela cultura massificada não presta, ou ainda pior, não existe, é difícil, não diz nada àquele que está cheio de nada na alma.

Iniciativas como o Poesia Orbital, são indicativas de sinais vitais, de que há vida na necrópole. E onde há vida há esperança. Longa vida à Poesia.

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Maniqueísmo e outros ismos

 

Mário Flecha – jornalista

 

De maniqueísta acredito que todos nós temos um pouco. Faz parte da raça humana e deve ser gente muito rara quem supera esta tendência a “puxar a sardinha” para o seu lado e culpar o outro, colocando ali todo o mal. Quando a coisa descamba para a paranoia, como no filme “Conspiração”, onde atuam Mel Gibson e Julia Roberts, a coisa fica séria. “Eles” é uma entidade abstratíssima, todo poderosa, que age contra nós e tem um domínio total e completo da situação passada, presente e futura.

Assim é que, na política e no trabalho, é super comum depositarmos todas as nossas frustrações, ressentimentos e impossibilidades de mudar nossas vidas e melhorar nossa situação naqueles “eles” que conseguimos identificar como nossos algozes.

Os partidos de oposição, sindicatos e outras entidades representativas costumam cair com facilidade na argumentação maniqueísta, atribuindo a culpa de todos os males aos outros, numa tentativa de ganhar espaço, convencer e vencer eleições. Os partidos de situação, por sua vez atribuem à oposição a inveja, a má fé, o “catastrofismo”.

Figuras de retórica, num jogo que nada tem de ingênuo, idealista ou de boa vontade. Ingênuos somos nós que acreditamos em “eles” malvados ou bondosos e sempre depositamos esperança em alguma bandeira de plantão. Acho que para alguns, depois de certo tempo de vida, só resta um certo enfado e cansaço, diante da repetitividade e dos mesmos jogos de cena.

Como acreditar num mecanismo tão falido e gasto como o da democracia representativa? Um mecanismo que nada tem a ver com verdade, solidariedade ou quaisquer outras palavras, que se desgastaram pelo uso, a ponto de quase se tornar comum mencioná-las sem ver um risinho sarcástico no canto da boca dos descrentes e céticos.

As palavras revelam seu valor pelo valor e atitude dos que as proferem e ouvem. Certamente há palavras que já foram cheias de vida e hoje são pássaros empalhados. Perderam a vida e só conservam a casca do que foram. Indicativos da falência de alguma coisa, da decadência de uma forma de ser de uma civilização ou sociedade.

Ouso dizer que somos muito pouco além de nossos símbolos, das palavras, da linguagem de nossos atos, de nossos silêncios cheios de significado. “Language is a virus” canta Laurie Anderson, um vírus que se propaga através e por meio de nós. Não podemos nos esquivar deste contágio, seja tirando 10 ou zero no estudo da língua, desprezando qualquer leitura ou hábito de escrever.

A linguagem é mais que nossa sombra, da qual não conseguimos nos livrar por mais que corramos.

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Ponto de Mutação

 

Mário Flecha – jornalista

 

Há pouco tempo tive a oportunidade de observar um fenômeno no mínimo interessante. Me fez lembrar de Ettiéne La Boétie com seu “Discurso da Servidão Voluntária”, escrito lá pelos idos de 1500 e batatinha. Lembrei-me também de Wilhelm Reich, com seu libelo indignado contra a estupidez: “Escuta Zé Ninguém”.

E de lambuja ainda citaria Paul Lafargue, o genro anarquista de Marx, que escreveu, nos áureos tempos em que o trabalho conquistava e fazia avançar os direitos civis, um best-seller entre operários do século XIX, “O Direito à Preguiça”. Nesta lista ainda acabei incluindo o trabalho de Thoreau, um dos pais da desobediência civil, pacífica e firme; e também “O Homem Unidimensional” de Marcuse.

Tudo isto motivado por um ato de mediocridade coletiva de trabalhadores desorganizados e por demais isolados e cegos em seu individualismo. Tão cegos e isolados a ponto de prejudicarem a si mesmos, teimando por destruir uma conquista que levou tempo ao longo da história, custou vidas e que nestes tempos inferiores vêm de ruir pelas mãos alienadas daqueles cuja condição e dignidade é assegurada pelo fruto de seu suor.

É uma história verídica de uma atitude medíocre cujo resultado é o enfraquecimento e paulatino esvaziamento e queda de um sindicato. Uma demonstração de como podem reagir indivíduos que perderam ao longo do tempo, ou que nunca tiveram, uma consciência de classe. O que somos nós enquanto indivíduos, frente ao poder de instituições?

Que poder de negociação podemos deter isolados, diante de toda uma organização? Os sindicatos são uma instituição criada pelo trabalho e em sua defesa. Se são bem ou mal geridos é uma questão de escolha, acerto e desacerto. Assim como o Estado, um sindicato sobrevive graças às contribuições e às taxas que cada um deve repassar para garantir um mínimo de poder de negociação e condições razoáveis de trabalho. Sem isto somos o mesmo que uma tartaruga sem casco. Seres muito vulneráveis, galinhas à mercê das raposas.

Analfabetos políticos, como escreveu Brecht, fazendo abaixo-assinados, se organizando em Kombis para levarem em massa as cartas de recusa à contribuição sindical, cartas de desfiliação e uma revolta cega a ponto de destruírem e prejudicarem apenas a si mesmos, a mais ninguém. Insatisfação contra o trabalho de uma diretoria se mostra é no voto ou com um impeachment. Não praticando a autodestruição.

Atos de revolta em razão do fato de terem de levar pessoalmente sua carta de recusa, ao invés de recolherem aos montes e encaminharem via um “amigo” prestativo. Perturbados em seu comodismo, mas desfrutando das conquistas salariais, bem ou mal obtidas com o trabalho do sindicato.

Será que imaginam ingenuamente que não existem custos de campanha, de manutenção e de fortalecimento da instituição, de forma que continue podendo existir e prestar os serviços para os quais foi concebida? Os sindicatos são construções coletivas incompatíveis com o individualismo exacerbado destes tempos. Uma parte da desgraça destes tempos, onde se veem destruídas tantas e tão importantes conquistas, é imputável àqueles de onde virão aos montes as vítimas da modernidade.

Não absolvo a pobreza das mentes sindicais, omissas e pouco criativas diante deste quadro. Incapazes de mudarem suas velhas e viciadas práticas, suas despesas inúteis em congressos onde pouco ou nada se colhe, sua omissão diante do papel de construção e fortalecimento de uma consciência de classe.

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Lixo Seletivo & Shoppings

 

Mário Flecha – jornalista

 

Dia desses estávamos placidamente, eu e família, lanchando um japonês fast-food no Diamond Mall, quando minha esposa observou a montanha que fizemos de copinhos, plásticos, papéis e latinhas de alumínio (éramos apenas três). Assaltou-nos imediatamente o óbvio de uma ideia que não sei o por quê, parece não haver sido ainda percebida.

Claro, por que não fazer coleta seletiva de lixo em shoppings? São, com certeza, montanhas produzidas todos os dias. Conversei com o rapaz que coletava os sacos de lixo daquelas caixas onde se lê “Obrigado” e onde muitos costumam não demonstrar a educada civilidade de deixar a mesa limpa para o próximo, pois no Diamond o número de funcionários que prestam este serviço é reduzidíssimo (não precisava ser tanto, pois creio mesmo que geram uma imagem negativa aquelas mesas com amontoados de bandejas).

Mas voltando ao tema, o rapaz me informou que recolhe inumeráveis sacos de lixo o tempo todo e que não há nenhum processo de separação posterior. Ora, disse o Conde aos passarinhos, por que não instituir o mecanismo do lixo seletivo em nossos shoppings, estes templos do consumo, que quer queiram ou não, são instituições altamente inseridas na sociedade e cumprem um papel importante como difusores culturais e como espaço de convívio, como o são as praças públicas?

Imaginem as toneladas de guardanapos e jogos americanos de papel, copos, talheres e pratos plásticos, garrafas descartáveis, latas de alumínio. Além disso, que excelente oportunidade para os filhos ensinarem aos pais menos conscientes a importância da reciclagem, da redução do desperdício e da preservação do meio ambiente, incluindo-se aí o urbano.

Não há como não notar que, hoje em dia, são as crianças que apresentam um nível muito maior de sensibilidade e educação para o meio ambiente, para a preservação da saúde através do cultivo de bons hábitos e a rejeição a vícios como o cigarro e a bebida. Há muito mais situações, atualmente, em que são os pequenos que dão o exemplo aos perdidos adultos, crescidos e educados nos maus hábitos.

O lixo selecionado poderia ser vendido aos recicladores ou doado a instituições beneficentes, de forma que o consumo gere algo mais positivo do que apenas o lucro e o acirramento cada vez maior da desigualdade. Algo de bom pode ser levado a quem não deu a sorte de ter um quinhãozinho melhor neste mundo, especialmente as crianças.

Eis um trabalho que pode envolver a prefeitura com algum suporte ou apoio na idealização e implementação de um projeto em parceria. Pode-se pensar inclusive num concurso de designers para uma lixeira inteligente, fácil de manter, compacta, e atraente aos olhos. Algo que desperte a atenção e convide ao ato de utilizar a seletividade do lixo para o bem comum.

Quem sabe alguns dados estatísticos, afixados sobre elas, informando sobre as quantidades recolhidas e a destinação dada, dados educativos sobre o que é reciclagem, as economias que gera em comparação ao processo tradicional (uma espécie de Jornal da Reciclagem).Um pouco de informação sobre o que é o trabalho de recolhimento e tratamento de lixo hoje realizado, os aspectos problemáticos e as políticas de aperfeiçoamento deste processo, enfim, mostrar a quantos se interessem, uma coisa sobre a qual pouco se sabe depois que o lixeiro passou. Pra onde vai o lixo de todo o dia?

Será que esta é uma ideia viável? Acredito que sim. Talvez mereça a atenção de nossas autoridades e dos shoppings e pode ser mais um passo no sentido de mudarmos velhos hábitos em benefício das gerações vindouras.

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Sementes


Mário Flecha – jornalista

 

O maravilhoso da vida é sua gratuidade. Esta nascente que jorra incessante o milagre da multiplicação. Quantos Fernandos Pessoas, Maiacovisks, Alfonsinas Storni, Adélias Prado, Ângelas Lago e Drummonds nascem a todo o momento e carregam consigo a semente, a intenção do ser? Não se pode contar.

A equação da existência não foi escrita por nós, criaturas, mas está inscrita em nós. Diante de um tal mistério o que cabe senão viver e conviver, trabalhar e celebrar o dom da vida, o sopro que anima a matéria inerte? Nossos mendigos mais decadentes ou os monstros mais terríveis de nossa espécie carregam esta chama. Tenha sido Calígula ou o indivíduo número 10560789, armazenado na gaveta do necrotério da medicina legal. Ali esteve a chama vital.

O poeta Rainer Maria Rilke escreveu certa vez que a morte de alguém é um espaço que se fecha. O que fica, o que vai restar por trás de um nome além do vazio cheio do significado daquela existência única e singular de quem se foi é esta inscrição em nós, as nossas memórias dos seres. Sem elas nem seus pertences poderiam ser identificados, ligados a seus nomes e espírito, à sua presença singular neste mundo de diversidades.

Nas abençoadas crianças mire-se o exemplo dos adultos mais perversos e perdidos, dos sistemas mais cruéis de exploração do homem pelo homem e lembre-se das sementes que não germinam, que não germinaram e nem germinarão antes mesmo do existir.

Quanta luta ainda há por ser lutada! Quanto querer e desejo de vir a ser, quanto porvir e sonho acalentam corações infantis em sua majestade. Seja dormindo ao relento debaixo de viadutos, seja trabalhando em lavouras ou vendendo o corpo para ter o que comer. É um mundo selvagem e belo, mesmo tão corrompido.

Somos dos seres os menos adaptados ao mundo natural, o qual adaptamos a nós. Criamos outras selvas e perigos além dos naturais. O mundo dos homens pleno de suas contradições atrozes, a Pasárgada e o Inferno de Dante por onde caminha a humanidade. Este lugar onde velaram nossos sonos, pais e mães; onde muitos de nós se engajaram ou engajarão neste ofício tão pouco ensinado, tão entregue a si mesmo e tão dependente da formação vinda de nossa vida afetiva. A criatura humana constituída pelo que a afeta é a que procria e cria, repassa a herança, o seu legado.

O símbolo vivo, a memória que reencarna os pais e todo o coletivo transmitido, seja pelos genes, seja por todos os instrumentos artificiais ou naturais que medeiam entre nós e o mundo. Até o momento do gran finale, quando se fecham as cortinas do espetáculo do ser enquanto ator e espectador. O percurso do ser é sua história, é espírito, memória, descendência. Nada tem só o que ver com o valor que damos. É o dado lançado na roleta da existência o que afinal conta no balanço geral.

A mera sorte do ser, berço de ouro ou jornal, aí começa a justiça dos homens, com sua balança desregulada e a venda que não veda a visão. Que método é tão efetivo que possa produzir a isenção? De fato esta dama idealizada não representa a justiça, mas o desejo de justiça, aquilo que se busca sempre de maneira imperfeita. Uma vez mais vejo quão necessária me é a tolerância para tentar o viver com, o conviver.

Meus pais se foram entre o fim de outubro e 22 de novembro. De seus corpos físicos nada restará, mas minha vida está cheia de suas presenças. Este, o afeto que não se encerra, passado geração pós geração, nossos genes e nossas histórias de vida entrelaçando-se, compondo e nutrindo as sementes da vida.

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Esporte, Competição & Stress

 

Mário Flecha – jornalista

 

Ainda tenho vivos, em minhas retinas tão fatigadas, os dias iluminados e divertidos no gramado do Minas (quando este era apenas um) com as atividades dirigidas pelo “Seu Macedo”. Este era um homem singular, uma espécie de iogue, um homem que adotou uma filosofia de vida baseada na simplicidade, na vida ao ar livre, no contato com as crianças. Morava em uma casinha pequenina, de madeira, ali onde hoje ainda resta o gramado do Minas I, junto ao muro.

Brincava-se muito, fazendo exercícios brincadeiras. Fazíamos memoráveis correntezas na piscina das crianças, redondamente em fila indiana, andando juntos, rindo como só as crianças sabem fazer e, de certa forma, também os passarinhos em suas inofensivas algazarras ao sol.

Seria bom resgatar algumas práticas modernas e humanas que foram perdidas em nome de uma pretensa modernização. Seu Macedo é uma referência em minha memória, que passei a valorizar mais com o tempo; muito em função de sua concepção de um ser humano integral, onde tanto o corpo como o espírito constituem-se numa unidade. Talvez ele tivesse como modelo os gregos, com sua “mente sã, corpo são”.

A supervalorização do corpo em detrimento do espírito produz doenças do espírito, que se torna esquálido e fraco para enfrentar os desafios da vida. A mera atividade intelectual também produz aberrações, mas hoje o que parece prevalecer é a excessiva valorização do corpo e da competição como um negócio rentável.

O Minas vai muito bem, mas não sei se posso dizer o mesmo do conjunto de seus associados. Não vai aqui nenhuma crítica à diretoria do clube. Entretanto, esta é uma reflexão que sou levado a fazer. Muitas coisas importantes tem sido feitas, o esforço é notável, mas perdeu-se alguma coisa valiosa que penso poder ser recuperada, mudando-se o enfoque e a concepção do que vem a ser um clube, o esporte, a educação, cultura e lazer.

O clube tornou-se uma empresa que, dizem, arrecada o equivalente a prefeitura de Poços de Caldas. Se não estou errado, são 60 mil associados. A prática do esporte especializado e competitivo tem invadido crescentemente o espaço, impondo muitas restrições ao uso e desfrute do clube. Com tanto dinheiro, por que não construir em um bairro, onde o m2 seja mais barato, uma unidade voltada só para a prática do esporte altamente competitivo? Além disso, incrementar e desenvolver nas outras unidades o esporte como fonte de revitalização, sociabilidade e aprendizado seriam bons desafios.

O atleta dos dias atuais é um indivíduo submetido a um forte stress. Aqueles que integram equipes de ponta em esportes ditos amadores ou semi-profissionais (o que me cheira mais a exploração de mão de obra barata e lucrativa) têm de apresentar resultados nos estudos, no inglês, na preparação profissional. Movidos pela pressa de tentar fazer nome nas mídia alguns vão ao limite do esforço. Os pais, em sua expectativa, injetam dinheiro, atendem às exigências por apoio financeiro e custeiam viagens pelo clube.

Assim como no futebol, não são raros os casos conhecidos de doping e uso de drogas durante e depois do apogeu de atleta. Haja vista o acontecido há pouco com um nadador, com o caso do corredor americano dos 100 metros, o incorrigível Maradona, Reinaldo, Garrincha e muitos outros consumidos na obscuridade. Além destes casos, há aqueles que envolvem lesões definitivas e irreversíveis (lembram-se de Cassius Clay?). Não é só digitador e operário que desenvolve lesão por esforço repetitivo (ler). As academias não escapam a estes problemas.

Tenho amigos, dos tempos da natação, que não suportam mais ver uma piscina. Saturados pelo esforço e sofrimento a que se submeteram. Acostumados a ingerir grande quantidade de calorias, sem nenhum acompanhamento médico e orientação, após a vida de atleta acabaram se tornando obesos, fumantes inveterados e abandonaram de vez qualquer atividade física. O esporte acabou não lhes deixando um grande legado, pois o espírito que regia aquela prática de certa forma descuidou-se da mente.

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Lixo & Luxo

 

Mário Flecha – jornalista

 

Por que cargas d’água a alguns cabe um tratamento diferenciado, quando explicitamente não cabe a diferenciação do chamado “cliente VIP”? Que eu saiba a Prefeitura não deveria discriminar em seus serviços os cidadãos, seja por credo, raça ou posição econômica.

Por isto mesmo acho válida a argumentação que farei a seguir, que é também uma reivindicação. Posso dizer que já morei nos quatro pontos cardeais de BH, inclusive nos intermediários. Em cada região a ação da Prefeitura é muito diferenciada, não por lucidez e clareza das peculiaridades de cada lugar, mas por imperfeição e dificuldade em manter um elevado padrão de atendimento em todas elas.

Compreensível, mas não aceitável. É algo que precisa ser mudado. Um fato simples, que não tem motivo para ser como é, por exemplo, é a coleta de lixo. Na região do Carlos Prates onde moro, à rua Peçanha, o lixo é recolhido três vezes por semana, num lugar densamente povoado por conjuntos de prédios. Só no feriado do dia 8 de dezembro juntou-se o lixo de sexta, sábado, domingo e segunda. Apenas com o meu condomínio poderíamos facilmente fechar a rua com uma barricada mal cheirosa.

Certamente não seria difícil fazer uma montanha de lixo em curto espaço de tempo. Enquanto isto, na zona Sul da cidade, onde mora minha avó nonagenária, o lixo é recolhido diariamente, a limpeza das ruas é feita com grande regularidade, o asfalto é sempre bem conservado, a sinalização e o policiamento funcionam muito melhor. Por quê?

A Prefeitura e o Estado discriminam pelo valor do IPTU e outros impostos pagos? Pelo valor do voto do eleitor zona sul? Gostaria de saber com que critérios são tomadas tais decisões, ou ao menos saber as razões porque somos tratados de forma tão diferenciada. A mim parece que a coisa gira em torno de velhas práticas e costumes patrimonialistas e nepotistas, arraigadas em parte nas mentes de um corpo burocrático, ensimesmado e arcaico, que vive de esperar a aposentadoria e de pequenas vendetas.

Coisa que pode ir se resolvendo aos poucos, substituindo mentalidades tacanhas por gente mais competente, bem paga e interessada na cidadania. Por outro lado, os ocupantes de cargos públicos deveriam estar mais atentos ao meio em que circulam. Como muitos de nós, estes senhores e senhoras vivem o dia-a-dia da cidade e podem perfeitamente começar a agir com mais vigor sobre questões tão cotidianas, independentemente de orçamentos participativos ou coisa que o valha.

Trabalho e atenção, eficiência e eficácia. Há ilhas de competência na administração pública, precisa-se dar-lhes dimensão continental, torná-las a regra e não a exceção. Tanto no plano municipal, quanto no estadual e federal se pode constatar isto. As instituições que apresentam estes padrões de desempenho elevado em meio à ineficiência deveriam ser mais estudadas para se compreender melhor as razões e os motivos para tanto.

Enganam-se aqueles que, ingenuamente, taxam a todo o serviço público de ineficiente e credulamente pensam ser a privatização a panaceia de todos os males. Penso diferente, o mal está na corrupção e lobismo produzidos pela interferência do privado sobre aquilo que é público. Desta má fé, inerente ao patrimonialismo (esta coisa de que tudo pertence ao Imperador) e nepotismo que vigoram em nossas instituições desde o Brasil Colônia, é que decorre em boa parte a má administração pública atual, somada aos problemas de agora.

Com que critérios são avaliados nossos administradores públicos e nossos políticos? Como se mede o grau de eficiência na utilização dos recursos disponíveis para atingir objetivos que beneficiem à população? Nossos dirigentes são submetidos a algum teste psicológico que os credencie para a posição de alta responsabilidade, tal como o exame de motorista também o exige? Lembremo-nos do último psicopata que tivemos na Presidência e daquela excrescência chamada “Enéas”. De bizarra chega a luta do Faustão com o Liberato. Por favor, menos populismo, mais pé no chão e boa vontade.

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Ensaio sobre a Cegueira

 

Mário Flecha – jornalista

 

Me lembro de uma viagem que fiz, à cativante cidade de Buenos Aires, para participar de uma palestra onde arranhei um pouco de meu portunhol. Depois, eu e minha esposa fomos conhecer um pouco da cidade dos portenhos.

Compramos um jornal e, entre os artigos, deparamos com uma matéria interessante que dizia respeito a uma política de fortalecimento e busca da valorização das mentes brilhantes do país. Uma política que ia buscar desenvolver métodos de avaliação e assegurar instituições que pudessem acolher crianças e fortalecer o país ao longo do tempo, apostando nos resultados que estas inteligências poderiam produzir.

Ficamos pensando no Brasil, nos milhões de brasileirinhos que já nascem com um punhado de sentenças decretadas sobre suas vidas. A de morte, por exemplo, seja por desnutrição, falta de carinho, abandono, condições de vida e educação, violência, marginalidade, ignorância. Na época demos uns trinta anos de frente para a Argentina em relação ao Brasil, no que diz respeito ao grau de civilidade e educação. Neste ponto somos um país tosco e rude, embora cheio de potencial (diria que 500 anos de potencial), desperdiçado. Aliás, desperdício é uma doença crônica em nossa terra.

As consequências deste vazio se vê no descaso pela pesquisa aplicada, pelo baixo índice de aproveitamento de pessoas qualificadas em atividades condizentes, pela cegueira do imediatismo. Não poderia ser diferente. Segundo estatísticas divulgadas recentemente, o brasileiro gasta por volta de US$6 por ano com livros (imagino que livros!) contra, por exemplo, US$300 dos japoneses.

Atribuo um pouco deste, digamos, desinteresse ao parco interesse da própria elite dominante, onde creio que a maioria não deve passar de jornais, sínteses e coisas que não tenham mais do que 10 linhas. Caso contrário se enfaram. Decisão no “feeling”, mas sem nenhuma bagagem para afiar a percepção e a capacidade de julgamento é a tônica muito provavelmente.

Assim sendo, não é incomum o fato que vou relatar. Conheço uma pessoa brilhante, com a qual tive o prazer de conviver tempo mais que suficiente para avaliar sua capacidade e inteligência, esforço pessoal e muitas outras qualidades necessárias a alguém no nível de mestre.

Esta pessoa ganha o exorbitante salário de R$700 por mês, foi mantido num curso de mestrado por 3 anos por uma instituição pública a qual apesar de tê-lo enviado para o curso não esboça o menor plano ou interesse de aproveitamento no mesmo. Simplesmente dinheiro público gasto sem nenhuma meta, nada. Apenas ritual.

E a tal pessoa, depois de noites e noites mal dormidas, debruçado em livros, redigindo seu material de pesquisa, ainda tem o pudor ético de tentar retribuir de alguma forma o investimento, mas sendo rechaçado na iniciativa, sente-se culpado só em pensar tomar rumo na vida (de forma indesejada).

Esta é a questão imediata que desejo frisar. Há pessoas neste país que estão caminhando e evoluindo muito mais rápido que nossas instituições públicas, arvoradas ainda em métodos militarescos do fayolismo ou da robotização taylorista do século XIX. A cidadania e o desejo de transformar o país estão nas ruas e nas mentes de muitos, mas nossas instituições continuam cegas e surdas, insensíveis e ineficientes diante do mundo em mutação e do desejo positivo de muitos. São autistas.

É bem verdade que se pode contar nos dedos as organizações que vão um pouco além do uso rasteiro dos braços, pernas e de uma parcela mínima e operacional do cérebro as pessoas. São poucas as que valorizam ou sabem utilizar de forma inteligente e humana o potencial criativo humano, ganhando seu entusiasmo sem transformá-las ou tratá-las como idiotas robotizados ao som de marchinhas militares. Como lançar luz nesta escuridão? Pergunto eu ao ET de Varginha, na esperança de uma resposta extraterrena.

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Software e Desenvolvimento

 

Mário Flecha – jornalista

 

Softwares têm algo em comum com a poesia. São uma obra intelectual que requer inspiração e apuro técnico, sua qualidade depende de um sem número de questões, algumas dizem respeito à disciplina de quem os cria, ao domínio da linguagem e do contexto, à harmonia dos componentes, ao apuro e detalhismo do ou dos autores. Têm algo de engenharia, como o tem uma escultura ou obra arquitetônica, mas sem talento não há diferencial, não se ultrapassa o “kitsch” ou o comum e indiferenciado.

Compreender a natureza criativa desta atividade significa conhecer-lhe a complexidade, o caráter extremamente fluido do objeto incorpóreo com que se lida. O “background” cognitivo requerido atualmente de um profissional nesta área assemelha-se ao de um médico, com diferenças no que diz respeito à forma de atualização do conhecimento. O objeto de estudo do médico não muda de tecnologia, sua complexidade é a de sempre, desde o início.

A ciência da computação requer estudo constante e, de tempos em tempos, lidar com verdadeira revolução de conceitos e princípios que pode ocorrer devido a mudanças drásticas impostas pela tecnologia de hardware, pelas conexões que se vão estabelecendo com outras disciplinas, pelo impacto motivado pela demanda crescente. Tudo isto acaba impondo novos desafios devido à própria alteração do problema em função da tecnologia de informação e computação.

Em meus 21 anos de profissão vivi mudanças que me produzem o sentimento de uma perspectiva histórica de muito mais tempo. Todo o cenário se modificou completamente. O usuário hoje tende a ser um anônimo em qualquer ponto de uma rede mundial, com o qual há pouca possibilidade de contato. Enquanto em outras áreas os produtos possuem uma característica estável e muito concreta, o produto software nem de longe apresenta a mesma confiabilidade que se espera encontrar em uma TV, um vídeo, um liquidificador, um telefone.

A produção de software de qualidade e que apresente um diferencial em relação à mesmice do mercado exige pessoas altamente qualificadas, automotivadas e essencialmente criativas. Um perfil que não se obtém apenas na faculdade, a qual pode transmitir muita formação e despertar muitas áreas, mas caberá ao indivíduo continuar e buscar as empresas com gabarito, discernimento e capacidade de investimento (será que temos isto às pencas no Brasil?), caso não queira seguir a carreira acadêmica e pesquisa pura ou se afundar num emprego sem perspectiva de realização de seu potencial.

A confiabilidade de um produto de software dependerá do grau de maturidade da empresa que o produziu, do nível de controle, domínio e contínuo aperfeiçoamento de seu processo produtivo. Na produção de software não se fala de máquinas de controle numérico, de correias transportadoras, de robôs, mas de gente trabalhando às vezes de forma assemelhada a de um artesão, de um artista em seu estúdio, mas envolvidos de forma disciplinada e sistemática.

O trabalho é intelectual e de uma natureza extremamente dependente da inspiração, concentração e capacidade de trabalho em grupo, além de uma percepção aguda da área de realidade onde se quer um software atuando. Requer habilidades gerenciais específicas e critérios que têm muito pouco a ver com princípios do taylorismo ou fayolismo.

Problemas de linguajar e entendimento comum de um problema ocorrem o tempo todo entre projetistas de software e seus clientes, o entendimento do problema determina o produto. Tudo o que se vier a codificar levará em conta este entendimento, o qual muda ao longo do projeto e acarreta recomeços e reconstruções.

Situações que venham a adotar soluções em software, onde se pode expor a risco a integridade física e moral das pessoas exigem rigor enorme e investimento pesado. Afora isto, frequentemente me pergunto se num país como o Brasil estaríamos preparados para viver a aurora de uma nova era e talvez ali encontrarmos nosso Eldorado. Sinto falta de políticas muito mais consistentes no que tange à informática e computação nas estratégias de desenvolvimento para o país.

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Governos Responsivos


Mário Flecha – jornalista

 

A anomia é uma regra geral no serviço público e seus agregados de capital misto. Em termos bastante concretos significa que ninguém, ou muito poucos sabem exatamente o papel que cumprem, o que devem fazer, que procedimentos devem ser seguidos e que, em geral, as coisas caminham segundo critérios obscuros e pouco conhecidos.

Mais de uma vez vivi ou testemunhei situações em que o cidadão simplesmente cai no vácuo, onde não há a quem recorrer, pois o lugar que deveria atendê-lo não dá solução ou esta solução passa a depender exclusivamente dos humores pessoais de um legítimo e malfadado “funcionário público de plantão”. Os escalões superiores simplesmente não se envolvem com estas coisas comezinhas.

O famoso Zé Ninguém de gravata (ou um substitutivo qualquer para o feminino) encontra ali a oportunidade de exercer sua “vingança do bastardo” contra o primeiro que lhe aparecer pela frente. Contando certamente com a conivência de um “jefe” que pouco ou nada faz ou que não pode fazer devido aos mecanismos “legais” que o impedem.

E quanto mais desesperado e nervoso estiver o cidadão mais se compraz o digníssimo servidor em seu poderzinho infernal, capaz de lesar e causar danos consideráveis, especialmente àqueles que não dispõem de amigos pessoais que lhe façam o favor que deveria ser uma obrigação.

Revoltante? Põe revolta nisso. Veremos o abuso, a violência e o descaso nas instituições policiais e de saúde, a omissão e a venda de favores no fisco e outros foros onde prevalece o lobby e o jogo de influência do poder privado. E veremos o mal cidadão buscando tirar proveito disto e ajudando a perpetuar este mal.

O favorecimento e a “ajuda”, as famosas “igrejinhas” e mamãezadas, as sinecuras distribuídas generosamente da cornucópia dos cofres públicos, esta coisa que se diz não ter dono e que portanto está à disposição do aventureiro que se dispuser a tomar posse. Acho até que é de se admirar que, ao final, ainda funcione alguma coisa e em alguns setores haja até algum progresso e melhoria.

Mas não se confunda este discurso com a defesa da malfadada privatização da coisa pública, pois atribuo estes males justamente ao Estado privatizado, ao patrimonialismo imperial que até hoje habita nossas instituições públicas, ao familismo e nepotismo históricos e tantos outros males que até fica cansativo e repetitivo ficar enumerando-os.

Acredito no Estado responsável e responsabilizável, que é capaz de responder prontamente às demandas e inclusive de se antecipar na solução de problemas, que seja capaz, de fato, de tornar a vida e as coisas mais fáceis para as pessoas, com mais condições de existência e realização pessoal para todos, sem discriminação. É difícil isto? É, e muito, mas se a instituição do Estado não servir para isto, então só serve para espoliar e ser espoliada pelos malfeitores de plantão.

A forma pacífica, porém combativa de se resolver esta coisa começa na educação, no desenvolvimento e respeito pela cidadania, na cobrança pela sociedade, na firmeza de propósitos, na formação do funcionalismo, no voto consciente, na própria ação educativa e constante de governos sérios e empenhados, mas também sensíveis e inteligentes o suficiente para promoverem a agilidade e presteza das soluções bem amadurecidas, e não oportunistas, imediatistas e demagógicas.

Problemas há por todo lado que se olhe e a cada minuto brota mais um. Um canal mais direto entre governo e cidadãos, a exemplo das Regionais do Estado e do Orçamento Participativo são boas iniciativas, mas a democracia precisa de mais e pode com certeza evoluir.

A mera representatividade é pouco para os dias de hoje. Os mecanismos de fiscalização, cobrança de eficiência, decisões inteligentes e transparentes podem ir além. Em nível pessoal ainda tenho esperança de, antes de entrar na terceira idade, ver algo realmente novo acontecer nesta área, onde tudo parece velho e imutável. É com esta esperança que nos desejo um feliz 98.

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Escolhas e Consequências

 

Mário Flecha – jornalista

 

É bom vivermos rodeados de lixo, poluição sonora e visual, violência no trânsito, falta de cortesia e ignorância, corrupção e chacinas? É bom termos paz e sossego, termos chance de crescer sadios, termos uma família equilibrada, um mínimo de dignidade para viver, condições de habitação, transporte e alimentação, algum salário que nos permita mais do que sobreviver, ter alguns bens de consumo, sonhar e fazer planos razoavelmente realizáveis ao longo da vida?

Será que a loucura da violência e do banditismo, do tráfico e da prostituição não tem nada a ver com a partilha da riqueza produzida? Pensemos num exemplo caseiro, onde um filho vê o outro sendo tratado com todo cuidado e respeito, recebendo e tendo acesso a todas as coisas da casa e podendo ter em geral o que deseja, enquanto para o outro o pior lugar, a negativa de todos os desejos, a falta de amor e cuidado. Que resultado se pode esperar de uma pessoa assim, que teve cada segundo de sua vida marcado pela marginalização?

Este é o problema básico quando o princípio que rege as coisas é o da acumulação de riqueza material pessoal, status e diferenciação pelo que se possui. A resposta que emerge reativamente é a violência, o produto indesejável da marginalização. Como seria bom para alguns se todos fossem completamente passivos e obedientes, mansos como bois de carro, que aceitassem tacitamente as regras do jogo de cartas marcadas.

Lamentavelmente a coisa é pior, pois uma parte da sociedade que vive nestes moldes de injustiça social é vítima direta da violência desencadeada por estas escolhas mantidas às custas de vidas inteiras jogadas fora. Muitos panos quentes são tentados, mirabolâncias ideológicas são criadas na intenção de explicar e justificar mui racionalmente o despautério. O que é de espantar é que até certo ponto são eficientes, pois há muito tempo as coisas se mantém neste estado que deveria ser intolerável, mas permanece.

Vamos adentrar o terceiro milênio vivendo ainda esta forma primitiva e bruta de organização social. Onde a morte é banal, a vida é banal, o planeta é banal. Toda esta tecnologia e ciência (que tanto admiro) é rudimentar se utilizada sem sabedoria e cuidado, sem que esteja disponibilizada para todos. Enquanto não trabalharmos seriamente no sentido de extinguirmos a pobreza material e de espírito, enquanto não for distribuído o pão, estaremos vivendo sempre a angústia da ameaça da violência, do ataque de pivetes (estes filhos abandonados) e outros tormentos indizíveis.

Quem sabe a proximidade do ano 2000 nos sirva de inspiração e reflexão sobre o que queremos de nós enquanto humanidade, não apenas como meros e diminutos indivíduos às vezes tão cheios de prepotência e arrogância. Não me coloco nem além nem aquém desta vaga onda humana. A globalização não é o símbolo da união dos homens, do mundo que John Lenon canta em “Imagine”. O sonho não acabou, pois ainda não se tornou realidade.

Quando acordaremos deste sono e torpor para a realização plena e luminosa do ideal de humanidade? Sem a uniformidade dos totalitarismos, sem a alienação das consciências, sem a perversão destrutiva inerente ao capital, sem os dogmas religiosos? Só um milagrezinho simples, coisa à toa, uma tutameia. Só a comunhão afirmativa de um “não” que pode ser dito. Um desejo novo, um fogo novo nos olhos. Uma mudança na alma, uma coisinha metafísica que pode alterar a química de nossas vidas.

A senda existe e espera pelo toque das plantas de nossos pés. Por tudo o que já fizemos agora só falta a grandeza de nós mesmos para mudar a dimensão de nossas existências e fazermos contato, religados ao cosmos.

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Porto Inseguro

 

Mário Flecha – jornalista

 

Fomos em número de 12 passar férias em Porto Seguro, na primeira vez em que eu, meus irmãos e respectivas famílias saímos juntos. Há 14 anos estive lá. Mudou pouco no essencial, e diria que para pior. Tudo começou quando, com base num anúncio, compramos um pacote da operadora Hills Tour, depois carinhosamente alcunhada de “Hell’s Tour”.

A propaganda oferecia o conforto de um hotel 4 estrelas, com equipe de recreação e sala de jogos. Estes dois últimos itens nos fizeram decidir pelo hotel “Beach Hells”, sem saber que ingressávamos para “Une saison en enfer”, como Rimbaud.

Equipe de recreação e sala de jogos? Nem sombra. Piscina imunda. Atendimento péssimo. Para completar, um guia turístico fascista, o tal de Hélcio, fazendo de tudo para tornar nossa viagem um pesadelo. Após nossa volta, fomos conferir e descobrimos que, pelo menos nos céus da Embratur, não brilham estrelinhas para o dito hotel, nem quatro, nem nenhuma. A operadora em BH sequer tem registro na Embratur, segundo um funcionário da entidade. Propaganda enganosa, então, das mais típicas.

Bandido pobre, se roubar uma bisnaga, está frito. Sai polícia e camburão, mobiliza-se o aparato de repressão à natural consequência da marginalização e injustiça social. Por que não temos o mesmo empenho para criar uma polícia treinada para pegar os grandes bandidos, os grandes sonegadores e escroques? Esta turma opera praticamente protegida pela polícia e pela lei.

Há pouco tempo um amigo, recém-vindo de 10 anos em Paris, foi logrado por uma “empresa” de venda de telefones, pagando R$500 por uma linha que não vai ter. Foi à polícia comunicar o fato e um enfarado policial disse que já tinha recebido pelo menos 90 queixas sobre a mesma empresa e que já tinha feito tudo que podia. O bandido dissera ao policial que ia devolver o dinheiro a todos os “clientes”. Mal terminou de explicar isto, o representante da lei voltou-se para o computador, continuando com muito interesse seu joguinho de paciência, patrocinado pelo dinheiro público.

Meu amigo saiu cabisbaixo, pensando em como estava desabituado de seu país. Com aquele nó na garganta, de indignação sufocada, de quem descobre que cidadania por estas bandas é brincadeirinha pra inglês ver.

Pois bem, aterramos em PS e fomos trasladados num ônibus surrado, sem ar condicionado, na sufocante canícula do meio-dia. Passeios opcionais com ônibus ainda piores. Cidade entulhada de turistas mal-educados, do tipo que joga em qualquer lugar guimba de cigarro, papel de embrulho, garrafa de plástico, latinha de refri etc. Uma cidade pra se ganhar dinheiro fácil, livre de fiscalização e outras destas coisas chatas que inventaram pra atrapalhar.

Só em nosso grupo foram 7 com disenteria, entre crianças e adultos. Pelo menos 11 crianças no hotel passaram mal, uma internada por dois dias. Outros adultos estavam doentes no avião de volta. Uma conhecida relatou que em Ajuda, além dela, conheceu pelo menos 8 pessoas doentes. Casos de hepatite e doenças viróticas complicadas, como a de um amigo de meu irmão, que há vinte anos contraiu uma virose em PS e desde então deixou de andar.

É bom saber dos riscos existentes. Saber que ainda vivemos num país onde o desrespeito e a mania de levar vantagem imperam. Tudo isto sob o massacre repetitivo e monótono de Axé Music. Uma uniformidade questionável, diante de tanta diversidade musical. Que férias!

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Leis que pegam

 

Mário Flecha – jornalista

 

Existe uma diferença semântica entre legislar e legiferar e creio que é devido às crenças. Há uma terminologia caricatural e sonora que se usa ao fazer alusão aos excessos na criação e no número de leis produzidas aos centos no país: “cipoal legiferante”. O uso e abuso aludidos parecem ter como princípio básico a crença de que basta criar leis para que se resolvam problemas, ou basta acionar a lei para fazer valer determinados direitos. Tudo dependerá de a lei haver “pegado” ou não.

Não creio que seja apenas no Brasil que lei “pega” ou “não pega”. Nossa baixa de autoestima às vezes nos faz ver o país como uma aberração doentia em certas coisas que não são tão singulares assim. Uma lei “pega”, no todo ou em parte, se aqueles que a cumprem e fazem cumprir acreditam no benefício que ela possa trazer para a sociedade e também para si próprios. É uma atitude calculista que pouco tem a ver com filantropia ou qualquer visão romântica do ser humano.

Se o benefício não é suficientemente entendido por mais racional que seja, a lei “não pega”. É uma coisa tácita. Assim ocorre com a prática da emissão de notas fiscais de compra por parte de comerciantes. A população em geral é alheia a este fato, embora o benefício que poderia advir com o aumento de arrecadação seja até muito claro. Sonega-se a céu aberto sob uma certa pachorra ou efetiva debilidade fiscal.

O mesmo não ocorre com o imposto que nos é cobrado nos contracheques, mas poucos se sentem injustiçados o suficiente para exigir a parcela de participação do comerciante sonegador. E isto vale para os indomáveis camelôs que pululam e contribuem para a sujeira da av. Paraná, aqui em BH.

Quando a lei trata de um assunto importante para os cidadãos, mas não é compreendida em sua extensão ou o cidadão pouco pode fazer, dependerá da capacidade e interesse do Estado fazer cumpri-la, ou do contrário “não pegará”. Aquele embate do governo Itamar contra as indústrias farmacêuticas é um belo exemplo de coisa que não pegou. Aí estão os diversos remédios com as mesmíssimas fórmulas porém com diversos preços e embalagens para enganar o incauto. Há reações de sabotagem, onde ao invés da recusa explícita opta-se pelo silêncio e pela ação de solapamento. Mais uma vez a força do Estado estará em xeque.

Em São Paulo, apesar da lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em postos e restaurantes de beira de estrada, a prática é comum, especialmente com motoristas de caminhão. A lei me parece das mais sensatas, mas o cidadão, inclusive o agente da lei, não quer saber de sensatez, quer é o álcool. Não são todos, claro, mas prevalece a vontade destes.

Com relação ao novo código de trânsito, me parece que está embutida uma estratégia que visa encorajar os agentes da lei a aceitá-lo e assim fazerem-no pegar. Se for verdade, a polícia vai arrecadar uma boa parte do produto das multas, o que vai lhe possibilitar melhores condições materiais e de pessoal. Pode ser bom mas é possível que se caracterize uma espécie de “farra do boi”. Não creio que este mecanismo seja definitivo, creio que seja parte de uma estratégia. Por isto mesmo, se for verdade, devem tentar tirar proveito do momento com muita fome.

Há poucos dias, participando de um debate televisivo, pude constatar que existem diferentes conceitos de cidadão, sendo este um termo sobrecarregado semanticamente, pois é utilizado nas mais diversas situações segundo os interesses em jogo. Realmente o termo reúne muitos sentidos, mas creio que há um cerne que não devemos perder de vista.

Cidadão não é consumidor ou cliente, esta é apenas uma pequena faceta. Exigir direitos do consumidor em geral implica em atitude individual ou individualista. A ênfase colocada retira de cena a verdadeira discussão e substância do que define cidadania ao meu ver, nos dias de hoje. Os direitos políticos e sociais no Brasil saltam aos olhos em sua deficiência.

O grau de participação da sociedade é pequeno e acanhado. Não me emocionam tanto as aglomerações em praça pública, mas a conduta do dia-a-dia, os atos de confiança, atenção, cortesia e firmeza de propósitos. Teríamos menos legiferação e credulidade no relativo poder das leis, justamente por serem uma prática natural ao conjunto da sociedade.

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O Efeito Ricochete

 

Mário Flecha – jornalista

 

Os tempos mudaram. O nível de tolerância por abusos praticados por funcionários públicos e políticos de plantão, incluindo aí os agentes da lei, é cada vez menor. Leis como as do novo código de trânsito não são para qualquer governo promulgar. Não somos um país de grandes realizações na área social, padecemos de corrupção próxima do crônico, muita desigualdade e uma série de doenças típicas de nossa situação terceiro mundista, que mais se agrava com o desemprego. Seria bom não termos inflação se o preço não fosse a perda crescente de postos de trabalho e a ciranda de perversidades.

Países com lastro para suportar o efeito ricochete de uma lei dura são aqueles que possuem um efetivo treinado e confiável, pago suficientemente bem para não se corromper facilmente. Um país capaz de bancar e garantir que as esferas do Estado cumpram seu papel.

Há pouco, vimos a morte de um estudante atropelado numa rua onde não havia nem mesmo passeio. Quem vai multar ou cobrar a falta deste item que poderia ter salvo o rapaz, segundo li no lamento do pai? Quem vai barrar a corrupção e a propina que correm o risco de grassar entre policiais? (alguém falou em jogo do bicho, tráfico e prostituição?)

Outro dia mostraram um motorista chamando um policial de palhaço em frente às câmaras de TV. O policial suportou pacientemente o achincalhe e não fosse ter sido chamado acintosamente, talvez nem precisasse levar o sujeito preso. Agiu como um verdadeiro policial: soube manter o sangue-frio diante de uma pessoa visivelmente descontrolada (o que não é difícil nos dias atuais).

Pois bem, numa fila de banco um cabo conversava em bom som que se fosse com ele a coisa ia ser diferente – “grampeava logo o sujeito e levava lá para baixo pra ele ver quem era o palhaço”. Este tipo de gente, tenho certeza, não se quer na polícia, mas existe e é um perigo para a sociedade, pois não têm competência para agir numa situação onde as pessoas estão nervosas e o que mais se precisa é gente calma e capaz de conter os ânimos com habilidade. Parabéns ao guarda que antes de tudo honrou seu estatuto de pessoa, em sua função difícil, onde lida com as frustrações e problemas de gente que não é exatamente criminosa.

Vislumbro cenas de abuso policial, pois tenho minhas dúvidas de que nos quadros atuais tenhamos gente com a maturidade que relatei. O segundo tipo deve dominar, pois é muito mais fácil num país como o Brasil. Falta tanta coisa em nossa formação para bancarmos leis como esta… Pelo menos deve servir para mostrar a fragilidade do que somos. Neste setor não dá para fazer de conta que somos primeiro mundo. Há coisas que não amadurecem à força.

Não sou contra o código, em sã consciência não creio que ninguém o seja. Penso apenas que com ele devem vir muitas outras atitudes consequentes, tais como uma melhor educação para o trânsito em nossas escolas e um sem número de outros saberes práticos para a vida em sociedade. Um esforço desmedido no sentido de promover-se a justiça social, de cobrar de quem tem demais a sua contribuição na divisão do pão e a terra, de reformar o Estado não para si mesmo, mas para a sociedade.

O trânsito é algo que tem um certo poder perturbador da vida coletiva. Talvez o efeito ricochete seja algo positivo no sentido de aperfeiçoarmos nossas instituições, dando-lhes uma dimensão mais séria e consequente, pela cobrança da reciprocidade diante do rigor do novo código. Bem que se podia começar acrescentando ao mesmo multas e punições ao poder público por seus pecados por omissão.

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Mazelas Cativas

 

Mário Flecha – jornalista

 

O Papa condenou o neoliberalismo. Outros têm se levantado contra esta insensatez humana agitada pelo frenesi do lucro. A pobre substituição do sentido vital do trabalho que edifica o ser, pelo trabalho ou desemprego que o danifica física e moralmente.

Os malefícios são vários e parco o retorno à sociedade. Já percebemos qual é o “X” da questão. O número de doenças mentais aumenta, as crises de depressão, afastamentos por LER (Lesão por Esforço Repetitivo), violência urbana e doméstica, alcoolismo, desemprego e muito mais. Isto sempre existiu por estas plagas, mas foi visivelmente piorado, como demonstram dados estatísticos.

Uma das consequências visíveis da decadência promovida é o recrudescimento de doenças e a piora das condições gerais de saúde da população. Aumentaram os casos de tuberculose e outras doenças indicativas de empobrecimento e falta de cuidados básicos. O sistema de saúde falido range ao peso das demandas.

O Dengue cresce em BH, trazido por fatores vários. Um deles é a própria falta de educação sanitária da população, unida à falência administrativa e financeira dos órgãos públicos.

Sábios são os turistas estrangeiros que daqui vão se retirando prudentemente. Tratamos mal nossa casa. Um elemento que faz as coisas ficarem mais do jeito que o diabo gosta é o individualismo que desencoraja ações cooperativas. Vemos a apatia da população, que não alterou as práticas que favorecem à multiplicação do Aedes Egypit, por exemplo.

Não devemos esperar que falidos e ineficazes órgãos públicos resolvam o problema. Deve-se cobrar o que nos devem em termos do que pagamos de impostos e não vemos de retorno (Procon?). Há que começar a agir de forma organizada e firme, no sentido de darmos nossa parcela para a solução de problemas da coletividade.

Dos problemas mais graves, saúde, educação e desemprego parecem os mais renitentes e abandonados pelas políticas públicas. Há algumas modificações positivas mas não devemos nos ufanar por respeito às pessoas que padecem o dia-a-dia. Atingimos em alguns pontos apenas o status de razoável.

Filas na saúde não precisam existir. Podem ser resolvidas com vontade política e enfrentamento de setores corporativistas da medicina. O uso de agendamento de horários faz com que o médico cumpra seu contrato de trabalho, ao invés de atender rapidamente e sair para seu consultório particular. A agenda impediria esta prática irregular. Esta é uma das razões para as filas e a baixa qualidade das consultas feitas a toque de caixa.

As negociatas entre hospitais e alguns funcionários públicos é outra questão de rigor e firmeza de intenções. Quando se fala em máfia no Brasil, também se fala destas formas de organização que sangram o bem público. Maus salários não se resolvem com pactos corruptos entre instituições públicas e órgãos de classe. Mil vezes a honestidade de uma greve ao procedimento das filas e o “faz-de-conta que eu não estou vendo”.

Fonte acreditada relatou um fato que ilustra o desrespeito. Um médico ginecologista, para se livrar rapidamente de suas pacientes (pobres e carentes), impôs o seguinte constrangimento: aguardar na lotada sala de espera com as calcinhas na mão. Foi denunciado e voltou atrás, indignado por ser contrariado em seus métodos.

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Naufrágio do Titanic

 

Mário Flecha – jornalista

 

Seu Lindolpho Espechit, hoje com honoráveis 102 anos, era um adolescente que fez seu début como jornalista à época do naufrágio do Titanic. A razão era simples: ele adorava navios e sabia tudo sobre eles, especialmente sobre o inaufragável. É interessante como alguns desastres se perpetuam na memória geração pós geração. Assim foi também o caso do Zepelim. O elemento trágico nem sempre é suficiente para justificar. Acho que há um outro que ajuda a marcar a memória. É o fato de que morreram muitos ricos ao mesmo tempo, ou escaparam da morte às custas das vidas de muitos pobres. A desgraça dá muito ibope, especialmente se atinge ricos.

Somos muito impressionáveis com o que nossos sentidos dão conta de assimilar mais diretamente. Por exemplo, não nos comovemos tanto com as cifras de mortos em nossos acidentes de trânsito ou Hiroshima, por que não vemos uma montanha de corpos empilhados como no holocausto nazista. Somos primitivos primatas no que diz respeito a estas reações. A razão ou a sensibilidade acabam sendo pouco utilizados.

Graças a esta limitação, acredito que as centenas de milhares de crianças desnutridas que enterramos todos os anos também não nos comovem. Diz um velho ditado que o que os olhos não veem o coração não sente. Acredito que pode sentir sim, mas teríamos que ultrapassar o estágio do sentimentalismo objetal, disparado por estimulação pura e simples dos sentidos mais primários.

Aí então talvez começássemos a falar e praticar o amor como um “sentimento do mundo”, como disse Drummond. Um amor não baseado em crenças extraterrenas, mas sim nas que começam em nós e se alargam por todas as outras coisas e seres. Uma convicção baseada na razão, sentimento, vivência: reflexão. Estamos longe disso.

O Titanic foi palco de um drama real. O deus dinheiro travestido para ser digerido pelas consciências. Não sei o quão fiéis foram aos fatos, mas a estória contada é instigante. Toda a sociedade de classes estava ali representada na estrutura do navio e nos mecanismos de apartheid. As barreiras para subir na pirâmide social, a facilidade de transitar dos mais abastados, os símbolos da nobreza apropriados pela burguesia em sua falta de símbolos próprios etc.

Um elemento de fé e esperança no inconsciente coletivo, lá também estava o amor superando barreiras, aproximando as pessoas, desvestindo-as de seus ornamentos e poderes artificiais, mas efetivos, que o dinheiro é capaz de estabelecer. Me lembro sempre dos cultuadores do bezerro de ouro. O deus verdadeiro, infelizmente, é um cifrão de todo o tamanho. Nós e nossas crenças fantasiosas. Onde vamos com elas? O sentimento do mundo é o que nos basta para religar-nos ao cosmos.

Os botes não eram suficientes. Prenderam os pobres para os ricos tomarem assento. Os botes não tinham a lotação preenchida. Não voltaram para salvar alguns a mais. Exceto um, que foi tarde demais e ainda assim retirou 6 das águas geladas do Mar do Norte. O mar da morte de homens, mulheres e crianças, em sua maior parte buscando a sorte no Eldorado americano, como fazem hoje nossos valadarenses e outros cucarachas, estimulados pela riqueza e tentações provocadoras do consumo que não conseguem realizar.

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Avenida Paraná

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Quem passa diariamente pela Paraná, seja de carro ou a pé, sabe do caos de que estou falando. A avenida e suas imediações são o epicentro da sujeira urbana, das fachadas mal tratadas de seus estabelecimentos, da falta de educação que ali predomina, especialmente no que tange aos pedestres. Para completar o quadro, certamente impreciso, os camelôs ali estão desafiando o código de trânsito e qualquer lei.

Valeria a pena um projeto de revitalização da Paraná, para torná-la um cenário que seja um cartão de visita da cidade, e não uma vitrina do mal trato que dispensamos ao nosso meio ambiente urbano, fora os atropelamentos e riscos a que todos ali se expõem.

Poderíamos começar com a questão do trânsito, para variar. Por exemplo, uma coisa que sempre faço ao adentrar a Paraná, no sentido da Rodoviária, é acender os faróis para tornar o carro mais visível pelos inúmeros pedestres que transitam por ela. Seria fácil estabelecer a obrigatoriedade dos faróis acesos na Paraná e suas imediações. Além disso, muita fiscalização, tanto dos pedestres quanto dos veículos, acompanhada de seguidas campanhas educativas, seja para o trânsito, seja para a questão da limpeza.

O problema dos camelôs não se resolve com cassetete, mas com contra medidas econômicas. A motivação por aquela região é possivelmente a grande concentração de consumidores de baixa renda, por sua vez motivada pelo grande número de pontos de ônibus. A ideia seria estudar a desconcentração destes pontos de ônibus, de modo a pulverizar o público e retirar a razão que reúne os camelôs naquele ponto focal.

Acredito que nossos engenheiros de trânsito saberiam encontrar um método que permita distribuir os pontos em distâncias razoavelmente equivalentes àquelas que a maioria dos usuários percorre para apanhar seus ônibus. Os camelôs devem ser transformados em ambulantes, uma figura que não tem ponto fixo de venda. Além disso, deveriam ser identificados e fiscalizados para garantir que apenas vendedores autônomos operem e não se formem máfias para explorar mão de obra barata.

Na sequência, promoveria-se com um projeto (que já existe) a revitalização arquitetônica dos imóveis da região, além do embelezamento dos canteiros e passeios, tornando a Paraná, e suas vizinhanças, um lugar pitoresco e agradável para quem é da cidade e para quem nos visita, especialmente os que chegam pela rodoviária.

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Rota 66

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Conheci uma revista muito interessante, que continha uma entrevista com o jornalista Caco Barcelos, onde o tema principal girava em torno do conteúdo de seu livro Rota 66: a violência institucionalizada da polícia.

É um trabalho de jornalismo investigativo sobre a corrupção e violência policial, no Rio e São Paulo principalmente, e a conivência e tolerância da sociedade, especialmente da classe média e abastada. Na entrevista ele confirma uma coisa de que eu apenas suspeitava: Brasil e Colômbia são os países mais violentos do mundo segundo dados da Unesco. Não tenho porque duvidar.

Só de mortos por assassinato no Estado do Rio são 8000 por ano. Em São Paulo são 10000. Em apenas cinco anos cada um dos dois estados produz o dobro dos mortos no Vietnã em 14 anos de guerra aproximadamente (52000). Sem contarmos os mortos em acidente de trânsito, acidentes do trabalho, Aids, disenteria e outras doenças típicas do abandono, da injustiça social e dos maus-tratos da vida.

Caco colocou com muita clareza o que também penso: polícia no Brasil tem por missão a proteção da propriedade do rico e da classe média, ao invés de zelar pela vida humana e defendê-la. Óbvio que a propriedade vale mais, basta ver os massacres de sem terra, de sem teto, de presidiários, de pivetes e outros marginalizados que, como rebotalhos do processo de exclusão, só podem dar no que dão e por isto o melhor é eliminá-los. Alguém tem de lidar com este inconveniente lixo humano e o melhor aparato institucional para isto não é a SLU.

A brutalidade das punições dos portugueses, dos republicanos no massacre de Canudos, das matanças de índios que chegaram a quilômetros de corpos nas praias (praticamente ninguém sabe disto) tudo isto forjou um decreto de morte tácito, muito mais eficiente que a pena de morte legalizada.

Não defendo bandido de espécie alguma e nem a lei do mundo cão mantida a base de hipocrisia. Com o acirramento da violência como produto do desemprego, da revolta e desespero o que se pode esperar a não ser mais brutalidade, como forma simples e barata de resolver o problema? Como Luiz Fernando Veríssimo descreveu em sua crônica, Sérgio Naya é apenas o “canalha da vez” num vasto oceano de canalhices maiores e menores que permeia nosso tecido social.

É o boi de piranha ofertado à paixão cega e indignada para que outros canalhas continuem até a morte por velhice, sugando toda a vitalidade do país, locupletando-se em enormes patrimônios pessoais para os quais não há polícia que investigue na mesma forma e eficiência com que lida com os marginalizados.

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Globalização

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Vivemos num mundo baseado em confiança. Uma confiança no conhecimento tecnocientífico, nas especialidades, nos serviços de todo tipo com os quais urdimos o dia-a-dia.

Se este não fosse um mundo construído sobre confiança, ele não funcionaria. Assim é que contamos com especialistas, produtos e serviços informatizados, nos rodeiam. São bancos, aviões, carros, geladeiras, enfim, miríades de artefatos de mediação entre nossos limitados sentidos e capacidades e o vasto mundo.

Quer queiramos ou não, é uma confiança compulsória. Mesmo desconfiando de tudo, utilizaremos estes serviços, tecnologias e técnicos (ou então não temos lugar neste mundo). Muitas das coisas com que lidamos e das quais dependemos acontecem devido a estes complexos tecnológicos e contamos com a confiança de que não falharão. Um símbolo vital do nosso dia-a-dia, o dinheiro, está imerso neste caldo. Hoje, mais que nunca, as operações bancárias são um ótimo exemplo.

Nossas geringonças são próteses através das quais nos constituímos como sistemas híbridos capacitados para coisas que apenas com os atributos básicos não poderiam ser realizadas.

Idealmente tendemos a nos tornar seres de qualquer lugar e os lugares não nos oferecerão raízes suficientes. Migraremos conforme o mercado ditar e as necessidades sistêmicas determinarem. Por outro lado, podemos viver uma vida inteira entre desconhecidos vizinhos e nossa comunidade tenderá a estar no ciberespaço.

Lidamos mais e mais com o simbólico, com representações do mundo que nos cerca. Mas o próprio conceito de “mundo que nos cerca” se alargou e modificou. Não precisamos nem mesmo criar raízes profissionais e de convivência no lugar onde fisicamente moramos. Saímos e entramos em nossas moradias, trafegamos encapsulados em nossos veículos e vamos conviver (seja lá que convivência for) em outro ponto do espaço urbano.

Nem a cidade pode ser nosso cenário real de trabalho e convivência, o qual pode estar a milhares de quilômetros de nós, como é o caso dos programadores de computador indianos, ou de Arthur Clark, autor de 2001, uma odisseia no espaço, que vive no Sri Lanka e escreve diariamente para um grande jornal do outro lado do mundo. Vivemos numa espécie de jogo de encaixe e desencaixe, como um Lego. As mudanças são rápidas, a conectividade e adaptabilidade fácil são uma necessidade.

As empresas de comércio virtual atendem clientes de toda parte. O mundo está cada vez mais acontecendo na mornidão dos circuitos integrados, na imobilidade aparente dos meios de transmissão, no entanto à velocidade da luz. A globalização é um termo muito citado, mas é também um fenômeno visível e cheio de contradições.

Vemos sua manifestação nos produtos de supermercado, nas redes mundiais de computadores, na falência do Estado-nação cada vez mais impotente para a manutenção de suas fronteiras, pois o problema ocorre no campo virtual. O shopping é o mundo. O longe ficou muito perto, confortável, barato, acessível. O perto ficou muito longe, caro, de baixa qualidade, principalmente num país como o Brasil.

Como “nosotros” nos estabeleceremos neste cenário? Periferia miserável, remediada ou nação solidamente emergente? Ou vamos direto para a pós-modernidade, num mundo muito melhor, de gente boa e bem intencionada, num mundo pacífico e rico nas diferenças?

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Guerra do Fogo

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Há algum tempo assisti um belo filme sem palavras, filmado em locações na Escócia, Quênia e no Canadá. Contava uma hipotética estória de homens das cavernas, que para sobreviverem nas terras altas tinham de manter uma chama permanentemente acesa, pois não sabiam como fazer fogo, apenas o apanhavam na natureza após um raio, por exemplo.

Quando o fogo se apagava reinava o desespero, os animais ferozes ameaçavam. Então estava dado o motivo para a guerra, para a tentativa de roubar o fogo de outra tribo. Ainda éramos nômades, o espírito do pastoreio não havia dominado nem a preocupação de produzir, comerciar etc.

Esta luta começou a cessar para uma tribo quando alguns membros desceram a montanha e conheceram outra cultura tribal, onde a argila e o fogo eram tecnologias corriqueiras. Dali surgiu um romance, filhos e a mistura entre as tribos estava feita. Uma semente estava germinando. O fogo foi o elemento de vida.

Faca de dois gumes este elemento. Assim que o conhecemos e aprendemos a dar-lhe vida, pusemos fogo no mundo. Tecnologia barata, requer pouco conhecimento, mas é muito efetiva. A partir dela devastamos florestas a mais não poder, criando pasto e campo para plantio.

Afastamos de nós a flora e a fauna, “limpamos o terreno”. Mirem por exemplo Minas, estado onde existe pouco mais pouco menos de 4% da cobertura vegetal original de mata Atlântica. Liquidamos com tudo desde os primeiros colonizadores e continuamos hoje em dia com nossas siderurgias comedoras de carvão do cerrado.

Como país subdesenvolvido que somos, vivemos estágios tecnológicos diferenciados em diferentes regiões do país. Em alguns pontos ocorre a escravidão, aliás forma de organização produtiva da qual fomos dos últimos a (supostamente) abandonar a contragosto, juntamente com Cuba.

Em outros pontos predominam estágios primitivos de capitalismo selvagem do fim do século XIX, com o regime do suadouro (sweating system) imposto a crianças e velhos, durante 12 a 14 horas por dia. Como no velho oeste continua firme o garimpo e toda a podridão que o acompanha: a prostituição escrava de meninas, o assassínio frio e impune, a poluição por mercúrio e por aí vai. Há até mesmo formas inovadoras de controle do tipo neotaylorista. Coisa muito moderna que bem condiz com a riqueza de espírito que reina atualmente.

Somos modernos e heterodoxos. Vivemos da primeira até a quarta onda. Em Roraima, enquanto alguns tentam deter a destruição, outros muitos ajudam na queima da “floresta inimiga do progresso regional”. Acredito mesmo que alguns poderosos locais devem até se regozijar com o fato. Fazer o quê?.

Por exército para caçar esta gente? Vão prender desdentados ignorantes que devem pensar que estão fazendo o certo. Afinal, para que serve aquela mata? Melhor um pasto onde possam criar seu gadinho e tentar melhorar a vida. De fato são desnaturados nascidos num lugar que odeiam. Não têm raízes que os liguem de forma positivamente afetiva. E assim, vítima de nossos enganos, se vai nossa Amazônia. Aos poucos, mas inexoravelmente.

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E o Tempo Levou…

 

Mário Flecha – Jornalista

 

À medida em que a vida passa e a infância fica mais distante, acumulamos um patrimônio de memórias que independe de nosso querer. É natural que as imagens e recordações comecem a se avolumar. É um acervo que ganhamos do ato de viver.

Quando somos novinhos a memória é uma folha em branco, somos uma esponja com sede de se embeber das coisas da vida. São fatos humanos a curiosidade e energia infantis, o seguir aos apelos e determinações biológicas, como é para o filhote de passarinho o chamado imperioso para que comece a exercitar suas asas.

Tecnologias como a fotografia, o vídeo, o cinema, soam para mim como máquinas de registrar o tempo. Não de dominá-lo, porque não se domina nada verdadeiramente, mas de colher amostras de momentos que não se repetirão nunca mais. São formas de se manter vestígios vivos, onde podemos praticar esta coisa humana que é recordar, reviver, lembrar juntos, elaborar, sofrer, emocionar, rever criticamente, enfim, fazer uso da memória a partir destes índices de nossas presenças neste mundo tão mais duradouro que nós.

Quantos nascimentos e mortes vivemos em nós e além de nós. Sinto claramente que nascemos e morremos muitas vezes no espaço de uma vida. Vejo os que vieram depois de mim crescendo e miro o futuro incerto. Eu me angustio principalmente pelas crianças, nossos filhos. Lembro-me de pessoas queridas que se foram e me lembro de um tempo em que não havia mortos em meus álbuns de fotografia. Hoje, as imagens destes mortos ganharam muitos e novos significados, geram novos sentimentos, agitam a placidez dos lagos da memória.

São muitos os cenários: Alfenas, Petrópolis, Formiga, Diamantina, BH e muitos outros. BH predomina e ocupa um pedaço importante de minha pré-adolescência, adolescência e vida adulta. Inevitavelmente passamos a ter elementos de comparação entre um tempo e outro.

Não trato a tudo isto como mera nostalgia, aquela tendência a ver no passado os dias melhores, o que alguns chamam de “no meu tempo”. Ora, se estamos vivos, nosso tempo é aqui e agora. Ou será que é lícito se aposentar da vida antes da morte? Entretanto me parece aceitável e muito possível que, com um olhar objetivo e crítico, identifiquemos coisas boas e ruins de agora e de antes. Esta é uma perspectiva da história que devemos sempre exercitar.

Outro dia mesmo, li um fragmento de texto de um destes franceses que viajaram pelo Brasil no século passado. Era um relato onde o autor dizia que não podia deixar de se incomodar ao ver cenas que presumia, ou não pensava, que ainda pudessem acontecer.

A cena era a de meninos ricos seguindo para a escola, acompanhados de pequenos criados e abordados por meninos pobres e pedintes. Não era raro que tais senhorzinhos se encontrassem no caminho e entabulassem conversa entre as baforadas de seus charutos. Mudaram as formas mas a desigualdade continua a mesma.

BH mudou e perdeu coisas valiosas. Lembro-me que a casa de meus avós possuía apenas um gradil à altura da cintura, hoje os muros e grades são altos, tudo tem porteiro e interfone. Os meninos da favela do Papagaio, no Santo Antônio, faziam pequenos serviços de jardinagem e ajudantes de feira, brincavam de rolimã conosco e tinham um nome e identidade no bairro. Hoje tornaram-se pivetes indiferenciados, marginalizados e temidos. As ruas tornaram-se proibitivas para andar e brincar, os prédios fecharam a linha do horizonte e sobrecarregaram as redes e ruas.

Ontem mesmo fui assaltado num sinal. Ameaçado de levar um tiro nas costas, por um rapaz mirrado e desesperado que se dizia aidético. O fato me ajuda a encerrar este texto com esta pergunta: isto é o progresso e a modernidade? É neste lugar e estado de coisas que queremos ver crescerem nossos filhos? BH, como a Itabira de Drummond, é só um retrato na parede? O pior é a quase certeza de que as coisas vão piorar.

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Janelas de Oportunidades

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Nada melhor que dados conclusivos para amparar hipóteses e retirá-las da mera suposição para o terreno mais sólido das possibilidades e do real. Tive acesso a um texto publicado em 1996 na Internet (http://www.oecd.org/dsti/sti/s_t/inte/prod/kbe.htm) pela Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento – OCED e a um estudo preliminar do pesquisador Eduardo da Motta e Albuquerque baseado no relatório OCED. Trata-se de um material que divulga um conjunto de pesquisas e dados estatísticos, assim como análises desenvolvidas sobre estes dados.

Evidencia-se claramente aquilo que agora, em 1998, mais se comprova. A expansão de um fosso de exclusão de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento devido às exigências do processo de globalização. Exigências estas advindas de uma Economia Baseada no Conhecimento – EBC.

Entretanto, abrem-se janelas de oportunidade para aqueles países que souberem aproveitar o momento, pois um novo mercado começa a surgir, com muitas e novas chances, uma vez que poucos oligopólios estão consolidados. Em suma, é ainda uma economia onde os grandes não devoraram os pequenos e a competição é até certo ponto possível e regulada pelo mercado, como gostam de dizer os neoliberais.

Esta economia (Knowledge Based Economy – KBE) é definida pela existência a priori de um sistema nacional de inovação amadurecido institucionalmente, calcado em fortes investimentos em pesquisa e desenvolvimento e com o aparato universitário mais estreitamente ajustado às demandas dos setores produtivos. Esta vinculação deve expressar-se pelo fortalecimento e investimento na infraestrutura de produção de conhecimento, especialmente aquele relacionado às tecnologias de comunicação e informação.

Também é necessária a construção de uma infraestrutura informacional como consequência e, ao mesmo tempo, como mola propulsora da revolução que está sendo gerada pelas tecnologias de comunicação e informação. Finalmente, um deslocamento e sofisticação do trabalho, o qual passa a se concentrar na produção e transmissão de conhecimentos.

Uma EBC caracteriza-se por uma dinâmica baseada na formação, codificação e acumulação de conhecimento tácito, pela utilização intensa de redes automatizadas de conhecimento e visível aumento do aprendizado baseado em processos interativos. Neste ponto, vários pesquisadores concordam em uníssono nas muitas oportunidades existentes para nós, países atrasados. Concordam inclusive numa coisa a que chamam “vantagem no atraso”, pois teríamos menos problemas em adotar tecnologias novíssimas, enquanto os países mais avançados teriam de arcar com maiores custos devido aos investimentos já feitos em tecnologia anterior. Tenho dúvidas quanto a isto, mas não deixa de ser um alento.

As estatísticas demonstram cabalmente o G-7, e nele os EUA, como os países onde mais visivelmente se realiza concretamente a expansão e a crescente oligopolização do mercado baseado nas tecnologias de comunicação e informação.

Cabe um questionamento enfático sobre o que estamos fazendo com nossos parcos 0,8% (segundo os dados informados nos relatórios) de investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento? Que políticas efetivamente estão sendo estabelecidas e aplicadas na construção de uma infraestrutura informacional e formação de trabalhadores qualificados?

Deve ser muito pouco, pois o próprio esquartejamento a ser feito em nossas empresas do grupo Telebras, segundo o modelo de privatização adotado, demonstra no mínimo a cegueira que nos guia. Estas empresas são estratégicas na construção de nossa infraestrutura informacional e provavelmente irão se tornar meras filiais de empresas de telecomunicações daqueles que sabem melhor para onde estão indo.

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A Cultura do Mito

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Não tenho maiores simpatias pelo Sr. Bill Gates. Seu sucesso pouco me interessa, desde que não me prejudique (o que de alguma forma ocorre, pois somos afetados pelo multinacionalismo da Microsoft e os “bugs” do windows). Como já disse o poeta Fernando Pessoa, “o mito é o tudo que é nada”. Ou seja, de perto todo mundo é normal (ou ninguém é normal, como disse Caetano Veloso ou alguém citado por ele).

Meu gancho é o vexame ou o gosto pelo vexame e execração dos famosos, a celebração do vexame pelas mídia. Quem é muito exibido e se acha investido de muito poder e fama tende a ficar ou já deve ser muito vaidoso e prepotente. Pode mais que os outros. É o caso da velha frase “sabe com quem está falando?”.

Daí que são vários os casos: uma Hortência da seleção brasileira de basquete agride uma dentista no trânsito e fica por isto mesmo, jogadores da seleção brasileira que passam pela alfândega na marra, gerando até renúncia de Secretário da Fazenda que quer fazer que cumpram a lei os ungidos, polícia que entra em espetáculos na base da carteirada ou Rolling Stones violando código de trânsito nas estradas (para não falar nos carros de nossas autoridades políticas que trafegam em alta velocidade).

Lógico, portanto, sentir um certo gostinho quando os graúdos ou os que abusam ou transbordam o poder caem, cometem gafes e são expostos pelo menos a alguma forma de ridículo. Há entretanto outro lado. O lado da inveja de cada um que, na verdade, dada a impossibilidade de estar no lugar do invejado, celebra todas as suas derrotas. Ora, as mídia não poderiam perder oportunidade, desde que há combustível para queimar. Basta jogar lenha na fogueira das vaidades e invejas e fazer render assunto.

Quem convive com o Windows conhece muito bem seus “bugs” de execução, as famosas travadas que inevitavelmente levam a um “reset” para as coisas voltarem ao normal. Os mais desavisados aprendem as duras penas que é sempre bom armazenarem de tempos em tempos o trabalho que estiverem fazendo para não amargarem a perda de horas de trabalho.

O sucesso empresarial de Bill Gates é baseado no mito sobre sua pessoa, o que pode ser também o elemento que faz a casa cair. Aquele sorriso de bom rapaz, exibido em seus livros, que convence a leitores de obras do tipo “como fazer sucesso em cinco lições” pode não ser capaz de convencer mais ninguém. Uma coisa no entanto é certa: Bill Gates não termina mais na sarjeta nem fica desempregado. Quantos dos casos que conhecemos vão à lona totalmente? Duvido que o Sérgio Naya ou os anões do orçamento estejam ou tenham ficado mal. Os Ibsen Pinheiro, os Quércias, os Collor e outros mais. Deram azar, mas vão continuar bem e talvez nem vejam sua fortuna se abalar, pelo contrário.

Ainda assim a imprensa tem um papel fundamental para a garantia da democracia, pois expõe o poder e estabelece limites que bem ou mal, burros ou inteligentes devem ser respeitados. Este é o preço que se paga pela fama, poder, prestígio e riqueza. A imagem torna-se algo muito mais valioso que a verdade.

E se a imagem é quebrada, o mito revela o nada de que é feito. Sempre me lembro do Mágico de OZ, escondido e usando daquele aparato todo para manter todos aterrorizados. Quando é descoberto não passa de um sujeito esperto, mas bem normal.

Seu poder vinha de sua lábia e capacidade de representar, amparado pela ignorância alheia e artefatos de ilusão. O interessante do poder da imprensa é que ela é ao mesmo tempo o artefato que ilude e que substitui uma ilusão por outra. Rara é a situação em que a realidade é revelada em toda sua extensão.

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Habilitação para Político

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Há pouco viu-se a entrada em vigor do novo Código de Trânsito Brasileiro – CTB. Um código moderno sob muitos aspectos, como foi também a primeira Constituição Brasileira, de acordo com os princípios liberais da época. Há uma diferença significativa, entretanto, quanto ao desejo e participação da população. O CTB foi produto do desejo direto e manifesto de uma parte razoável da população, para tentar conter os absurdos que ainda hoje se praticam (o código é apenas parte da solução).

Ora, se somos capazes de reconhecer a seriedade dos problemas de nosso trânsito, de suas consequências e sequelas, custos e traumas, podemos e devemos ter condições de atribuir o peso da responsabilidade a todos aqueles que estão envolvidos nesta situação: autoridades, motoristas e pedestres. Categorias que podem se sobrepor num mesmo indivíduo, pois não são mutuamente exclusivas.

Se podemos avaliar e exigir rigor na habilitação de motorista é porque reconhecemos que tem um papel de grande responsabilidade, cujos atos geram graves consequências. É inadmissível o alcoolismo, a impunidade, a imaturidade, o desequilíbrio emocional e psicológico, a corrupção.

Intrigam-me a lacuna e o vazio imenso que existe quanto a conduta ética, habilitação, responsabilidade imputável, processo de admissão e escolha dos políticos em geral. Neste campo vivemos na idade da pedra, onde vale o pugilismo, a lei do mais forte, o poder do dinheiro que compra o acesso à política, à imunidade parlamentar, às decisões entre quatro paredes.

Somos de natureza contraditória, mas não precisamos ser tanto. Proíbe-se algumas drogas mas se incentiva o alcoolismo e o cigarro; condena-se a prostituição mas se convive com anúncios, propaganda de sexo e trottoir; condena-se a corrupção e nepotismo dos outros mas é aceitável quando é com os nossos. Está certo, não somos perfeitos. Mas podemos melhorar e muito!

Por que um político (que em dado momento pode declarar guerras, assumir dívidas, decidir pela vida de outros, assinar decretos que selam o destino de muitas vidas) pode atingir posição decisiva sem nenhum processo seletivo seriamente institucionalizado? Processo este que garanta que o mesmo está em plenas condições físicas e mentais, além daquilo que é de praxe, como bons antecedentes, inexistência de processos em julgamento e outros impeditivos legais.

Se formos verificar, provavelmente encontraremos diversos dispositivos legais, pois para isto somos ótimos. Legiferamos para aplacar crises de consciência, numa espécie de catarse onde substituímos a solução real por um descarrego emocional (lembram-se do pão & circo?).

São conhecidos os casos de políticos e autoridades alcoólatras, envolvidos em escândalos sexuais e criminais. O acesso ao poder deveria ser mais dificultado no sentido de filtrar e garantir, um mínimo que seja, a habilitação de pessoas equilibradas, com conduta abalizada e fiscalizada, com atitudes serenas e ponderadas, firmes e responsáveis.

Um simples ato (passional, corrupto ou incompetente) pode significar a sentença de morte de muita gente; seja por desemprego, desnutrição e causas deste tipo, que matam mais que pena de morte em cadeira elétrica.

Se com tudo isto o embate político e a luta por interesses de contrários ainda permanecem é porque a política não é o domínio da razão absoluta, mas sim de diversas razões e motivos diferentes. Entretanto devemos aceitar que a vontade de bandoleiros ou individualistas prevaleça sobre o interesse da coletividade? O poder de fiscalização das instituições não é suficiente. A cidadania deve exercer seu papel denunciando e exigindo investigação e punição onde assim couber.

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Olha a Faixa!

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Srs. Responsáveis pela aplicação e fiscalização do Código de Trânsito Brasileiro, mais especificamente em nossa BH, este é um pedido, mas ao mesmo tempo uma reclamação baseada num direito. Por favor, apliquem com todo rigor e determinação possíveis aquele trecho do código que reza sobre o respeito ao pedestre. Melhor seria ao ser humano, pois diz respeito também ao pedestre em relação a suas obrigações no trânsito.

De carro, sempre que possível, protejo e dou preferência ao pedestre, independente de faixa. Isto, entretanto, às vezes é impossível devido à ferocidade veloz com que alguns motoristas transitam. Se você parar é certo que causa um engavetamento e no mínimo danos materiais. A solução deve vir de um conjunto de medidas fiscalizadoras e educadoras para que este respeito brote e se fortaleça num meio onde se misturam falta de educação, de consciência, de informação, muita má vontade, pressa e individualismo ao ponto do doentio..

Dia desses, João das Neves, um caro amigo e mestre das artes cênicas, estava contando das transformações ocorridas no trânsito de Brasília, uma cidade consagrada ao carro. O governador Cristóvam Buarque resolveu dar um basta ao abuso antes mesmo do CTB começar a vigorar.

Não teve meu-pé-me-dói, já que no trânsito todos voltam à idade da pedra e só entendem a linguagem da força. O agente refreador foi mesmo a multa pesada, constante, obstinada. Fiscais de trânsito atuantes e constantes mudaram o quadro. O João se admirou quando, mal fez o gesto de atravessar um daqueles avenidaços, os carros todos pararam para que ele pudesse cruzar a avenida.

Milagre dos milagres” pensou ele admirado. Estarei eu no Brasil? E lá se foi com uma agradável sensação de estar num lugar onde se é respeitado simplesmente porque é assim que se deve tratar pessoas. Afinal valemos mais que nossos carros.

Por opção econômica, antiestresse e antipoluição aderi aos ônibus. Não pensei que fosse tão bom. Porém isto me fez sentir, ainda mais, o problema do quase natural estado de desrespeito ao pedestre que impera em nossa (pacata?) cidade. A gente se surpreende positivamente quando alguém para para dar passagem. É uma raridade, e provoca uma sensação muito boa, que é a de simplesmente ser tratado com o devido respeito.

De outro lado temos os pedestres. Inconscientes e mal-educados em sua maioria. Toureiros das avenidas, descuidados ou provocativos, frágeis e muitas vezes arrogantes na guerra contra os carros. De seu direito não têm consciência, por isto morrem às centenas. Ademais, segundo li em estatísticas recentes, 56% dos atropelados são bêbados (imaginem o que temos de motoristas no mesmo estado), num país onde ainda se enaltece o ato de beber até cair.

O número de atropelamentos certamente deve diminuir se conseguirmos vencer esta luta contra a brutalidade do trânsito. Nunca vi uma campanha enfática sobre o respeito à faixa e ao pedestre, nem jamais vi um policial multando quem quer que fosse por esta infração.

Por favor, repito, vamos mudar este estado de coisas. Prefeitura, por que não pintam faixas onde estão apagadas e colocam placas de advertência para os motoristas? PM que tal blitzes relâmpago em pontos-chave e multas aos muitos e muitos infratores?. Quão valiosa e educativa pode ser uma campanha dessas para fazer surgir com mais clareza o significado de cidadania.

Não subestimem a importância destas medidas. Elas têm mais significado do que aquilo que atingem diretamente. Elas podem indicar um caminho que mal temos trilhado. Doa a quem doer, implantem o CTB com ênfase na proteção ao pedestre. Não fiquem apenas aprisionando os casos extremos. Isto não causará tantas mudanças quanto as que podem ser iniciadas a partir do cumprimento de certas regras básicas de respeito ao próximo e à coletividade.

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Central do Brasil

 

Mário Flecha – Jornalista

Até que enfim alguma coisa madura em nossa filmografia recente. O nível geral de nosso cinema parece estar apresentando sinais de melhora, enquanto a música veiculada pelas mídia continua chafurdando na lama. Espero em Deus ver passar esta onda de baixaria e ver ressurgir o gosto e a capacidade de apreciar qualidade, de forma que não se tenha o desprazer de ver pérolas atiradas aos porcos.

Havia parado de assistir cinema brasileiro, cansado de títulos com Brasil (Bye, Bye Brasil, Bar Brasil), de temas que exploram as mazelas do país, pornografias, guerrilhas, ditaduras, machismos, comida baiana, romances de época, desastres amorosos etc. Aquele lengalenga que fez Jabores e outros se locupletarem com uma crítica safada e politiqueira.

Fui assistir a Central do Brasil não esperando muito além da mesmice de sempre. De fato o filme repisa velhos temas mas o faz de uma forma digna e competente, que dá vida e energia ao que parece mais que repetido. Parece que Walter Salles cuidou até mesmo de proteger seu pequeno ator para evitar que se arrebente como aconteceu com o Pixote. Uma entre tantas vítimas na longa lista de mortes e impunidades que caracteriza a ação policialesca no Brasil.

Fernanda Montenegro está mesmo fantástica. Não esperava tanto de uma mulher tão fina, no desempenho de uma personagem tão pobre. Seu papel foi muito bem costurado e ela mostra toda sua competência. É uma produção barata, que nos coloca no nível de um filme como o cubano Morango e Chocolate. Ambos são obra da competência e criatividade para fazer cinema fino com orçamentos baixos.

Central do Brasil não tem nada de Brasil ufanista, que fica escondendo suas mazelas debaixo do tapete. É um filme pobre, sobre a infinita pobreza do Brasil, desde o sul até o norte. Não é um filme de draminhas existenciais ou amorosos de zona sul. É um filme que conta uma estória comum, terrivelmente real e chocante pela banalidade das coisas.

O filme deixa aberta a janela da esperança e da ternura. Comove porque é muito humano e conseguiu atingir a universalidade livrando-se do ranço regionalista ou daquela marca de filme brasileiro “de arte”. É um filme de arte sem clichê.

Será o prenúncio de uma nova era em nosso cinema? Esperemos que sim. O cinema cumpre um papel importante na formação da consciência, na crítica, na reflexão e no sonho de um povo. Temos o que contar e mostrar em nossas telas. Algo que possamos nos orgulhar e nos consolar. Um dia seremos um grande país para todos. Com justiça social e condições de vida digna. Há que se distribuir a riqueza produzida por tantos e possuída por tão poucos. Há que se dar chances iguais de realização nesta vida para merecermos o status de grande país.

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Fome de Viver Bem

 

Mário Flecha – Jornalista

 

É imoral aquele que luta pela própria sobrevivência e a dos seus enquanto afunda cada vez mais na marginalidade? Quem passa fome tem preocupações mais imediatas que questões de cunho moral. Estaria errado aquele que se coloca ao lado dos esfomeados e esquecidos? Mesmo sabendo que há os oportunistas; seriam eles todos oportunistas?

Nosso presidente é um homem estudado. Passou por universidades de renome mundial e se dedicou muitos anos ao estudo dos problemas brasileiros. Não se deve menosprezá-lo. Reúne condições que poucos presidentes já apresentaram para a condução do país. Suas preocupações com a manutenção de um clima pacífico, onde as soluções sejam encaminhadas de forma racional e cooperativa são muito justas. Seria um irresponsável se assim não fosse.

Entretanto, FHC é humano, sujeito à vaidade, à sedução e ao erro como todos nós. Acho que errou com relação às causas sociais, não por deixá-las totalmente de lado, mas por não as priorizar dentro de um verdadeiro projeto social-democrata mais parecido ao que Ciro Gomes e outros candidatos vêm propondo.

Tem falhado na capacidade de se antecipar a problemas que funcionam como verdadeiras bombas-relógio. Este me parece o caso da fome nordestina, da exploração infantil, do desemprego, da violência, da destruição da mata amazônica e tantos outros.

A vida vale pouco em nosso país. Pudéssemos reunir todos os cadáveres de crianças, homens e mulheres mortos pela violência no trânsito, pela violência policial, criminal e do trabalho. Assim como a desnutrição e doenças causados por falta de saneamento básico e todas as demais causas, típicas do abandono e mau trato, veríamos com clareza o tamanho desta lista de execução sumária.

As cenas do holocausto chocam nossas mentes primárias, movidas pelos sentidos imediatos. Porém os dados de nossa realidade não são abstratos. Apenas não podem ser mostrados por uma câmera, em sua real magnitude, o miasma da morte e a decomposição.

Yes. Temos pena de morte sim. Cinicamente é verdade, mas evidente nos fatos que demonstram quão pouco vale uma vida aqui. Acostumados que estamos com nosso cotidiano que assim se vai levando. Há uma escolha e vontade coletivas, uma atitude tácita e não declarada. Aceitamos e toleramos, permissivamente calamos. Por isto, por muito menos achamos um exagero reclamar por direitos básicos e nos submetemos a esta ordem e estado de coisas.

Aceitamos ser escorraçados por carros, ser mal atendidos nos guichês, enganados pelos políticos que elegemos, vilipendiados em nossos direitos mais básicos. Aceitamos, por isto mesmo, a corrupção do dia-a-dia, a falta de ação de nossas autoridades diante das coisas mais corriqueiras e comezinhas. Só se preocupam com o que pode dar ibope, chamar a atenção, ou quando eventualmente cutucados ou colocados na berlinda. Claro, culturalmente preferimos um linchamentozinho de vez em quando para aplacar as consciências e não mudar nada.

Estamos numa encruzilhada. Uma grande massa semi-adormecida querendo acordar, esboçando lampejos de consciência e organização política, descobrindo que o que parece um capricho chama-se direitos do cidadão em países mais bem resolvidos. Descobrindo que a esperteza da “Lei de Gerson” é burra e só contribui para tornar nosso dia-a-dia pior. O preço para levar vantagem em tudo é muito alto. O esperto vê má fé em tudo e todos; vive de desconfiar e enganar para não ser enganado e perder o status de esperto. É uma concepção miúda da vida.

Por que não viver de forma serena e calma, num lugar onde se pode deixar as portas destrancadas, os brinquedos no pátio; sem dengue, sem medo de atropelamentos e bêbados, podendo andar tranquilo pela noite da cidade. Isto é possível e corriqueiro em muitos lugares do mundo capitalista inclusive.

Não se esqueçam de que pelos dados da Unesco o Brasil disputa a liderança de país mais violento do mundo com a Colômbia. Ou seja: raridade asquerosa é o que somos. O estado de baixaria em que vivemos é que é incomum. Podemos ter vida muito melhor, com a qualidade que só a paz, o respeito mútuo, o cuidado com as crianças, as condições básicas de existência, o trabalho bem remunerado, o estudo e a saúde podem propiciar.

Busquemos este bem-estar no mundo, sem o equívoco da filantropia caridosa. Quando os que nos rodeiam estão bem nos beneficiamos diretamente. Não é uma visão egoísta nem a de um mártir ou santo autoflagelado. Para nosso próprio bem e fome de viver é necessário que os outros também estejam bem. O bem que o individualismo permite é minúsculo e medíocre, cercado de medos e tensões. A concepção da felicidade dentro de um ovo não passa de auto-ilusão.

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Central do Brasil

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Até que enfim alguma coisa madura em nossa filmografia recente. O nível geral de nosso cinema parece estar apresentando sinais de melhora, enquanto a música veiculada pelas mídia continua chafurdando na lama. Espero em Deus ver passar esta onda de baixaria e ver ressurgir o gosto e a capacidade de apreciar qualidade, de forma que não se tenha o desprazer de ver pérolas atiradas aos porcos.

Havia parado de assistir cinema brasileiro, cansado de títulos com Brasil (Bye, Bye Brasil, Bar Brasil), de temas que exploram as mazelas do país, pornografias, guerrilhas, ditaduras, machismos, comida baiana, romances de época, desastres amorosos etc. Aquele lengalenga que fez Jabores e outros se locupletarem com uma crítica safada e politiqueira.

Fui assistir a Central do Brasil não esperando muito além da mesmice de sempre. De fato o filme repisa velhos temas mas o faz de uma forma digna e competente, que dá vida e energia ao que parece mais que repetido. Parece que Walter Salles cuidou até mesmo de proteger seu pequeno ator para evitar que se arrebente como aconteceu com o Pixote. Uma entre tantas vítimas na longa lista de mortes e impunidades que caracteriza a ação policialesca no Brasil.

Fernanda Montenegro está mesmo fantástica. Não esperava tanto de uma mulher tão fina, no desempenho de uma personagem tão pobre. Seu papel foi muito bem costurado e ela mostra toda sua competência. É uma produção barata, que nos coloca no nível de um filme como o cubano Morango e Chocolate. Ambos são obra da competência e criatividade para fazer cinema fino com orçamentos baixos.

Central do Brasil não tem nada de Brasil ufanista, que fica escondendo suas mazelas debaixo do tapete. É um filme pobre, sobre a infinita pobreza do Brasil, desde o sul até o norte. Não é um filme de draminhas existenciais ou amorosos de zona sul. É um filme que conta uma estória comum, terrivelmente real e chocante pela banalidade das coisas.

O filme deixa aberta a janela da esperança e da ternura. Comove porque é muito humano e conseguiu atingir a universalidade livrando-se do ranço regionalista ou daquela marca de filme brasileiro “de arte”. É um filme de arte sem clichê.

Será o prenúncio de uma nova era em nosso cinema? Esperemos que sim. O cinema cumpre um papel importante na formação da consciência, na crítica, na reflexão e no sonho de um povo. Temos o que contar e mostrar em nossas telas. Algo que possamos nos orgulhar e nos consolar. Um dia seremos um grande país para todos. Com justiça social e condições de vida digna. Há que se distribuir a riqueza produzida por tantos e possuída por tão poucos. Há que se dar chances iguais de realização nesta vida para merecermos o status de grande país.

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A Volta da Censura

 

Mário Flecha – Jornalista

 

As sementes da ditadura estão sempre dispostas a brotar. Veja-se o que vem acontecendo há cerca de mês e meio em BH. Os cinemas da cidade foram notificados pelo juizado de menores e passaram a impedir a entrada de crianças acompanhadas de seus pais ou responsáveis.

Quem decide o que seu filho pode ou não assistir no cinema agora é a censura. Lembra-se da placa “proibida a entrada de menores de ….”? Pois é, a mensagem indicativa que sugere a idade, mas faculta aos pais a decisão, foi derrubada arbitrariamente por um filhote da ditadura. No silêncio, autocraticamente, unilateralmente, como só eles sabem fazer.

De hipocrisia e cinismo o Brasil anda cheio, mas isto está indo longe demais. A cidade está inundada de cartazes anunciando a “love line”, o Aeroporto Internacional de Confins exibe cartaz que anuncia que as melhores curvas de Minas não são as montanhas e convida para uma dessas Sagitarius da vida (prostituição é o melhor do turismo que temos para oferecer ao que parece), a TV e suas novelas com cenas de estupro, violência, maus hábitos e costumes perversos e fúteis, as letras dos Mamonas Assassinas, Bolachinhas, Tchãs e outros mais que cobrem o território nacional de ponta-a-ponta. E querem censurar o cinema e o teatro. A troco de quê?

O silêncio submisso e apático me deixa mais perplexo ainda. Vamos deixar que entrem em nosso jardim, pisem nossas flores, invadam nossas casas e consciências para só depois tomarmos uma atitude? quando já for tarde demais? Estes males se deve cortar pela raiz.

A democracia periga diante de fatos deste tipo, ainda mais se nos mostramos apáticos e sem reação. É preciso alguma ação de partidos, entidades, personalidades públicas em condições de repudiar este ato e questioná-lo publicamente. Que expliquem com muita clareza a motivação para uma decisão tão arbitrária, equivocada e ofensiva à liberdade.

A última coisa que precisamos neste país é de ações moralistas desta natureza. O que mais precisamos é de lucidez, bom senso e desejo de promover o bem de forma objetiva. Cinismo, hipocrisia, autoritarismo e coisa que valha, a duras penas erradicamos em parte. Não deixemos que estes tormentos e abusos voltem a ter espaço entre nós. Por que não vão cuidar das crianças abandonadas que grassam em nossa cidade, lutar contra a prostituição infantil, a violência cometidas por pais, o aliciamento para a prostituição e tantos outros males que envergonham tanto nossa terra? Na falta de terem o que fazer resolveram reviver a censura?

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BHBusy

 

Mário Flecha – Jornalista

 

Acho que os mentores do BHBus deviam fazer uma séria reflexão sobre a forma como estão conduzindo este projeto, especialmente naquilo que está relacionado aos aspectos de responsividade e responsabilidade da BHTrans. Segundo pude entender de entrevistas e informações que obtive no espaço reservado ao BHBus no site do NetMinas, eles estão adotando uma postura passiva diante dos problemas que criaram, pois agem conforme o número que reclamações que recebem (e provavelmente conforme a força do lobby).

O fato é que a linha de ônibus que servia ao meu bairro, 4901 atual 4112, foi de boa para pior e acrescentou um percentual bem grande de inferno e desconforto à vida de muitas pessoas, só contribuindo para degradar ainda mais a qualidade de vida. Eu mesmo antes do BHBus entrar em vigor tinha optado por deixar de usar o carro para aderir ao ônibus, que passa tanto na ida quanto na volta defronte minha casa.

Estava dando tudo certo quando chegou o BHBus e inviabilizou minha proposta (e olha que isto parece ser o objetivo explicitado por ele). Hoje, o único beneficiário do BHBus em nosso bairro Carlos Prates é o dono da linha de ônibus, que reduziu seus custos.

A BHTrans devia se mexer mais, ir a campo e mostrar a cara, fazer pesquisa “in loco” e comprovar o que vem acontecendo, ao invés de manter um discurso de que foi tudo um sucesso. Mentira. Não foi. Entretanto acredito que tenha sido algo feito com boas intenções (apesar do inferno estar cheio de bem intencionados). Lembro um dito de um dos livros de Guimarães Rosa: “…desejar por demais o bem de maneira incerta, aí está o mal a principiar…”.

Vejam que não estou criticando por criticar. É na posição de vítima do projeto. Confesso que tentei continuar utilizando ônibus, porque esperava medidas corretivas, mas elas não vieram. Levantei mais cedo e peguei ônibus antes das sete para tentar ir sentado e lendo, ou pelo menos comprimido como sardinha enlatada, mas nada. Os ônibus vêm lotados desde cedo e logo no começo de sua rota. Passam pelo centro e aí a coisa raia o desespero.

Mesmo no horário de almoço, em que circulavam razoavelmente mais vazios, o quadro é sempre o mesmo: lotação máxima. Os motoristas e trocadores são unânimes: a linha tinha 22 ônibus e agora está reduzida a 11. O tempo era regular e não passava muito dos cinco minutos. Agora a irregularidade domina e fica numa faixa de no mínimo 9 e eu já esperei até trinta minutos. E querem saber mais? Segundo a BHTrans nossa linha não está entre as dez piores, pois não ganhamos no número de reclamações. Parece que é assim: quem ligar mais ganha a atenção. Método fraco este, pois existem muitas condições objetivas que podem fazer que as pessoas não liguem reclamando, mas o problema está lá. Um problema que deve ser resolvido por quem o criou.

Outro dado importante, do qual já reclamei quanto à coleta de lixo, é a sempre privilegiada zona sul. Pelos amigos e parentes desta região, que porventura andam de ônibus, a coisa parece que só melhorou. Por falar em piora e melhora visitem a nossa versão belo-horizontina da Devastolândia, ali na avenida Paraná, cujo ponto alto é a esquina com Caetés. O poeta Elliot em seu poema “Waste Land” de certa forma alude àquele quadro de degradação, pelo qual a prefeitura não é a única responsável.

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O Mal que nos Fazemos

 

Mário Flecha – jornalista

 

As elites que governam um país onde o critério de escolha é baseado no voto, ao invés do uso explícito das armas e de uma ditadura militar necessitam de mecanismos de convencimento e persuasão capazes de sustentar ideologias, crenças, hábitos e um sem-número de elementos que compõem o “status quo”. Independentemente de seus bons ou maus valores e intenções, alguma competência é necessária para a manutenção de uma situação estável, pacífica e relativamente equilibrada para que o processo de produção da riqueza funcione com poucos traumas.

Esta estabilidade é particularmente necessária ao capitalismo, dado seu caráter intrinsecamente conflituoso, devido aos desequilíbrios que produz em função das desigualdades sociais em que se baseia. Neste modo de produção, para que a acumulação da riqueza nas mãos de poucos se justifique e possa se perpetuar é necessário um forte sistema de manutenção de crenças, onde participam enfaticamente a religião, o sexo, o consumismo, o ideal individualista, a promessa de oportunidades e empregos, liberdade para enriquecer, a recompensa ao esforço individual e a proteção exacerbada à propriedade privada. Esta última em geral mais valorizada que a própria vida humana.

Quando interessa, também o nacionalismo e o sentimento pátrio são invocados, muito embora com a globalização (ou seria o neologismo englobalização?) os conceitos de nacionalismo e pátria acabem por se tornar algumas vezes “pedras no sapato”.

É dentro deste caldeirão borbulhante que convivemos com muitas perversões do ser humano, numa espécie de tragicomédia onde os anões do rei animam as massas com suas perversidades risíveis (Faustões e outros mais). Ocorre que mesmo sendo um sistema de forças inconciliáveis, o capitalismo tem de buscar sempre formas cada vez mais competentes para alimentar o seu sistema de ilusões e controle dos conflitos sociais. Isto requer um substancial investimento, energia e competência dos agentes das elites que ocupam e disputam o poder. É aí que a coisa pega no Brasil varonil.

Se pudéssemos estabelecer um índice para medir a competência das elites governantes dos países capitalistas creio que deveria ser algo baseado no percentual de incidência de conflitos, de mortes violentas, de criminalidade desenfreada, de manifestações claras de crime organizado dentro e fora das instituições governamentais e privadas, de ignorância da população, fragilidade das instituições democráticas, práticas e crenças anticidadania (quanto mais alto este índice mais incompetentes as elites no poder e mais brutais as suas soluções anticonflito).

Países capitalistas estáveis e em boas vias de desenvolvimento num mundo globalizado serão tão mais competentes quanto mais forem capazes de fazer baixar o índice das mazelas citadas. Obviamente no Brasil não podemos dizer que estejamos indo bem em termos da saúde social. As elites estão conseguindo produzir um inferno em volta de si e com isto arrastam de roldão o resto da sociedade.

Já fui mais xenófobo com relação às nações hegemônicas. Atualmente acho que quem convida o vampiro para entrar em sua casa é o principal responsável pelos males com que convive. São as escolhas feitas por nossa sociedade, seus valores mais arraigados que produzem a realidade na qual estamos. É boa? É o legado que queremos para nossos descendentes? É esta a qualidade de vida que queremos ter? Este é o enigma desta esfinge: Decifra-te ou devora-te.

 

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O Mal no Atacado

 

Mário Flecha – jornalista

 

Por perverso que seja um único indivíduo, o que pode ele na imensidão do mundo? Para que tenham existido e renasçam Calígulas, Hitlers, Stalins, Pinochets, Médicis, Somozas, Getúlios e tantos outros carrascos e tiranos há de haver um sem-número de demônios menores desde seus staffs diretos até os reprodutores das ideologias tenebrosas em toda a sociedade. Ser mau em si é até risível, tal o grau de esforço necessário para isto.

O indivíduo mau é o ressentido, o machucado, o psicopata sem remorso e culpa. Estes por si nada podem além de sua pequena esfera de influência pessoal. Precisam encontrar eco, situação fértil para que sua perversidade encontre terreno e apoio para se desenvolver em escala social.

O mal em escala municipal, estadual, federal ou mundial, este sim causa danos sociais. A autoridade corrupta e seus corruptores, o lobby dos poderosos, a ignorância das massas, o poder do corporativismo burocrático, a venalidade dos eleitores, a miséria e marginalização, o sistema produtivo que engendra a concentração de riqueza nas mãos de poucos, o comércio do sexo e das drogas construído sobre a necessidade de sobrevivência e o desespero, o consumismo e a valorização de costumes negativos construídos e reproduzidos pelos meios de comunicação.

Tudo está interligado na teia da vida como já disse o chefe indígena Seattle. Assim por que seria diferente com o mal? A violência que vivemos e vemos tão banalizada em nosso dia-a-dia no Brasil é parte de nós, desde os praticantes diretos da mesma até os que ficamos sentados diante da TV inertes ou praticando nossos pequenos atos de mesquinhez, individualismo, corrupção. Somos uma sociedade podre na raiz e enquanto a profundidade de nossas crenças não vier à superfície não há mudança verdadeira.

Somos o que somos porque assim o queremos em nossa maioria. Assim reproduzimos e ampliamos os males dos quais padecemos. Desta forma é que prevalece a “Lei de Gerson”, a esperteza, a má fé nos negócios, nas vendas, no atendimento uns aos outros, a descortesia no trânsito, o desrespeito aos mais velhos, às crianças, às mulheres, aos negros, aos índios, a quem trabalha e estuda entre tantos outros. Esta é a face mais forte do Brasil atual. Não nos resolvemos. Há 500 anos está bem vivo entre nós o lusitânico espírito de daqui tudo levar sem deixar nenhum projeto de país. Somos os pivetes sem pai nem mãe soltos em nossa imensa extensão territorial, sobrevivendo na lei da selva que criamos, na Terra de Murici, onde cada um tenta levar vantagem em tudo, sobreviver de suas pequenas trombadinhas, se proteger da ferocidade e vilania circunvizinhas.

Os números dos gastos com artifícios de segurança individual não mentem. São a expressão da insegurança a qual chegamos. Pequenas cidadelas com porteiros, circuitos de TV, guarda-costas, condomínios fechados, privatização da segurança pública.

O que pode todo este aparato, que movimenta imensas cifras em dinheiro, contra a força do oceano de miséria do espírito produzido pela perversidade de nossas escolhas mais inconfessas e inconscientes? Nada. Podemos cada vez menos andar despreocupados para sentir coisas simples como viver a calma de uma vida feliz entre semelhantes e com a confiança de que assim se manterá esta realidade para nossos descendentes.

Há algum político que prometa passeios noturnos tranquilos pelas ruas de nossas grandes cidades? Ou o fim das notícias diárias sobre chacinas e crimes monstruosos banalmente relatados nos noticiários como se isto fosse comum no resto do mundo? Prometem mais armamentos, mais policiais, mais viaturas, mais ilusão de segurança.

Nos afastamos tanto da paz social que nos parece mesmo alguma coisa intangível. Pois basta nos afastarmos um pouco do Brasil para ver que somos uma aberração. Poucos lugares no mundo vivem tão repletos do mal no atacado como nós.

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Contraventores Independentes

 

Mário Flecha – jornalista

 

Há poucos dias no Rio de Janeiro foi fechada pela polícia uma clínica de aborto. A famosa Clínica Santo André, no bairro de Botafogo. Conhecida da classe média e alta da sociedade mineira e carioca há pelo menos vinte anos. Será que apenas a nada ingênua polícia não sabia? Há mais podridão por trás deste fato com certeza!

Creio que seja mais de se lamentar do que aplaudir, pois o aborto não deixará de ser praticado e esta clínica me parece que adotava procedimentos profissionalmente corretos e adequados, não expondo a grandes riscos as suas pacientes.

Tenho convicção que somente os hipócritas e alienados podem optar por uma lei contra o aborto. Alguém pode não concordar mas não tem o direito de decidir por outros. Esta é uma decisão difícil e pessoal onde ninguém mais, além da própria pessoa e eventualmente o pai têm o direito de participar. Ademais somos uma sociedade onde a hipocrisia encontra guarida há todo momento.

Os filhos da miséria, do abandono, das gravidezes indesejáveis e do desamor estão soltos por aí, incendiando índios e mendigos, assaltando e atropelando, corrompendo, matando e violentando, ou simplesmente morrendo de fome na tenra idade, de Aids ou pelas mãos de nossa corrompida, violenta e arbitrária polícia (salvo as exceções).

E ainda criminalizam o aborto. Por que não se esforçam para proibir a contravenção do jogo do bicho, a prostituição, o trabalho escravo e infantil, o tráfego de órgãos e de crianças, a mercantilização da saúde e a concentração de renda nas mãos de algumas dezenas de milhares de brasileiros, ou simplesmente a obscenidade veiculada em músicas, propagandas e outro sem-número de maneiras?

Outro dia o suspeito de ter assassinado o neobicheiro filho e herdeiro de Castor de Andrade foi depôr. Ele também um contraventor do jogo do bicho. Ao sair da delegacia declarou que a testemunha que o acusava não era idônea. E ele o seria? Algum ingênuo pode supor que um bicheiro vive só do jogo do bicho? A droga, a prostituição, o assassinato e outros crimes fazem parte de seus currículos ouso afirmar.

Quem desconhece as inúmeras e pretensas casas lotéricas com aqueles biombos que só servem para indicar a banca de jogo? Ali polícia não entra (a não ser para jogar e receber propina), mas as clínicas de aborto devem ser fechadas com pompa e estardalhaço. Que diferença existe perante a lei entre uma banca de jogo, uma casa de prostituição e uma clínica de aborto? Do ponto de vista legal acredito que pouca, mas do ponto de vista da hipocrisia e do preconceito há muita.

O aborto é um direito fundamental da mulher e só a ela cabe a decisão. Ao Estado, laico por sua própria natureza cabe única e exclusivamente garantir a confiabilidade e segurança, a fiscalização sanitária e o credenciamento. Quanto ao jogo do bicho e tantas outras contravenções tão cinicamente consentidas, creio que se deveria fazer uma exame de consciência e decidir sem ambiguidades.

Do contrário, com que direito se praticam estas contravenções e por que têm elas mais razão de existir e ser aceitas do que outras? Os bêbados continuam a infringir o código de trânsito, os direitos fundamentais da cidadania são violados todos os dias, as contravenções e outras vilanias são aceitas tacitamente.

Afinal de contas que lei é esta que se exerce sob o manto do preconceito e da injustiça? É por estas e por outras que somos como somos: vítimas de nós mesmos.

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Um Titanic chamado Brasil

 

Mário Flecha – jornalista

 

Tive um pesadelo dia desses que me fez acordar e ficar pensando longas horas a fitar o teto. Era um país navio que navegava em águas geladas de um oceano pouco conhecido. Navegava rumo a um novo século, um novo milênio e festejava-se alegremente. De um lado a música pseudo-sertaneja animava a elite nos salões superiores, entrecortada por algumas pitadas de Mamonas Assassinadas e alguma cantarola estrangeira.

Nas classes inferiores, alguns metros abaixo no enorme casco, rebolava-se o Tchan, a Garrafa e outras bochechinhas, tudo regado a muito álcool, sexo e drogas, aliás nas áreas Vip esta prática também estava de todo liberada. Rodeando tudo isto um serviço de bordo caro e variado, com muitos produtos estrangeiros.

Na casa de comando regia-se a enorme nave com uma tranquilidade de dar gosto. Afinal tudo parecia estar indo bem. Boa parte da tripulação era estrangeira, assim como os produtos e toda a infraestrutura tecnológica que fazia navegar o navio e lhe ditava os rumos por meio de sofisticados instrumentos. Claro, presumia-se que os tripulantes conheciam e sabiam usar com destreza todos aquele instrumental.

Assim singrava os mares a bela nave rumo a um futuro brilhante e pleno de realizações. Entretanto, nas escuras águas geladas salpicadas de estrelas vagava enorme iceberg, uma montanha do tamanho do navio mas cuja ponta era a única coisa visível. Os instrumentos detectaram mas quem os operava se divertia e admirava a bela noite. Quando foi visto já era tarde. O gigantesco navio resvalou longamente na pedra de gelo.

Foi neste ponto que meu pesadelo ganhou contornos terríveis, pois de repente eu e minha família estávamos em casa e o país era um navio continente que começava a naufragar mas somente a equipe da casa de máquinas havia percebido o problema na pele, pois as águas invadiam os porões sorrateiramente.

Lentamente os ocupantes dos andares inferiores vinham subindo, desalojados de seus postos de trabalho, buscando abrigo nos lugares secos e animados dos andares superiores. Onde podiam tomavam a força e procuravam usufruir dos bens expropriados da forma que podiam, pois já sabiam do destino que estava por vir. Certamente suas atitudes eram desprovidas de qualquer bondade, gentileza ou qualquer outra forma de sentimento mais nobre.

Lá em cima, no topo da embarcação não havia de fato quem soubesse do acontecido, pois como os postos foram abandonados não havia mais quem pudesse reportar os fatos. O comando do navio tinha absoluta confiança no automatismo e na insubmersibilidade do navio. Percebendo o que acontecia comecei a procurar alternativas de salvação para minha família antes que o pânico e o desespero tomassem conta do ambiente, pois tudo era apenas uma questão de tempo.

Enquanto isto, as luzes dos conveses superiores iluminavam alegremente as águas salpicadas de estrelas, num clima de festa que dava a tudo aquilo uma atmosfera estranhamente sinistra. Mortes, violência e roubo já aconteciam nos níveis inferiores mas eram minimizadas e pareciam acontecer como algo natural e até mesmo comum.

A tripulação era não apenas impotente para impedir como também tinha em seu meio oportunistas praticantes destes atos e que vendiam aos mais desesperados um impossível lugar em escaleres já reservados para os níveis superiores.

As escotilhas e portas de segurança começavam a ser fechadas, selando atrás de si o destino de muitos que já não teriam nem mesmo a alternativa de adiar o destino final ou ganhar tempo para um possível resgate. O navio país estava isolado, suas fronteiras fechadas e a entrada em outros países negada. Trancados para morrer, vítimas do rumo que escolhemos e da forma como usamos nossa nave.

Acordei para não encarar no sonho a falta de alternativas. Esta visão me incomoda desde então: a de estar em terra firme como se estivesse num enorme navio que vai afundando lentamente, lentamente desmanchando-se e desorganizando-se, decaindo a sociedade, os amigos e gente querida, as boas coisas que construímos ao longo dos anos. Não mais um país emergente, mas imergente, rumo aos reinos abissais que servirão de base para poucos.

 

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Sociedade dos corruptos vivos

 

Mário Flecha – jornalista

 

Na China do século XV, nos idos de 1611, houve uma sociedade filosófica chamada Dong Lin que atuava secreta e eficientemente como força política que usava de sua influência para remover funcionários corruptos de seus cargos. Sua tarefa era o combate ético e o reforço das fronteiras e da economia interna da China.

Nunca vi nenhuma estimativa bem fundamentada sobre os números da corrupção no Brasil mas pelo que vejo de realidade próxima é muito alto. Deve existir dado produzido por alguma agência estatística em algum lugar . A cadeia de corrupção encontra-se ao longo da pirâmide do poder das empresas estatais e representa a forma mais ilegal, porém mais comum, de ocupação e uso do público pelo privado.

Está presente nas licitações de compra, nos contratos de obras e fornecimentos, na distribuição de cargos e benesses etc. Para estes grandes crimes e bandidos temos muito pouca ação da polícia, a qual se mostra mais ativa e aparelhada para reprimir o crime dos ladrões pobres.

Já criamos a versão corrupta dos Dong Lin: os grampeadores telefônicos que agem fora da legalidade, por dinheiro e estão longe de ser éticos. Como efeito colateral acabam prestando um serviço à sociedade quando fritam alguém tão corrupto quanto eles.

Há muito pouco tempo uma conhecida que está fazendo um curso de especialização no estado de São Paulo me dizia que o motorista do ônibus que leva a turma anuncia a venda de monografias ao preço de R$250. Ela e suas amigas encomendaram uma e já entregaram o “trabalho”. Isto tudo foi dito com muita naturalidade, sem culpa indicativa de que pelo menos o sentimento da transgressão existia. Este fato é preocupante porque tais atos são praticados tão naturalmente como comprar um sanduíche.

A questão de fundo é o tipo de valor que vai predominando nas mentes das pessoas. É normal vender lugar nas filas de atendimento médico, é comum ser favorecido em concursos, é comum ocupar cargos em empresa pública pelos critérios do QI (Quem Indicou), é comum pagar para matar e receber para matar a preço de banana e é comum justificar a banalidade já que “todo mundo faz se você não fizer, outro vai fazer em seu lugar”.

Outra testemunha ocular me disse que estava numa roda de políticos de um partido onde o tema da discussão era se a oferta de comissão de favorecimento devia ser aceita ou não. Um deles afirmou sem nenhum constrangimento que aceitaria, pois se não o fizesse outro o faria. Este mesmo raciocínio é utilizado para um sem-número de situações da vida cotidiana. Por exemplo para justificar o ato de jogar lixo ou descartar latas na rua. Por que não o fazer se todo mundo faz? Talvez depois de perder tudo nas enchentes causadas por bocas-de-lobo entupidas por lixo quem pense assim mude de ideia.

É possível que tenhamos sido um dia um povo com senso de comunidade mas isto há muito foi substituído pelo raciocínio calculista e individual. O problema desta escolha é que a qualidade de vida como um todo cai drasticamente. Não dá para pensar no desenvolvimento de um país onde uma grande massa da população está voltada apenas para si mesma e nem aí para nada (como revela uma pesquisa citada na Veja de 16/12/98 pg.44 cujo título é “O brasileiro não está nem aí para nada”).

Não há lei que funcione, moral que resista, meta social que subsista ao raciocínio do “eu sozinho” e o resto que se dane. O modelo egocentrista de relacionamento do indivíduo com o mundo tem nos conduzido a níveis cada vez piores de qualidade de vida em coletividade. Marcas típicas de nossa cultura ,como o “jeitinho brasileiro”, são tratadas com muita tolerância. Tornam-se ao final um valor positivo, como a esperteza perversa implícita na “Lei de Gerson”. Estes traços culturais compõem o discurso justificativo do corrupto e do corruptor.

Retomando um pouco da linha chinesa é interessante ver como o crime de corrupção é tratado em nossa cultura e como isto acontece na China. Lá o corrupto em muitos casos é executado sumariamente. Aqui se pede a aprovação da pena de morte para exterminar presos políticos, psicopatas, pivetes e outros espécimes, mas os corruptos são de certa forma admirados e perdoados. Mesmo que seus crimes lesem ou levem à morte milhares ou milhões de pessoas. Talvez aquele ditado esteja certo: o que os olhos não veem o coração não sente. Vejam como funciona: o Sérgio Naya já teve seus bens desbloqueados e pode voltar a operar livremente. É fácil quando se tem o din-din para comprar o corruto de plantão.

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CBT já foi destroçado

 

Mário Flecha – jornalista

 

Como nossa primeira e superavançada constituição da república e de acordo com pesquisas recentes que demonstram que o brasileiro não está nem aí para nada, o Código Brasileiro de Trânsito está comprovadamente absorvido em nosso ácido caldo cultural que como bucho de bode derrete quase tudo.

Minas Gerais é um dos carros-chefes, onde as estatísticas nunca baixaram muito. Leis são como máquinas e computadores: não funcionam sozinhas. Faltou quem acreditasse pra valer. A população mais atingida, mas que também pouco se importa é a de pedestres. O carro continua sendo o “ser” mais bem protegido e privilegiado, sob o qual nossas crianças, idosos, deficientes e animais de estimação sucumbem friamente. Para o qual se dedicam grandes verbas para manter a malha viária, o consumo, o status.

O Sr. FHC estava errado ao chamar os brasileiros de caipiras. Imagem romântica demais. Somos uma multidão de alienados, com uma educação para a vida em coletividade das mais precárias, perdidos em meio a prédios, carros modernos, equipamentos urbanos em muitos casos idênticos aos do primeiro mundo. Nosso atraso não é necessariamente material e sim mental, espiritual ou seja lá o nome que se quiser dar.

Ledo engano pensar que se entra para a modernidade apenas com muita tecnologia, pensamento neoliberal, muita ganância e individualismo. Neste sentido vamos até muito bem. Que se confira nos países desenvolvidos qual é a diferença. Está nas pessoas, no comportamento, no tratamento que dispensam ao ambiente que as circunda.

Claro que isto não se consegue de graça, com reza brava ou qualquer atitude deste gênero. O primeiro passo para nós seria dentro das escolas e nas instituições públicas. Formar o cidadão, organizar a sociedade, produzir o respeito às leis pela demonstração efetiva de que elas têm valor para o próprio Estado e a sociedade, na pessoa de seus agentes concretos.

O CBT não pegou porque nossos fiscais de trânsito não acreditam nele, também estão nem aí para nada. O carro é o senhor das ruas, o pedestre que se dane saia da frente se não quiser morrer miseravelmente debaixo das rodas. Os motoristas são a parte podre dos carros. A peça mais valiosa do conjunto, o instrumento de afirmação pessoal, o símbolo de status são a carroceria brilhante, a marca do fabricante.

Se nossas cidades são dos carros, se são feias, sujas e violentas não é tanto por sermos um país pobre por falta de recursos materiais. Pelo contrário, somos ricos e desperdiçados, tanto os bem-de-vida quanto os pobres jogam fora e pisoteiam recursos que em outros lugares são poupados e preservados. Somos assim porque somos alienados de nós. Ainda somos os portugueses do Brasil Colônia.

Estamos aqui mas não estamos nem aí. De certa forma não queremos isto aqui a não ser para tirar o que pudermos. Não nos interessa lutar para melhorar uma coisa que não temos como nossa, mas que apenas exploramos. Por que então respeitarmos uns aos outros se somos apenas uma massa que vive casualmente num mesmo espaço, espaço este que pouco nos importa?

 

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O público é do privado

 

Mário Flecha – jornalista

 

O propósito do Estado e de suas instituições não é o mesmo que o de uma empresa. A visão gerencial de uma empresa não é transferível de forma idêntica para o ambiente de uma instituição estatal, dadas as questões sociais e políticas que permeiam esta última.

A principal diferenciação decorre dos objetivos. Enquanto numa prevalece o desejo e a volição quase absoluta de alguns com vistas a auferir lucros noutra deveria prevalecer o objetivo de uma sociedade seja ela nacional, estadual ou municipal, com base num contrato social, geralmente consolidado nos textos constitucionais, legais e programas de governo. A ética e a fiscalização dos cidadãos são os elementos garantidores.

Métodos e práticas eficientes no trato com o mercado competitivo tornam-se elementos perniciosos no ambiente de uma empresa estatal, violando princípios de ética, equanimidade, justiça social. As aberrações advindas destas tentativas de pura transferência de um cenário para outro são perceptíveis e fartamente exemplificáveis, haja vista por exemplo, a oferta de serviços de segurança pública de forma diferenciada para condomínios fechados, por meio de negociações que privilegiam mais a uns do que a outros.

O uso das instituições para agenciamento e venda de serviços a grupos econômicos é um problema notório na administração pública brasileira, onde lobistas ingressam para abrir espaço cativo para determinados agentes do mercado, em detrimento de interesses sociais. Da mesma forma interesses corporativistas nascidos e criados no interior das instituições públicas são também uma forma de apropriação do público pelo privado.

Focos de resistência a mudanças, tais interesses costumam agir em comum acordo com os interesses privados, formando-se assim o círculo vicioso da corrupção crônica, do patrimonialismo, compadrio, nepotismo, sinecurismo e outras mazelas.

Em praticamente todas as esferas governamentais é possível comerciar serviços no mercado negro das propinas, por exemplo através dos famosos percentuais para aprovação de propostas em licitações e contratos, para fechar os olhos a irregularidades com relação a impostos, aspectos sanitários, ocupação e uso do solo, fugas de penitenciárias etc.

A ineficiência dos serviços públicos tem raízes profundas na invasão do público pelo privado, como praticamos no Brasil e dada a baixíssima participação e fiscalização popular sobre o bem de todos. Obviamente, em países onde se alcançou um elevado grau de consciência social estes males tendem a ser muito reduzidos e punidos de forma exemplar.

Há inúmeros exemplos de representantes da iniciativa privada que ocupam cargos públicos e pouco ou nada conseguem em termos de resultados. Seus modelos de gestão não fazem as coisas mudar como num passe de mágica. As peias do corporativismo e da legislação, somadas aos esquemas ilícitos montados pela burocracia e pela iniciativa privada são outros grandes empecilhos. A privatização pura e simples rompe com os compromissos sociais próprios do Estado, introduzindo um elemento enfraquecedor.

Estado eficiente, justo e voltado para o social impõe desafios que podem ser vencidos por meio do saneamento do funcionalismo público, eliminando os esquemas de corrupção existentes e formando um corpo burocrático preparado e remunerado de acordo com a experiência, folha de serviços e graduação em termos de conhecimento.

O aparelho estatal brasileiro em geral não funciona. É injusto, incapaz de responder às demandas e voltado quase exclusivamente para si mesmo. Estes problemas não serão resolvidos pela mera privatização ou a simples adoção de métodos empresariais. Por princípio o Estado não é uma empresa e o cidadão não é um simples cliente ou consumidor.

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As duas faces do Real

 

Mário Flecha – jornalista

 

Infelizmente as duas faces de uma moeda não se separam. Assim fosse e poderíamos lamentar com mais razão o fim da moeda estável e equiparada com o dólar. Na economia doméstica de minha casa, onde se vive do que se ganha do trabalho sem especulação e lucro nas costas de ninguém, o Real soou positivo durante sua curta existência. Somos poupadores comuns, não jogamos no mercado de ações, não somos empresários ou coisa que o valha.

Soubemos curtir o lado positivo da moeda planejando compras, orçando preços, evitando sempre os juros de cheque especial, o gastar sempre mais do que se ganha. Consumimos mas sem nos endividar. O Real foi bom neste sentido. Quem soube ou pôde sentiu o valor de uma moeda estável.

Infelizmente era tudo de mentirinha. Tudo artificial. O desemprego grassa, as falências e a recessão formam o legado da outra face do Real. Quem ainda não ouviu falar do plano Latinha? Lá tinha uma padaria, lá tinha uma lojinha, lá tinha uma pequena fábrica. Será que minhas retinas tão fatigadas não verão país nenhum? O que falta ao falar preciso e sempre ufanista de nossos ministros economistas? Um pouco de modéstia ou menos prepotência? Por que não conseguimos nos realizar como país? Dói e incomoda este círculo vicioso de fracassos.

Não dá para falar em fracassomania ou para tampar o sol com a peneira. É real nosso fracasso em produzir uma economia forte e estável num país com justiça social e distribuição de riqueza. Outro dia um comentarista de uma rádio dizia que a moeda estável prejudicava as exportações, que uma desvalorização da moeda tornava nossos produtos mais competitivos no exterior e que por isto, por exemplo, os empresários de sapatos do sul do país estavam melhorando suas vendas. Também por isto ele defendia a não correção dos salários pois iria disparar o processo inflacionário e, coitadinhos, atrapalharia os resultados das exportações dos empresários fabricantes de sapatos.

Infelizmente parece sempre haver um cínico de plantão que faça a defesa da injustiça e transforme em vítima o algoz. Ao que me conste, a moeda forte americana, canadense e de outros países bem-sucedidos nunca foi impeditiva dos resultados positivos de suas economias. Talvez porque eles sejam mais realistas do que nós e saibam melhor reconhecer que uma sociedade forte se faz com um nível maior de cooperação de todos, especialmente de suas elites econômicas e políticas.

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Um boi, uma boiada

 

Mário Flecha – jornalista

 

Diz o ditado que mineiro dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada para não sair. O fato é que Minas vem resistindo bravamente aos abusos cometidos pelo governo federal e está se postando como uma referência e uma opção firme pela justiça social, pelo trabalho honesto, pela cada vez maior faixa da população empurrada para a marginalização e a desesperança.

O que tenho percebido de minha modesta posição pessoal, como observador de um limitado pedaço da realidade e da sociedade circundante, é que apesar das pesadas consequências o governador Itamar tem a aprovação de muita gente. Conheço pessoas que estão passando aperto devido à suspensão dos pagamentos mas que reconhecem o ato de resistência e apoiam. É certo que tais questões pesam cada vez mais e que o nível de pressão sobre o governo estadual no sentido de dar-lhes solução irá aumentar, mas também fica claro que um governo com o apoio da população tem uma força muito grande.

O Brasil é um país de grandes desequilíbrios, os quais só fizeram aumentar com a política neoliberal. Esta característica se expressa de diversas maneiras e uma delas é a excessiva concentração de uma imprensa nacional no eixo Rio-São Paulo. Atualmente fica patente o grau de subserviência desta imprensa quando lemos, vemos ou ouvimos o noticiário nacional, onde fica evidenciada a tendenciosidade e a tentativa de isolamento e ridicularização.

O fato entretanto é que mesmo para os mais inseguros e desinformados, a figura de Itamar e a bandeira que está erguendo soam forte. Quem hoje em dia espera atos de justiça social por parte de FHC? Quem ainda acredita no papai Noel do Plano Real? Um fiasco desde muito antecipado por diversos oposicionistas da insensatez cruel do neoliberalismo.

Como culpar recentes ocupantes dos cargos de direção dos estados oposicionistas pela dívida feita ao longo de 4 longos anos pelos governos anteriores? Não há mágicas nesta área. Isto sim foi irresponsabilidade com toda uma sociedade, incluindo os próprios eleitores. É algo comparável a consumir do bom e do melhor num restaurante e fugir no final, deixando a conta para trás.

Outro aspecto da farsa encenada na política neoliberal é de que a privatização gera benefícios. Talvez gerasse num país com contas saneadas e sem dívidas, mas para nós tem significado simplesmente a queima do erário para pagar dívidas impagáveis. Ao final vamos ficando sem nada, como aqueles jogadores inveterados que ficam devendo a roupa do corpo.

Itamar representa cada vez mais a resistência à insensatez e frieza da política federal. De um presidente que sempre manteve uma posição claramente cheia de reservas com relação a Minas, mesmo quando tinha aqui um correligionário ocupando o governo.

Será que a CNBB está errada em sua campanha, ou os números e previsões que atestam a falácia do real e o desemprego em massa? O próprio Senador Antônio Carlos Magalhães já assume um discurso crítico. Não seria de bom senso rever a direção no sentido de buscar-se novamente a harmonia nacional?

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Além da linha Vermelha

 

Mário Flecha – jornalista

 

Talvez devêssemos redefinir a palavra guerra no vocabulário do brasileiro. Teríamos também de redefinir os conceitos de que somos um povo pacífico, de boa paz, hospitaleiro. Esta visão cor-de-rosa é uma mentira pregada há algum tempo, talvez começada no intermezzo das décadas de 50 e 60, quando Disney tinha amigos no Brasil e até lançou o personagem Zé Carioca.

Tivemos muitos guerras, a maior parte delas internas. Massacres vários cometidos contra índios, que nossa história teima em não contar. Um dos mais notáveis exemplos das muitas covardias cometidas pelo Estado contra o povo brasileiro é a guerra de Canudos, também os diversos abusos do Estado Novo e da ditadura de 64. Sem falar da covardia que cometemos na guerra do Paraguai, outra vergonha nacional da qual mal falamos em nossa história. O assunto é longo e cheio de silêncios.

Contra os negros, as mulheres, trabalhadores e marginalizados de modo geral, a violência institucionalizada é tão comum que já faz parte de nossas sobremesas televisivas. Os índices de mortalidade no trânsito, em acidentes de trabalho, em mortes por desnutrição e todos os males da miséria também já não nos comovem tanto. Ficamos mais chocados com as cenas de Kosovo, com as cenas do Iraque, com a fome da África. Realidades distantes da nossa tão bem resolvida realidade brasileira?

Sobre a guerra no atacadão do cotidiano temos muito a dizer, disputamos a liderança com a Colômbia e talvez já tenhamos ganho este campeonato. O outro lado desta moeda é a máquina que engendra e urde estes cenários muitas vezes não filmáveis (embora no filme Central do Brasil muito seja dito, pena que os senhores do Oscar não entenderam).

Entre os excluídos a violência é coisa muito familiar e já perdeu o status de tragédia. Ocupa no coliseu das mídia um espaço privilegiado entre as efemérides cotidianas que divertem os serões televisivos. O que ainda choca o burguês é a tragédia burguesa que vai invadindo nossas classes mais bem aquinhoadas materialmente, embora de espírito muitas vezes não se possa dizer o mesmo.

As 30 facadas na subsíndica histérica, desfechadas pelo vizinho em seu “dia de fúria” o condenaram. Quem é mais vítima e mais agressor nesta história? Para mim os responsáveis estão longe demais para serem culpáveis, mas podemos fazer uma pequena análise a respeito.

A omissão de órgãos públicos na busca de soluções inteligentes para este estado de coisas é exemplar. Será que tudo isto só pode ser explicado pela cínica justificativa de que é uma fatalidade imutável? A polícia só serve para intervir nestas situações depois que nada mais há a fazer. O papel deles têm sido o de retirar de circulação aquele que ultrapassou os limites da sanidade ou do desespero. Antes disso não há a quem apelar, só faz aumentar a sensação de que somos apenas incômodos cidadãos sem noção de “para quê” servem estes serviços (ou deveria dizer a “quem”?).

Poderia desfiar um rosário de causos semelhantes que conheço e que apenas não chegaram ainda às vias de fato. Aliás, muito provavelmente a maior parte de nós teria o que contar. O excesso de tolerância por parte das autoridades faz crescer a intolerância na sociedade. O excesso de tolerância protege os infratores e pune as vítimas quando elas mudam de lado. Depois do mal feito eles vêm solícitos e eficientes, como se não tivessem nenhuma responsabilidade por estes fatos deploráveis do nosso “pacato” dia-a-dia belo-horizontino.

 

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Degradação Urbana

 

Mário Flecha – jornalista

 

No pouquíssimo tempo de residência em um novo endereço é impressionante o número de problemas de toda ordem com que tivemos contato. O bebedouro do parque em frente ao nosso prédio foi roubado, as lâmpadas de iluminação dos postes são sistematicamente quebradas, espalharam fezes no escorregador, picharam paredes dos muros. Em poucas horas de exercício de boa vontade, minha esposa, nossa filha de 8 anos e uma coleguinha recolheram dois sacos de lixo de 100 litros com detritos atirados pelo parque afora.

No prédio onde moramos dois extintores de incêndio foram roubados, uma corda de pular, um carro que foi estacionado em frente ao prédio e um dos moradores foi assaltado a mão armada. Semanalmente roubam da caixa de correio periódicos infantis que assinamos para nossa filha. Os muros do prédio foram pichados e o conserto no reboco de uma parede foi destruído. Além disso, as etiquetas de controle com as datas de recarga dos extintores foram arrancadas e destruída uma placa da Copasa que alertava sobre um buraco que fizeram na esquina (o qual aliás não voltou a ser preenchido e fechado corretamente).

O posto da esquina da rua foi assaltado e levaram um salário mínimo, mas até helicóptero foi mobilizado para a caçada humana (quem dera demonstrassem tal esforço para pegar os corruptos e sonegadores que levam milhões dos cofres públicos). As letras do letreiro que nomeia o parque foram arrancadas. Nenhum zelador para no local, pois não cumpre a obrigação de manter limpo e bem tratado o parquinho que o Carrefour foi obrigado a construir para compensar o desmatamento que promoveu ao construir às margens da Catalão (o Carrefour não fiscaliza o trabalho e nem a Prefeitura se a adoção está sendo levada a sério). Na UFMG raptaram e sumiram com uma funcionária, estupraram estudantes e roubam carros numa frequência assustadora. No shopping Del Rey raptaram uma menina de 11 anos no estacionamento.

E ainda dizem que BH é uma cidade pacífica, segura, blá, blá, blá… Já fomos. Hoje não somos nada disso e estamos piorando cada dia mais. É apenas uma questão de tempo ou de dar mais publicidade ao que aqui ocorre. No Rio e em São Paulo as coisas ganham mais notoriedade.

Só mesmo com muito boa vontade se pode esperar uma reversão de expectativas quanto a tudo isto. Nos anos vindouros não há muito o que esperar, apenas a lenta e constante decadência de nossa obscurecida capacidade de resolver problemas sociais para vivermos em coletividade de forma positiva. Que país é este?

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Para onde vamos?

 

Mário Flecha – jornalista

 

Sem justiça social não iremos a nenhum lugar. Ou melhor, desceremos cada vez mais na escala da degradação humana. Assim revelam os números em recente estatística feita pela polícia carioca sobre a organização para o crime, droga e prostituição no Rio e assim revelariam os números de inúmeros centros urbanos não pesquisados ou da violência no campo. De outras formas de violência falam várias notícias do dia-a-dia, quando exibem as descobertas de redes de corrupção entre empresários, comerciantes, prefeituras, governos estaduais e federal.

Os números da violência no Brasil explicam em nós o temor crescente quando saímos às ruas. São 100 mil mortes violentas por ano no país do futebol, samba, carnaval e cachaça, incluindo trânsito, assassinatos, acidentes de trabalho etc. Estes números não incluem a desnutrição, Aids, tuberculose e outras formas de morbidade, mas se considerarmos violência a lógica excludente típica de nossa sociedade, estes números tornam-se imbatíveis.

Entoemos mantras, busquemos conforto nos livros de autoajuda, paguemos o dízimo nas inúmeras e bem-sucedidas empresas do negócio da fé. A realidade fala mais alto. É o grito que não se quer calar. Hoje somos o segundo lugar na incidência de hanseníase, a tuberculose recrudesce, dos males do cigarro e bebida somos campeões. São inúmeras cifras das quais nenhum país sério pode furtar-se à ação.

Do outro lado da margem desta torrente rubra erguem-se riquezas colossais, cercadas de segurança e convenientemente alheias e silentes diante dos fatos e acontecimentos. Com muito dinheiro se pode viver e prosperar até no inferno, mas dá para chamar a isto de um caminho para uma existência feliz, serena e de paz? O homem rico e poderoso dorme bem? Dormem em paz as famílias dos usurários, traficantes, corruptos e violentos, sob a guarda de armas das quais nunca se sabe o quanto se pode confiar?

Bom será quando buscarmos a solidariedade dos iguais e ultrapassarmos as campanhas beneficentes de caridade dos que podem e têm e apenas mitigam o sofrimento sem fim dos despossuídos. Todos compartilhamos um sofrimento que tem outras faces e formas e se espraia em nossa sociedade com a calma peculiar da decadência. A máquina que engendra estes tantos fatos é feita, nutrida, mantida e renovada por gente. Toda nossa miséria se ergue sobre séculos de injustiça social custeada por ignorância e equívoco, má fé e malícia.

Esperaremos até que se torne impossível mudar estes quadros desoladores? Antigamente costumava-se brincar chamando o Brasil de Belíndia, o país dos contrastes que representaria uma espécie de mistura de Bélgica com Índia. Hoje a Índia começa a se firmar como potência na produção de software de qualidade para o mundo e o Brasil vem descarrilando desde a reserva de mercado, perdendo o trem da história, indo a reboque como mero consumidor.

Cerca de 30 por cento de nossa força de trabalho sequer passou da quarta série, e dos que passaram há um número enorme de analfabetos semânticos que leem, ouvem mas não entendem bem do que se trata. A eles se somam os analfabetos tecnológicos, incapazes e resistentes ao uso e aprendizado de novas tecnologias, incluindo-se aí um grande contingente empresarial que pensa e investe em máquinas mas não considera que a tecnologia de informação é e está na mente das pessoas.

Num quadro como este não diria que o tempo urge, mas sim que ruge furiosamente em nossos calcanhares, enquanto perpetuamos nossa pasmaceira dormindo num berço que já não é mais tão esplêndido.

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O Estado do Bem-Estar Social vai bem, obrigado

 

Mário Flecha – jornalista

 

A Suécia é um país fascinante, com um povo que me pareceu surpreendentemente jovem, bonito de dentro para fora e nem um pouco parecido com o clichê de que sueco é deprimido por que tem de tudo e suicida de tédio. Mentira. Altas taxas de suicídio em regiões próximas dos polos, onde há grandes variações de luminosidade, são de se esperar. Períodos prolongados sem sol para pessoas com tendência à depressão por produção insuficiente de neurotransmissores são um fator fortíssimo. No Alasca também há muitos deprimidos e alcoólatras mas a população é mais rarefeita. Além disso, ao que me disseram, na Suécia se o gajo bebe demais e morre num acidente automobilístico esta morte é contabilizada como suicídio.

Nossos neoliberais com nome de social-democratas têm muito o que aprender por lá. Especialmente como reverter taxas de desemprego e envelhecimento da população, como sair de uma situação de pobreza, guerra e dificuldade climática para se tornar um país desenvolvido, pacífico, monárquico, parlamentarista e social-democrata. Lá o povo sabe votar, sabe ler nas entrelinhas, sabe de seus direitos e deveres e em geral as coisas funcionam, até a polícia, que é respeitada pelos baixos índices de corrupção. A educação e saúde são de graça e excelentes. O salário desemprego não deixa ninguém abaixo da linha da dignidade. Não sei se na Suécia também é assim, mas um amigo dinamarquês me garantiu que na Dinamarca quem quiser levar adiante um curso superior chega a receber para estudar (algo em torno de uns US$500).

Estocolmo é de uma beleza calma mas vibrante. Muita arquitetura, arte, história, culinária, esporte, tecnologia de um jeito diferente do Tio Sam. A automação é grande, não se vê excesso de gente onde é possível automatizar. Não sei exatamente como estão reabsorvendo as pessoas. Imagino que em novas profissões surgidas com a expansão do comércio eletrônico e indústrias de alta tecnologia. Para nós algo difícil devido ao baixo nível de escolaridade do trabalhador brasileiro e a baixa ou nenhuma produção de alta tecnologia nacional, a qual se evidencia pelo escasso nível de investimento e incentivo à pesquisa e desenvolvimento.

Celso Furtado advertiu recentemente sobre o rumo que vamos tomando e não parece enxergar um futuro muito promissor para a sociedade brasileira no caminho que vimos trilhando há longa data. A continuarmos agarrados aos velhos princípios e práticas devemos naufragar no Maelstrom de nossa economia da exclusão. O Maelstrom é um gigantesco redemoinho marítimo daquelas regiões nórdicas, sobre o qual Edgar Allan Poe escreveu o conto “Uma descida no Maelstrom”. No conto um barco é apanhado pelo fenômeno e um dos tripulantes descobre que o barco ia sendo levado mais rapidamente que outros objetos menos hidrodinâmicos e assim resolve saltar para a água, em meio à voragem. Só ele se salvou. Os demais tripulantes morreram junto com a embarcação.

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Terra Devastada

 

Mário Flecha – jornalista

 

Num mundo fadado à escassez de água, entre muitas outras, o Brasil tem a maior bacia hidrográfica do mundo; e não seria exagero afirmar que provavelmente é a mais poluída e maltratada também. De fato, como diz o ditado: “cuspimos no prato em que comemos”. Nossos rios agonizam em meio ao esgoto, aos dejetos industriais, à destruição sistemática de nossas matas ciliares, aos agrotóxicos e tudo o que literalmente conseguimos atirar em suas águas.

Outro dia uma radiojornalista brasileira se ufanava, ao estilo Gerson, de que iríamos levar vantagem no próximo século pois venderíamos caro o valioso líquido de que é feita a maior parte de nosso planeta, enquanto outros países iriam à bancarrota. Não sei se este é um raciocínio digno do próximo milênio, onde poderíamos almejar causas mais nobres que a de tirar proveito uns dos outros.

Assim como pessoas bem mais velhas que eu puderam ver e desfrutar dos vários e belos córregos que banhavam o Curral Del Rey e que tiveram a desdita de vê-los destruídos e transformados em esgoto subterrâneo, também eu assisti ao fim de outros cenários naturais, maculados por nossa presença ostensivamente agressiva. É inegável que para o planeta somos um câncer aparentemente sem remédio.

O bolor cinzento da mancha das cidades nas fotos de satélite, a marca dos desmatamentos e queimadas são cicatrizes por demais profundas entre outras menos visíveis a olho nu, mas não menos daninhas. Infelizes de nossos descendentes, pois verão o ocaso da humanidade se avizinhando com mais nitidez do que nós agora podemos divisar.

O mal do planeta. É nisto que vamos nos tornando pouco a pouco, como sói acontecer à decadência, a qual se instala sem nenhuma pressa, posto que tem todo o tempo do mundo. Uma coisa amorfa movendo-se cada vez mais rápida, à velocidade da luz nos circuitos impressos dos computadores. A expansão e retração dos mercados globalizados, a pressão do progresso sobre o meio ambiente, as medidas inócuas propaladas aos quatro ventos. Carregados pela velocidade das coisas que criamos perdemos a direção nos labirintos da civilização.

O “bug do milênio” somos nós e nossa enorme incapacidade de lidar com toda a parafernália que vamos criando loucamente num mundo de recursos finitos. Sinais existem de que poderia ser muito melhor a vida na Terra e de que tal tarefa está absolutamente em nossas mãos.

Maravilhas tecnológicas só o são quando de fato podem ser distribuídas e compartilhadas pelo número mais amplo de pessoas. A tecnologia da informação pode repetir o milagre da multiplicação dos pães uma vez que a informação é copiável e multiplicável e que é um recurso que se multiplica quanto mais é usado. Poderemos por esta via estancar e reverter o processo destrutivo que engendramos. O homem só pode ser salvo por ele mesmo.

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O Silêncio dos 500 anos

 

Mário Flecha – jornalista

 

Quem ouve o silêncio dos excluídos? Têm eles choro e voz fortes? Esquema de lobby, jogo de influência? Podem e sabem sonegar? Bancam campanhas políticas, ganham o dinheiro de propinas e coisas deste calão? São donos dos meios de comunicação, das armas, cassetetes e gases lacrimogêneos? Têm comandante de direita que exibe seu discurso truculento, “anti-baderna”, diante das câmeras e mandatários intimidados? Quem ouve este silêncio?

De minha parte o que dói nos 500 anos de Brasil é o silêncio que ouço; mais alto que a zoeira da pancadaria. É nossa tragicômica existência, nossa trajetória de sociedade que não encontra seu caminho mas luta, luta e luta. Para quê? Para ao final de 500 anos assistir a uma cena de briga em família na hora da ceia de Natal? Neste baile foram poucos demais tendo o quê comemorar diante de uma multidão silenciosa e entristecida pelo quadro que pintamos.

Minha Guernica inacabada. Pincelo arremedos de alegria, cheia de corações tristes. Repleta de faces, de todas as idades e tempos, olhando o espectador com impassível indagação, tendo ao fundo um carnaval estilizado, movido pela alegoria de uma neoburguesia digital. Ao fundo, como som ambiente dos 500 anos, me inunda a alma o pungente e compassivo adágio de Barber, me fazendo lembrar a melancolia universal irradiada pelos feitos da modernidade, de cuja dramaturgia somos atores coadjuvantes.

É possível que os 500 anos tenham doído no coração de muita gente. Uma gente de quem um dia o poeta Maiakovski disse ter ouvido falar de um caso de pessoa feliz. Sim, os 500 anos foram mais triste do que alegremente comemorados, mas não deixemos que a tristeza nos tome completamente o coração. Carlos Drummond nos lembra para não nos afastarmos demais uns dos outros, para seguirmos de mãos dadas. Nós, os de boa vontade, os que comungamos o sonho da felicidade coletiva.

Não vamos falar de país, fronteiras, partidos, governos, estados e oficialidades. Vamos falar de nós que aqui estamos e pelo futuro lutamos. Vamos ao encontro de nossas faces felizes, vamos abensonhar este país com nossas melhores esperanças.

Vamos fazer valer todas as lutas e sangue derramados, redimir todos os injustiçados e exterminados, todos os que morreram sem chance de desfrutar o mistério da vida, todos os que de alguma forma são as vítimas mais sofridas deste presente que compartilhamos, todos que como nós acalentam sonhos que vão além da mera realização individual.

Vamos! uma vez mais. Aqui, neste torrão equatorial chamado Brasil, levantar os olhos, erguer a cabeça e seguir adiante.

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Do vendaval

No vendaval da vida alguns caminham expostos às coisas levantadas do chão,

recebem no corpo e na alma o que vem.

Os que ainda têm olhos e mente pra ver e pensar

atiram no ar palavras que se dissolvem no uivo do vento.

Outros observam, bem protegidos, detrás de árvores e sólidos escudos, alguns em amplos espaços. Se alimentam da luta dos que estão no vendaval.

Destes protegidos uns poucos vivem de descrever o que vêem, com riqueza de detalhes,

da proteção de seus abrigos. A vida abrigada do vendaval é confortável.

Enviam-se mensagens de seus abrigos, vivem do vendaval, mas não nele. Para os que vivem o vendaval as mensagens não chegam e nem dizem nada que já não saibam na pele e na alma.

O vento carrega a alguns, enquanto outros se agarram ao que podem,

num seguir sem fim, até o esgotamento. Os que buscam abrigo não são seres do vendaval. 

No vendaval não se quer sobreviver. Se quer ser o vendaval e nele perecer.

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Yesterday, Today

First of all, I don’t see the Greeks of the past as something extra-terrestrial. And I believe we are under the control of a Plutocracy. It just became worse and more clear. I see us very connected to the Greek and in a lively way. I don…’t think we did much after them. The questions remain the same, they just grew worse like a cancer. In Canada I can see a lot of Plato’s ideas implemented to the level of minutia. What was created in this country is a society of apathy and conservatism to the nth degree, including the liberals and new democrats automated behaviour. The ideological blinders are for all.
It is ingrained in the mindset, nurtured by the educational system, and the ideology that it propagates carefully. It is cared and maintained under very strict vigilance and the structure of its institutions is basically platonic, including the mechanisms to preserve the status quo and fight any changes, as it is perceived to be a virtuous society. Just death penalty isn’t official here but there are other mechanisms to execute the violators: the nemesis of social sanction is brutal and very intolerant in Canada.
Plato’s attempt to rule ever single thing in society, to punish the violators, and to protect the “city” was taken to the letter. I don’t see the Greek as living in another planet, I see them right here, now. I see them very much here since the beginning of what we are in the Occident. It was the victory of the sophists above all that prevailed over something that was correct in Socrates, Plato, and Aristotle’s intuitions, I believe. Their time wasn’t different then today’s world, there is no line of progress since then, we are stagnant since the beginning.
Canadian society is as platonic as it can be, but it is shaped with the cement of hypocrisy brought by the sophists; oh yes, they are well and alive. It is bad in many accounts, including the wealth and the materialism ideology prevalent in most of the population, basically driven by having more and more, under the guidance of a merchants’ elite and an academia as sold to the capital as it can be (not very different from anywhere else, because the rotten base is the same almost everywhere nowadays).
Plato, already of old age, tried to implement his ideas when he was hired by Dionysus, the tyrant of Siracuse. Plato tried three times and at the end his life was badly at risk (he had to leave under dangerous circumstances). He came very burned out from the experience. His intent was to create a virtuous citizen, and virtue would be the shield against all evil (which is true if we consider what virtue can be). Dionysus would propagate the union of the Hellenic Peoples in case the project succeeded, had he behaved well as a good pupil of Plato. His advice to the tyrant was in pursuit of creating virtue, by instilling and imposing it. Of course, a virtue for the few to support the status quo and expand the power of Dionysus along the time.
For not so different reasons than nowadays, his ideas were strongly criticized and fought by those who had something to lose with the new policy and the close relationship Plato had with the tyrant as his direct advisor. The mercenaries supporting Dionysus’ tyranny would lose their prominent role because a monarchy wouldn’t need their services to protect the tyrant and their influence in his decisions would be reduced.
Of course, Plato in his arrogance, knew better than anybody else what to do, because he was, above all, an aristocrat and he never defended democracy, instead, aristocracy was his cup of tea. The “aristocrat” merchants of nowadays learned very well how to use the power that the old holders of power had in the past. Democracy was a better fit for the sophists and political opportunists, which seems to be the case wherever we look at it. They thrive under democracy. José Saramago, btw, has excellent critiques to democracy in YouTube. A different point of view that I like.
Plato hated the merchants and the sophists, and was very suspicious and controlling over the artists because the control of the thoughts of the citizens was essential to maintain a well-behaved society (same as today in capitalist and non-capitalist governments). I think he was right about the sophists and the merchants, because those two groups took over the globe along the centuries (the French Revolution was the highest achievement in consolidating their power). The world is ruled by the merchants, the economic elite who, in Plato’s time, had a secondary role, and I believe a more appropriate one. The sophists are basically the politicians, the hands-on implementors and guardians of the system owned by the merchants, basically speaking. Plato was very aware of the dangers of wealth.
Plato was a good aristocrat, who thought he knew better how to rule and what to do for the common good. It doesn’t matter how honest he was, it has always been a decision made by elites to protect their self interests. It was never an act of love which was as possible in the past as it is today. Love is atemporal and doesn’ include slavery or any form of domination over others. This is the lost virtue still to be pursued. The passage of time doesn’t change this question. It is permanent.
I don’t think that the pursuit of a better human being is negligible, and it is what is missing all the way long, and has always been missing, including Plato’s time. Nevertheless, all attempts made to date seem to me a grotesque and arrogant top down approach, including USSR, and all the pursuit to break through the chains. It has been a succession of failures, or just the plain success of different forms of domination.
There may be no exit after all, but if there is one, I believe it comes from the passions of the soul, the drivers that govern most of our acts, are the same, the core didn’t change. It was redressed, and gained fancy accessories, but at the end of the day, the same thing that happened in Plato’s time is happening today, in fact it got worse because we are more numerous than before and more decadent and cruel in an institutionalized way. We grew more indifferent.

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The reactionary reacts, but doesn’t act

The reactionary reacts, but doesn’t act. Reacts to protect privileges. All the advances of the world, that everyone enjoys, wouldn’t exist in the first place. And those advances that are kept just for a few, as a privilege, are in fact an stolen asset, protected by reactionarism.

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Invernal

São penosas as horas vividas quando as paisagens internas são apenas um céu cinza, rajadas de vento que congela, serpentes de neve, e uma noite branca e sem fim soprando bem no meio do coração.

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Icarus

I can feel the lift touching my face and hair; coming up from the cliff whose edge I used to jump; my wings open to silently soaring through the air. I can sense now the decisive moment’s coming where I’ll be born again or, like Icarus, plum(m)et into the open breasts of Gaia.

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Tsunami

É pela água corrente que navega a verdade da poesia. Ela é a corrente, a folha caída, o barco de papel, um tsunami indomável.

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Rai-mundo

Ai, mundo, mundo, mundo…quem me dera eu fosse um raio, mundo. Fosse um rai-mundo, num microsegundo.

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Ensaio de despedida 1

Voei…as asas dizem adeus aos olhos que as seguem, tão simples e efêmeros os movimentos do adeus, só podem deixar marcas nas águas invisíveis da memória, no íntimo de cada um.

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Ensaio de despedida 2

Acho que quanto mais aceitamos a nossa sina mais amamos o mundo do jeito que é, sem remédio.

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Ensaio de despedida 3

Meu coração poderia se despedir da vida esta noite. Já viveu o suficiente e está cheio de amor, o que mais pode esperar alguém da vida?

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Ensaio de despedida 4

Enquanto minha imagem vai se apagando aos poucos o sol ressurge depois de semanas de cinza.

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Not much to lose

When you don’t have much to lose, don’t concede, man, don’t start the booze, just wait, just wait, man, take something to read; a magazine, a comic muse, something like a poem may be coming loose, like a song, just wait, pal, just something  to amuse when you don’t have much to lose.

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Thinking of America

Depois de viver 10 anos or so in “America”, eu posso ver, eu posso ver! The machinery is too much for me, it drains everything. It is too serious, too serious. You give all of yourself, and it is very easy to become nothing, so easy. I can feel the pain Ginsberg talks about. It is here, it is now just looking over my shoulder, with a well-cut hair, cowboy boots, an angry eye and a hand holding a bible, and the other a rifle. The machines all around, the serious business men with their falsified ethics, the one that allows them do whatever they want and keep their consciences sealed as an atomic bomb before being dropped.See more

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Vida Encaixotada

Minha relação com FB é estranha. Às vezes alimenta, às vezes machuca. A natureza está longe, os amigos estão longe. Através de textos fica faltando sempre um pedaço. A falta do olho no olho gera mal-entendidos. Nunca pensei que fosse ficar tão limitado a uma forma de existência tão encaixotada. Queria o mundo antes disto, neste é tudo muito gasto. Que prisão, às vezes preciso de viagens extra-corpóreas…

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Solidão

As coisas que quero não são de comprar, nem de vender. Parar de querê-las é como parar de respirar. Não dá pra ser zen, não é expectativa; faltam essenciais. Vejo o mundo passando como filme sem graça na TV. Quero comunidade, comungar no trabalho, rir e chorar junto, amar em todas as dimensões. Amor não é unidimensional. Casais não são auto-suficientes. Tudo está tão deficitário. Preciso aprender a ser solitário.

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Mosca da Primavera

Os gatos observam
o lá fora através da tela
Primeira mosca da primavera.

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Abstração

O neto pequeno pergunta à mãe
“Vovô morreu?”
“Não, filho, ele mora longe”
Sou mesmo um ser muito abstrato.

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Papéis

Se não me revelo, desapareço.

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Vida de Aranha

Eu, como a aranha, vivo dependurado por um fio.

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Elaboramento

Quero ser elaborado, mas dispenso o verniz.

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Ponte do Coração

Entre o sentimentalismo e a sensibilidade existe um abismo, cuja ponte liga o coração à razão.

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Negror

…Y la nieve calma cae en mis pelos, cuyo negror recusa el gris y el blanco, pero me quedo nevado.

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Janela dos Olhos

Eu, que olho o mundo pela janela de meus olhos, vejo as coisas paradas, em meio do movimento das árvores que dançam com o vento.

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Conspiração

O ordinário do mundo é a matéria da poesia. Cuidado! Poetas conspiram com o que revelam.

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Sem caminhos

Nossas verdades são tão profundas quanto nossas perguntas. Pergunte-me e te responderei. Com minhas perguntas sou decisivo, decifro-me aos poucos, mas não te guiarei. Vamos! Juntos por onde não há caminhos.

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